VAR diz que ignorou falta para preservar árbitro de campo – 27/08/2023 – O Mundo É uma Bola


Esta é mais uma das incontáveis histórias que o VAR (árbitro assistente de vídeo, na tradução do inglês) traz para o futebol desde a sua introdução, seis anos atrás.

As polêmicas relacionadas ao sistema que almeja evitar erros “claros e óbvios” no esporte se acumulam a cada semana, principalmente na marcação (ou desmarcação) de impedimentos e pênaltis.

A mais recente notícia que saltou aos olhos sobre o VAR veio da boca de Mike Dean, 55, que trabalhava para a federação inglesa até a temporada passada.

É a primeira vez que, até onde eu sei, um árbitro que atuava como VAR veio a público para, sem meias-palavras, dizer que deixou propositalmente de alertar o colega de campo a respeito de um erro que ele, o árbitro assistente, identificou em seus monitores.

A partida era Chelsea x Tottenham, no dia 14 de agosto do ano passado, clássico londrino pela segunda rodada do Campeonato Inglês de 2022/2023, com mando dos Blues. Quem apitava no campo era Anthony Taylor, 44, e Dean era o VAR.

Nos acréscimos do segundo tempo, o Tottenham, com desvantagem por 2 a 1 no campo do Chelsea, pressionava. Escanteio e aquele empurra-empurra na área. Protagonismo para o zagueiro argentino Romero, do time visitante, dando uma tremenda puxada na cabeleira do espanhol Cucurella, que desabou, berrando.

Dean, na sala do VAR, viu a falta escandalosa, porém preferiu se calar e não avisar Taylor, que não se atentou à irregularidade e marcou novo escanteio.

“Deixei passar aquele estúpido puxão de cabelo”, declarou ao podcast Up Front. “Se eu pudesse voltar no tempo, o que faria? Mandaria Anthony [Taylor] para a checagem.”

Em cada estádio das competições em que há a presença do VAR, ao lado do gramado localiza-se um aparelho em que o árbitro de campo checa jogadas após recomendação do árbitro de vídeo –geralmente, a marcação (ou não marcação) é alterada depois da conferência.

Dean justificou a sua atitude como uma forma de, em um jogo extremamente duro e pegado, preservar o colega de profissão, com quem tinha também relação de amizade, de um momento extra de tensão.

“Ele já havia advertido os dois treinadores [Thomas Tuchel, do Chelsea, e Antonio Conte, do Tottenham], estava sendo um jogo infernal, difícil do começo ao fim. Depois [da partida] eu disse ao Anthony: ‘Não queria mandar você para o monitor depois do que aconteceu no jogo’.”

Dean prosseguiu: “Eu não queria mandá-lo porque ele, além de árbitro, é um camarada, e não queria que sofresse mais. Ele é grande, careca e feio o suficiente para saber que, se está indo ao monitor, seria por algum motivo. Se alguém puxa o cabelo, é moleza [decidir o que fazer]. Foi uma decisão muito ruim minha.”

A regra diz que o VAR pode intervir, para fazer a verificação da jogada, somente em lances de gol, de pênalti, de expulsão e de erro de identidade (advertência dada a jogador errado). Está lá para ajudar o árbitro de campo a corrigir equívocos exclusivamente nessas situações.

No mencionado caso, Dean deveria ter dado a Taylor a opção de decidir se o ato de Romero seria passível de cartão vermelho. Independentemente disso, tomando ciência do ocorrido, o árbitro de campo apontaria falta para o Chelsea.

Sem a checagem, não aconteceu. A bola permaneceu com o Tottenham e, no lance seguinte, Harry Kane cabeceou e empatou o jogo, inflamando ainda mais os ânimos no estádio Stamford Bridge. Gol validado, Taylor, em meio ao caos, encerrou o confronto.

“Foi um erro capital”, reconheceu Dean. “Se eles [Tottenham] não tivessem feito [o gol], não teria sido um grande problema.”

Fruto da sua decisão, ele acabou indo para a “geladeira”, não sendo escalado por dois meses depois de as autoridades da Premier League analisarem seu desempenho naquele lance específico.

“Eu mesmo pedi um tempo”, declarou Dean, acrescentando que, ao ser reintegrado, passou a temer pela própria atuação no jogo em estava escalado como VAR. “Eu ficava paralisado na cadeira, torcendo para nada acontecer.”

Ele se aposentou ao término da temporada tendo acumulado mais de 550 partidas como árbitro na elite europeia.


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Folha de S.Paulo