Após prédios esvaziados na madrugada e edifício em construção demolido pela prefeitura, moradores da Muzema temem nova tragédia

0
16


O medo do próximo desabamento tira o sono dos moradores da comunidade de Muzema, na Zona Oeste do Rio. O barulho de uma súbita rachadura no piso de um apartamento no Condomínio Jardim Tropical, na Estrada de Jacarepaguá, causada por um erro na fixação dos azulejos, bastou para que mais de 60 moradores de dois prédios saíssem às pressas de casa, no meio da madrugada desta segunda-feira. Num endereço vizinho, um prédio em construção foi demolido horas depois pela prefeitura, que assumiu uma postura de tolerância zero quanto à composição de novos edifícios sem licenciamento ambiental — um negócio lucrativo para os grupos paramilitares que atuam na região. Mais de 180 demolições como esta aconteceram no Rio desde o início do ano, das quais 75% se concentram nos bairros de Santa Cruz, Campo Grande, Barra da Tijuca e Jacarepaguá, região onde a milícia fincou suas raízes.

Memória: Construções irregulares na Muzema culminaram em desabamento que deixou 24 mortos em 2019
— Não importa a quem pertença, mílicia, tráfico ou o que for. Não vou deixar subir prédio novo aqui. Se estiver construindo, vou demolir — disse a subprefeita de Jacarepaguá, Talita Galhardo, ao EXTRA.

No muro do prédio demolido apareceu uma rachadura que assustou os moradores do local
No muro do prédio demolido apareceu uma rachadura que assustou os moradores do local Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Localizado na Estrada de Jacarepaguá, 115, o condomínio tem pouco mais de 20 prédios recém-construídos e de padrão relativamente alto para a vizinhança. O prédio de onde surgiu o estalo, por exemplo, tem seis andares contando com o térreo. Cada piso habitado tem três apartamentos, todos com uma sala, dois quartos, um banheiro e uma sacada. Ali, um aluguel custa cerca de mil reais. Assim como outras construções próximas, o edifício amanheceu com placas de vendo e alugo coladas nas sacadas, todas com o mesmo número; contudo, enquanto jornalistas visitavam e fotografavam o condomínio, elas foram retiradas. O EXTRA tentou contato pelo telefone anunciado, mas as ligações foram recusadas.

Tolerância Zero: Prédio em construção na Muzema é demolido em rua de edifícios que foram evacuados nesta segunda-feira
Apesar do aparente esmero na construção dos edifícios, muitos deles estão enviesados, como mostram as imagens feitas pelo repórter fotográfico Gabriel de Paiva. Um dos prédios mais tortos fica a menos de dois metros de um valão onde, segundo representantes da prefeitura, é despejada a maior parte do lixo produzido naquela região. Esta, por sua vez, não é própria para grandes construções, pois tem um solo instável. Além disso, emaranhados de fios de baixa tensão envolvem os postes — um deles chegou a vergar com o peso de diferentes modens, todos estampando marcas de negócios de telefonia locais.

No prédio vizinho, apareceu um espaço que não havia
No prédio vizinho, apareceu um espaço que não havia Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

— Provavelmente nenhum dos prédios aqui construídos tem licenciamento para construção nesta área. Eles sequer têm Registro Geral de Imóveis, o que dificulta a regularização dessas casas — diz Galhardo.
Após o susto da madrugada, a Defesa Civil avaliou todos os prédios do condomínio e concluiu que nenhum deles corria risco iminente de desabamento. Depois de correr para a rua por volta das 2h da manhã, os moradores dos dois prédios que foram evacuados — o edifício de onde veio o barulho e um outro à sua direita — puderam retornar a suas casas às 6h.

Milicianos comandam: Acusados de chefiar milícias em Rio das Pedras e na Muzema podem voltar para o Rio
Uma mulher grávida que mora ao lado do apartamento onde o estalo foi ouvido relatou à reportagem seu desespero ao escutar a campainha tocar no meio da noite:
— O primeiro apartamento em que a moradora do apartamento ao lado bateu foi o meu. Foi uma coisa absurda. Eu e meu filho saímos tocando todas as campainhas do prédio — conta, visivelmente abatida. — Estamos todos com medo do que pode acontecer, já que a situação está delicada para muitos prédios da vizinhança. Qualquer coisa já é suficiente para dar um susto.
Uma mulher que mora no andar de baixo conta que o medo do desabamento já se tornou natural para os moradores da região:

Construções ilegais: Operação policial cumpre mandados de busca e apreensão contra milícia que explora imóveis ilegais na Muzema
— Todo mundo desceu com a roupa do corpo, não tivemos tempo para dormir. Foi um susto enorme.
Ao lado da construção demolida, dois prédios de quatro a cinco andares, recém-construídos e ainda vazios, também foram vistoriados pela prefeitura, que, até o fim da tarde desta segunda-feira, só tinha recebido Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) de um deles. Trata-se de um documento que aponta o engenheiro ou arquiteto responsável pela construção, e com o qual é possível responsabilizar uma pessoa física por qualquer irregularidade na obra.

Nesta segunda-feira, a apresentação da ART foi a condição que a subprefeita Talita Galhardo deu aos proprietários para a não demolição das construções — embora, segundo ela, a prefeitura possa demolir todos os prédios construídos em áreas irregulares, a despeito da assinatura de um engenheiro.

Prefeitura demole um prédio em construção , perto do que estalou na Muzema
Prefeitura demole um prédio em construção , perto do que estalou na Muzema Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

— Escolhemos não demolir aqueles dois prédios porque são muito grandes, e é complicado demolir prédios desse tamanho. Para onde vão essas pessoas? Tem gente que chora porque gastou todo o investimento da vida nesses imóveis, como aconteceu hoje. É preciso ter um pouco de sensibilidade. E isso também é uma dificuldade do ponto de vista estrutural. Demolimos aquela construção em andamento, que já tinha uma pequena estrutura de madeira, mas mantivemos a fundação sob o solo, pois tirá-la, segundo a nossa avaliação, pode trazer prejuízo para a estrutura dos prédios do entorno — disse Galhardo.
Vacina no Rio: Paes provoca João Doria sobre antecipação de calendário de imunização
O secretário Brenno Carnevale, de Ordem Pública, também acompanhou as vistorias. Seus agentes cortaram a ligação de duas câmeras que faziam a vigilância da entrada do condomínio, por entender que elas podiam estar a serviço do crime organizado. Eles também apreenderam um bate-estaca encontrado na garagem de um dos prédios inspecionados pela Defesa Civil. Segundo moradores, ele seria usado para reforçar a estrutura do edifício.
— Ninguém se apresentou como responsável pelo bate-estaca, que estava sendo utilizado de maneira irregular, sem autorização. Por isso, apesar da tentativa dos moradores de evitar um estrago maior no local, interditamos o ponto e apreendemos o maquinário — informou Carnevale.





Fonte: G1