Vexame? Perder virou verbo proibido no futebol brasileiro – 12/06/2021 – Juca Kfouri

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A rara leitora e o raro leitor ao lerem estas linhas sabem mais que o colunista por conhecerem o resultado do Dérbi disputado na casa verde.

Se o Palmeiras ganhou do Corinthians, como era esperado, a leitura será uma; se, surpreendentemente, perdeu, ou mesmo se só empatou com o frágil arquirrival, será outra, completamente diversa, porque nem é bom pensar no que terá acontecido entre a noite do sábado (12) e o domingo.

Tudo porque o alviverde amargou derrota histórica para o alagoano CRB, da Série B, na Copa do Brasil, depois de tê-lo vencido em condições inóspitas em Maceió, mas, em seu gramado artificial, e na noite fria do outono paulistano, acabou eliminado do torneio que o tem como atual campeão, sem chegar nem sequer às oitavas de final. O 1 a 0 no jogo e o 4 a 3 nos pênaltis soaram como catástrofe, inadmissível, o fim dos tempos, um vexame!

Mas, terá mesmo sido isso tudo?

Quantas vezes o futebol fez do inesperado sua surpresa para fazer dele o mais apaixonante dos esportes?

Os tempos são modernos e as reações diante da derrota cada vez mais retrógradas.

O cidadão normaliza meio milhão de mortes por incúria do governante, o retrocesso dramático na política ambiental, as perdas dos direitos trabalhistas, e ensandece porque seu time perdeu.

O ídolo de ontem se transforma no vilão de hoje e não serve mais para calçar as chuteiras das cores que o torcedor traz do berço.

Abstraia o Dérbi cujo horário impede que seja tratado aqui como merece.

Analise o que aconteceu em Palmeiras 0, CRB 1.

Nada menos que 35 finalizações alviverdes contra apenas duas alagoanas.

Das que foram entre as três traves, pelo menos três defesas sensacionais de Diogo Silva, que fez outras sete intervenções, além de pegar três pênaltis e converter um, com extrema categoria, no melhor goleiro em atuação no Brasil, Weverton, da seleção.

O Palmeiras do lusitano Abel Ferreira, justamente acusado de montar uma equipe nada encantadora, mais defensiva que ofensiva, jogou para golear, tamanha a superioridade demonstrada durante todo o embate.

A bola, malandra, insistiu em não entrar e, de verdade, o único atestado que passou ao estrelado time paulista foi o da incompetência na hora do pênalti, porque recorrente, pela quarta vez seguida, aí consideradas as disputas em sequência no Mundial de Clubes, pelo modesto 3º lugar, na Supercopa do Brasil e na Recopa Sul-Americana.

E tudo isso sem a pressão do torcedor no estádio.

Nada que exima o crítico de um mínimo de coerência. Porque mesmo os adeptos do desempenho sobre o resultado fecharam os olhos para a qualidade demonstrada por Raphael Veiga e companhia e abriram as comportas para inundar jornais, rádios, TVs e blogues na adjetivação: vexaminoso, vergonhoso, humilhante, deplorável —só mesmo, por terem caído em desuso, não se escreveu, nem se falou, em oprobrioso ou verecundo.

Desolado, o treinador português procurou não apresentar nenhuma desculpa e se limitou ao óbvio, ao descrever a cena exatamente como a cena foi. Faltou eficácia durante o tempo normal, faltou controle psicológico na cobrança dos pênaltis, faltou aquele detalhe em três letrinhas, o gol.

Só errou ao atribuir, porque seria o costume brasileiro, a Deus, o que não quis.

Não, não foi Ele. Foram os, os deuses dos estádios.

Que viram demônios caso o Dérbi também tenha escapado.


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Fonte: Máquina do Esporte