Voluntário brasileiro supera traumas no Japão e terá Olimpíada como marco na vida – 04/07/2021 – Esporte

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O brasileiro Fernando Yamauti, 41, será um dos cerca de 70 mil voluntários da Olimpíada de Tóquio. Morador de Nagoya desde 2003, ele atuará na assistência à delegação de Portugal. Na sequência, durante a Paraolimpíada, auxiliará diretamente o Comitê Paralímpico Brasileiro. Os trabalhos, conforme conta em depoimento à Folha, marcam a celebração de um novo capítulo da sua vida, após anos difíceis vividos no Japão, quando teve dificuldade de encontrar sua identidade e enfrentou a síndrome do pânico.

Eu fazia faculdade de Turismo no Brasil e trabalhava num hotel, mas ganhava muito pouco e dependia dos meus pais para me sustentar. Em 2003, resolvi vir trabalhar só um ano numa fábrica no Japão, como muitos decasséguis fazem, e voltar para o Brasil.

A comunidade brasileira é realmente uma bolha. A gente fica totalmente isolado da sociedade japonesa, minha convivência era só com brasileiros. Os japoneses nem cumprimentavam a gente na fábrica, eram dois mundos totalmente separados. Eu me sentia até confortável dentro dessa bolha e não me motivava a aprender o idioma.

Nunca tinha ganhado tanto quanto na fábrica, apesar de fazer um trabalho horrível. Para mim era uma tortura acordar todo dia para ficar 15 horas fazendo aquele mesmo movimento, um trabalho bastante pesado e sujo, com autopeças. O dia inteiro cheirando fumaça de plástico queimado. Deu um ano e não tinha poupança suficiente para voltar ao Brasil, mas essa segurança econômica que nunca havia sentido fez com que os anos fossem passando.

Ganhava bem, mas não era nem um pouco feliz naquele trabalho. Chegou uma hora em que não conhecia outro jeito de viver, não conseguia nem saber o que faria se voltasse ao Brasil.

Durante vários anos, não vi meus pais, mas minha mãe [conhecida como Maria], a pessoa mais importante da minha vida, teve um derrame em 2007 e fui para o Brasil. Passei duas semanas com ela e voltei para o Japão. Logo na sequência, ela morreu. Minha maior frustração, na época, foi não ter lhe dado a alegria de me ver concluindo um curso superior.

No ano seguinte, veio a crise de 2008 e fui demitido desse emprego de que eu tanto reclamava. Todos os brasileiros da fábrica também perderam o emprego, e a maioria foi embora para o Brasil. Eu continuei em Nagoya e comecei a fazer bicos em lojas de conveniência. Foi a primeira vez que comecei a ficar só entre japoneses, com um salário de 1/3 do que eu ganhava na fábrica.

As contas apertaram, eu já não tinha amigos e passava o dia inteiro tentando me comunicar. Tudo isso, somado à perda da minha mãe, desencadeou uma síndrome do pânico. Minhas pernas travavam se eu estivesse perto de muitas outras pessoas, meu coração disparava e tinha muito medo de sair de casa. Procurei uma psicóloga brasileira aqui. Durante três anos, fui acompanhado com medicamentos.

Superação pelos estudos

Eu não podia ficar naquela vida para sempre, e por isso fui aprender o idioma japonês. A maioria dos chineses e coreanos da minha turma estudava para entrar na faculdade, e vivendo entre eles vi essa possibilidade. Eu me cobrava muito por não ter curso superior, já que meus três irmãos mais velhos tinham.

Como uma faculdade presencial era muito cara, escolhi fazer, a distância, o curso de Comunicação Internacional, para estudar mais inglês e japonês. Em 2014, quando me formei, comecei a fazer Ciências Econômicas, também a distância. Já estava trabalhando como auxiliar administrativo num órgão público e achei que poderia acrescentar. Concluí em 2018.

