Após mobilização, Ana Paula e as filhas deixam as ruas e vão receber atendimento odontológico e reforço escolar

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“Eu nem acredito que minhas filhas estão tomando iogurte”, conta ao telefone Ana Paula Rodrigues Gama, de 46 anos. A alegria era tanta que a mãe nem reclamou com Tainá e Gabriela por estarem degustando o quitute antes do jantar, um macarrão com peito de frango, refeição como há muito a família não via. Depois de ser contada pelo GLOBO, a história das três, que dividiam a vida entre dias em uma calçada no Centro do Rio e outros em um barraco precário no Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, gerou uma enorme onda de solidariedade.

Filho mais velho de Ana Paula, que enfrenta as próprias dificuldades financeiras, Renan Rodrigues conseguiu, com a ajuda de amigos, cadastrar uma chave PIX, por onde estão chegando as doações. Com o dinheiro, foi possível pagar, na noite desta sexta-feira, as compras de cerca de R$ 300 no mercado, que deixaram a geladeira cheia como nunca antes. Em poucas horas e com mais contribuições, já havia mais R$ 600 na conta aguardando destinação.

— Hoje eu não larguei o telefone, eu nem lembrava que o aparelho também servia para receber ligação. O pessoal oferece comida, material de construção, tudo. Nossa família não poderia estar mais grata. Deus vai dar em dobro para todo mundo — diz o pedreiro, de 26 anos.

Foto enviada pela família mostra a geladeira cheia
Foto enviada pela família mostra a geladeira cheia Foto: Reprodução

Com toda a assistência recebida, Ana Paula garante que, ao menos por ora, não precisará mais ir para as ruas, onde obter alimentação era mais fácil. Até conseguir um emprego, e enquanto faz obras na casa sem porta, janela ou emboço, ela pretende ficar na residência do filho, também no Pavão-Pavãozinho.

Reforço escolar

A ajuda chega também para as crianças. Um professor da rede municipal, sensibilizado com o relato, se dispôs a imprimir atividades escolares e, uma vez por semana, ir até a casa das meninas explicar sobre interpretação de texto, operações matemáticas e outras disciplinas.

— A postura da mãe de acordar às 7h para colocar as filhas para estudar, mesmo às vezes não sabendo ensinar a filha,me deixou muito emocionado. A Ana saiu da favela para manter as filhas vivas e foi para uma situação de dignidade. Então é preciso ajudar, e não há melhor saída que a educação para que a situação não se reproduza também com as crianças — afirma o professor Diogo de Andrade, de 36 anos.

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Já Ana Paula, que conta não ter conseguido mais trabalho após perder quase todos os dentes, receberá tratamento odontológico gratuito, bem como as filhas. Victor Hugo Daniel de Paula, dentista na clínica AYO Odontologia, já realiza trabalhos voluntários com a sócia, e a empresa quer ajudar a família.

— Eu fiquei muito tocado quando ela disse que não consegue emprego porque não tem os dentes. Como essa é uma possibilidade que eu tenho e sei que pode ajudá-la a ter uma vida melhor, me coloquei à disposição — relata Victor Hugo.

— Eu já estou me sentindo toda importante, imagine quando conseguir meu sorriso de volta? Eu não poderia estar mais feliz — agradece Ana Paula.

Ana Paula ajuda as crianças nas atividades escolares no período nas ruas
Ana Paula ajuda as crianças nas atividades escolares no período nas ruas Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

Mais apoio

Além da ajuda que está chegando diretamente para a família, que inclui até doações de uma porta e de um vaso sanitário, outras iniciativas pretendem somar montantes ainda mais expressivos. Para auxiliar na reforma da casa de Ana Paula, a estudante de odontologia Taís Queiroz criou um grupo no WhatsApp com mais de 130 pessoas que se voluntariaram para colaborar com dinheiro e materiais de construção. Até o momento, a mobilização já arrecadou R$ 2.860,00, dinheiro que será entregue assim que for atingida a meta de R$ 50 mil.

— Eu sou mãe e sei o que ela deve sentir vendo as filhas dela na rua. Encontrei com eles hoje para conhecê-los e falei que estou fazendo uma planilha com tudo que eles precisam para arrecadar doações. Eles ficaram muito felizes e agradecidos — conta Taís.

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Enquanto isso, a família de Ana Paula faz questão de manter todos que estão oferecendo apoio atualizados. Nesta sexta-feira, no fim do dia, um vídeo enviado por WhatsApp mostrava as sacolas de compras e uma mensagem de agradecimento. Em seguida, veio a foto da geladeira lotada.

Procurada sobre a situação da família, a Secretaria municipal de Assistência Social enviou a seguinte nota:

“A equipe do projeto Abordagem Dedicada para Crianças, Adolescentes e Famílias, da Coordenadoria da Infância, Adolescência e Juventude da Secretaria Municipal de Assistência Social, encontrou a família de Ana Paula Rodrigues Gama pela primeira vez sob uma marquise da Avenida Graça Aranha, altura do número 326, no Centro da Cidade, no dia 20 de janeiro de 2021. As assistentes sociais iniciaram o trabalho de aproximação e estabelecimento de vínculo com ela e com a família em visitas seguintes realizadas nos dias 22, 24 e 26 de janeiro. Ana Paula foi encaminhada ao Centro de Referência Especializada em Assistência Social (Creas) Maria Lina, no Flamengo, para acompanhamento socioassistencial e realização de atividade lúdica, mas ela não compareceu, e logo depois saiu das ruas.

Na quinta-feira, 25 de fevereiro, depois de tentar localizá-la no Centro, a equipe conseguiu encontrá-la no final da tarde em sua casa, na comunidade do Pavão-Pavãozinho, onde mora com as duas filhas pequenas. Além da equipe de abordagem dedicada estava também a equipe do Creas Maria Lina. Considerada a situação de precariedade em que a família vive, numa casa inacabada, com cômodos sem janelas, exposta à circulação de ratos, ao esgoto do vizinho que jorra numa parede, e que só conta como fonte de renda os R$ 269,00 que recebe do programa Bolsa Família, foi marcado, para a próxima segunda-feira, 1º de março, atendimento no Creas Maria Lina.

No Creas ela vai receber atendimento psicossocial, que é o atendimento interdisciplinar, realizado por psicólogas e assistentes sociais. A partir daí será iniciado o acompanhamento socioassistencial, por meio do Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (Paefi), para assim acionar a rede de políticas públicas para atendimento à família.

Desde 2015 Ana Paula é cadastrada no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Sebastião Theodoro Filho, de Copacabana, onde ingressou no Cadastro Único e por onde recebe o Bolsa Família. Pelo Paefi a família receberá os encaminhamentos necessários para superar as vulnerabilidades, em áreas como educação, saúde e transferência de renda – além do Bolsa Família pode ser que as equipes julguem necessário que a família receba o aluguel social, entre outros benefícios.”

*Sob supervisão de Vera Araújo





Fonte: G1

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