Aparição rara de ave colhereira na Lagoa sugere melhoria da condição ambiental, dizem especialistas

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RIO — Os cariocas que aproveitaram o feriadão para passear na Lagoa Rodrigo de Freitas tiveram uma agradável surpresa. Neste domingo, foi registrada a presença de colhereiros no espelho d’água e nas margens dos mangues, numa aparição extremamente rara. Segundo especialistas, não sabe-se nem qual foi o último registro oficial da ave, que destaca-se pela sua plumagem rosada e o bico em formato de colher, na região. Por isso, o evento sinalizaria uma revitalização das condições ambientais da Lagoa, explicam.

No mês que vem, o projeto Manguezal da Lagoa, que nas últimas décadas recuperou trechos de mangues no local, completará 32 anos. Esse é o período em que o biólogo Mário Moscatelli, criador e coordenador do projeto, frequenta a Lagoa Rodrigo de Freitas e, durante todos esses anos, ele diz que nunca havia visto um colhereiro naquelas águas.

— Posso dizer que essas aves não apareciam na Lagoa há pelo menos 32 anos, que é o tempo que estou lá. Eu diria que essa aparição é um efeito tanto da melhoria das condições ambientais da Lagoa, apesar dos problemas ainda existentes, bem como da sua renaturalização, através da recuperação dos manguezais e de suas margens— explicou Moscatelli, que fez fotos e vídeos das aves.

Colhereiros fotografados na Lagoa
Colhereiros fotografados na Lagoa Foto: Foto do Leitor / Mario Moscatelli

Os colhereiros medem entre 68 e 86 centímetros e possuem bicos de cerca de 20 centímetros em forma de colher, o que o auxilia a se alimentar de micro-organismos das águas, como crustáceos, plânctons e sedimentos diversos. Por causa dessa alimentação, são considerados “filtradores”.

resente em toda a América do Sul, o colhereiro é facilmente encontrada no litoral brasileiro e, no Rio, sua maior concentração é na Baía de Guanabara, em especial na região da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim, e no Sistema Lagunar da Baixada de Jacarepaguá. É provável, portanto, que o grupo de cerca de sete aves vistos neste domingo tenha vindo desses pontos.

— A Lagoa, mesmo sendo um ecossistema urbano, mostra que se soubermos gerenciarmos os recursos naturais, podemos ter incremento da biodiversidade ainda que em áreas reduzidas, o que incrementa, por sua vez, o desenvolvimento econômico. Ontem (domingo) estive lá na Lagoa, e o que tinha de gente tirando foto era algo incrível — celebra Moscatelli. — Vai ver os colhereiros vieram um pouco antes para a festa de 32 anos do projeto de mangues.

Há três meses, O GLOBO publicou que a ocorrência de frangos d´água, inclusive de ninhos, vinha crescendo na Lagoa, o que também reforçava o aumento de qualidade ambiental da região. Outros especialistas concordam com a associação, apesar de frisarem que um diagnóstico mais correto seria possível apenas através de pesquisas e monitoramentos constantes. Nesta segunda, a reportagem não encontrou mais os colhereiros na Lagoa.

A bióloga Larissa Cunha, da Uerj, e especializada em aves, conta que ficou chocada quando recebeu a notícia, de uma amiga, da aparição dos colhereiros na Lagoa.

— Uma amiga minha foi correr na lagoa e tirou foto dessas aves. Fiquei impressionada, até perguntei, para ter certeza, se eram rosadas mesmo. Achei bem surpreendente, porque não é comum. Eu nunca vi, nem relatos, de colhereiros na Lagoa. Mas teria que ser pesquisado. Seria bom verificar se eles se tornarão mais frequentes na Lagoa antes de afirmar que eles voltaram mesmo — explicou Cunha.

Quanto mais rosada a plumagem das aves, maior o sinal de saúde, explica o biólogo Rodrigo Guerra, também da Uerj. Ele diz que o pigmento vem dos micro crustáceos, normalmente avermelhados, comidos pelos colhereiros.

— Se está muito vermelho, é porque há muita oferta de alimento — diz Guerra, que também nunca havia visto o colhereiro na Lagoa. — É provável que no Brasil colonial, imperial, houvesse presença do colhereiro na Lagoa. Mas, com o avanço da urbanização e da degradação, deixaram de ser presentes. Os manguezais proporcionam uma filtragem também do ecossistema, por isso a Lagoa Rodrigo de Freitas provavelmente vai voltar a ser frequentada por organismos que estavam afastados.





Fonte: G1