Eu me lembro de no dia da minha formatura ter dito aos meus colegas que se eu pudesse voltar no tempo não mudaria nada do que fiz, só gostaria de encontrar o Fernando naquele fundo do poço e dizer que dez anos depois tudo daria certo, com a síndrome do pânico superada, fazendo um trabalho de que gosto no setor de contabilidade e, acima de tudo, com a certeza de que lá do céu minha mãe está feliz e orgulhosa da minha trajetória.

Nos primeiros anos em que comecei a estudar japonês, eu meio que tentava ser igual aos japoneses com quem convivia. Hoje sinto que sou um brasileiro residente no Japão. Não tenho mais essa crise. A maioria dos meus amigos é formada por japoneses, e eles costumam chamar as pessoas pelo sobrenome. Mas faço questão que me chamem de Fernando. É uma questão de identidade mesmo.

Sempre gostei de música, mas nunca cheguei a estudar. Dois meses antes de eu fazer 40 anos, começou a pandemia. Trabalhava em casa e passava todo o resto do tempo vendo TV, pensando besteira, sozinho.

Comecei a pensar que, se o mundo não fosse voltar ao que era antes, eu poderia me arrepender de não ter me dedicado à música. Apareceu na minha timeline um anúncio do curso de Licenciatura em Música da Uninter [faculdade brasileira], eu cliquei e na hora fiz minha inscrição. Gosto de cantar e faço aulas presenciais de vocal e violão, mas agora estou conhecendo toda a parte teórica.

Expectativa olímpica

Quando anunciaram que a Olimpíada seria no Japão [em 2013], para mim foi surreal. Indo do Rio de Janeiro para Tóquio, meus dois países. Eu me inscrevi para ser voluntário logo que abriram. O Japão inteiro estava muito empolgado, várias pessoas que conheço tentando comprar ingressos e nem 10% conseguiram. Todas as empresas que são a vitrine do país patrocinando.

Quando começou a pandemia, foi um choque muito grande. Com o passar do tempo, a Olimpíada, que era unanimidade, um evento nacional, passou a enfrentar grande oposição. Achei produtivo ter durante um ano esse grupo contrário, porque o debate para estabelecer as melhores medidas só tem a ganhar.

Acho que o governo correu atrás de aperfeiçoar as medidas de prevenção de uma forma geral por causa da Olimpíada. Os estados de emergência foram decretados um pouco por causa da pressão para os números baixarem para realizar o evento. Nos últimos dias também estão correndo para vacinar as pessoas.

Vi na TV um parlamentar perguntar: “o que é mais importante, a vida e saúde da população ou os Jogos?”. Quando você joga a questão de maneira muito superficial, é claro que as pessoas vão responder que são a favor da vida, não de uma festa. Mas não é tão simples. Acredito que o debate deveria estar focado nos protocolos de enfrentamento da pandemia, independentemente dos Jogos.

Quase todo o mundo que eu conheço fala que vai dar errado. Eu até parei de falar que estou indo ser voluntário, porque começam a encher o saco [risos]. Várias pessoas começaram a esconder que vão trabalhar nos Jogos, porque sofrem pressão para desistir, inclusive nos seus locais de trabalho. Eu tive a sorte de ter o apoio dos meus chefes.

No domingo (27), fui fazer o treinamento na Vila Olímpica e tomar a vacina no prédio do governo de Tóquio. A vila está impecável. Imaginava que encontraria os trabalhadores correndo, cuidando dos últimos ajustes, mas está tipo um shopping cinco minutos antes de abrir. Os corredores vazios só esperando as portas se abrirem. Tudo prontinho.

A boa notícia é que agora todos os voluntários serão vacinados, mas aqui as pessoas continuam com bastante receio sobre a segurança dos Jogos, principalmente agora que na televisão está passando direto sobre os novos casos de coronavírus na Copa América.

Acredito que seja um contexto bastante diferente. Tóquio está se preparando há bastante tempo, e com o cuidado e a disciplina dos japoneses, tudo será feito com segurança. Eu pelo menos me senti bastante seguro e estou esperançoso de que os Jogos marcarão o início de tempos melhores.



Fonte: Máquina do Esporte