Única final que Argentina venceu Brasil teve pancadaria e herói descontente – 09/07/2021 – Esporte

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A lembrança de finais recentes entre Brasil e Argentina ainda está bastante viva na memória dos torcedores. Especialmente dos brasileiros, vitoriosos em 2004 e 2005 com gols históricos de Adriano, e também em 2007, com a goleada por 3 a 0 diante de uma equipe que já tinha Lionel Messi.

Para recordar uma decisão vencida pelos argentinos contra o rival, é preciso voltar no início do século passado, a 1937.

A final da Copa América daquele ano, competição chamada então de Sul-Americano, foi a primeira entre as seleções na história e a única vencida até hoje pelos alvicelestes –não considerando a Copa Roca ou o Superclássico das Américas, torneios amistosos entre os dois países e com edições esporádicas.

Organizada na Argentina, a competição de 1937 reuniu seis seleções. Além dos anfitriões, participaram Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai.

Para sediar as partidas, foram escolhidos dois estádios: o antigo Gasómetro, em Boedo, que pertencia ao San Lorenzo, e o estádio de Alvear y Tagle, que pertencia ao River Plate e era chamado assim pelo encontro das ruas de mesmo nome. Ambos já não existem mais.

Pela primeira vez, a competição autorizava as seleções a realizar substituições durante as partidas. Mas ainda não havia bancos de reservas. Com isso, os jogadores suplentes ficavam deitados próximos à linha lateral enquanto a partida se desenrolava.

Disputada em pontos corridos e com turno único, cada equipe jogaria cinco partidas, e quem somasse mais pontos levaria o título.

O Brasil chegou ao último jogo, contra a Argentina, na liderança, com 8 unidades. Mas a derrota por 1 a 0 para os argentinos, gol de Enrique “Chueco” García, levou os anfitriões também a 8 pontos e forçou um duelo de desempate para definir o campeão.

Autor do gol da vitória, García é considerado um dos melhores pontas esquerda do futebol argentino. Disputou 35 partidas pela seleção e anotou 9 gols, 4 deles em clássicos diante do Brasil.

Além dele, a equipe também contava com Francisco Varallo, terceiro maior artilheiro do Boca Juniors, e Antonio Sastre, figura histórica do Independiente e que viria ao futebol brasileiro na década de 1940 para se tornar ídolo do São Paulo.

Contudo, apesar de reunir jogadores com talento e experiência, a partida de desempate seria decidida por um garoto que iniciava a sua carreira e, aos 19 anos, ainda era menor de idade pela lei vigente na Argentina.

Vicente de la Mata chegou à Copa América como atleta do Central Córdoba. De acordo com o livro “Quién es Quién en la Selección Argentina”, de Julio Macías, De La Mata enfrentou Peru e Uruguai na Copa América de 1937 ainda como representante do clube cordobês.

O Independiente, interessado em seu passe, negociou com o jogador e com o Central. As partes chegaram a um acordo e seu contrato com o novo clube foi assinado por seu pai em 31 de janeiro, dado que o filho não havia atingido a maioridade. No dia seguinte, ele enfrentaria o Brasil no confronto decisivo da Copa América.

Iniciada na noite do dia 1º de fevereiro, a partida só terminou nas primeiras horas da madrugada do dia 2. Isso porque, além do empate em 0 a 0 no tempo normal, brasileiros e argentinos se engalfinharam no campo do velho Gasómetro.

“Foram produzidas todas as incidências imagináveis, desde encontrões mais ou menos fortes até tumultos indescritíveis. Houve suspensões, abandonos, lesionados, agressões”, escreveu o jornalista argentino Chantecler para a Revista El Gráfico.

Segundo a crônica de Chantecler, a confusão se deu aos 35 minutos do segundo tempo, após Varallo sofrer uma falta dura do brasileiro Alfonso. O argentino não gostou da entrada e foi tirar satisfação, desferindo dois pontapés no defensor, dando início às agressões entre os desportistas.

Após mais de meia hora com o jogo paralisado, os atletas voltaram a campo, mas uma falta dura de Cherro em Roberto reacendeu os ânimos e os jogadores voltaram a se degladiar. A segunda onda de socos e chutes fez com que o Ministro das Relações da Argentina, Saavedra Lamas, abandonasse o estádio.

Finalizada em um empate sem gols, a partida foi para a prorrogação. Vicente de la Mata, que de acordo com a crônica da El Gráfico havia entrado no lugar do lesionado Varallo, marcou duas vezes, aos 4 e aos 8 minutos do segundo tempo extra.

O primeiro gol veio em um chute cruzado, após indecisão do zagueiro Jaú e do goleiro Jurandyr em um cruzamento de “Chueco” García. O segundo chegou após cruzamento de Carlos Peucelle, gol bastante reclamado por Jurandyr e pela crônica brasileira por suposto impedimento.

“O juiz, inicialmente coagido, prejudicou. Os dois tentos foram cedidos a custo, foram arrancados pela violência. O segundo, impedido”, escreveu Thomaz Mazzoni em A Gazeta Esportiva.

Apesar de decidir o clássico e entrar para a história como o autor dos gols do título de 1937, Vicente de la Mata, que jogou três partidas na competição, não se empolgou com o feito na final da Copa América.

“Cheguei com 65 quilos e vou embora com 62. Quando me substituíram contra o Uruguai, me desmoralizei. Suado, fiquei para ver o segundo tempo. Adoeci, não sei se da enfermidade ou de amargura. Agora fiz dois gols, mas eu queria ter jogado mais, e não joguei”, declarou depois do torneio.

Recém-contratado pelo Independiente, o então menor de idade Vicente de la Mata se tornaria um dos maiores ídolos do clube de Avellaneda, formando, ao lado de Sastre e Arsenio Erico, um ataque recitado como música pelos torcedores. Juntos, foram campeões nacionais em 1938 e 1939.

“Aonde vai essa gente? Vai ver o don Vicente!”, cantava a torcida do Independiente na época.

De la Mata disputou 13 jogos com a seleção argentina e marcou 6 gols, os mais importantes da lista na final da Copa América contra o Brasil. Sua despedida do selecionado foi justamente diante da equipe brasileira, em 1946, pelo Sul-Americano.

No dia 10 de fevereiro daquele ano, os argentinos venceram os brasileiros por 2 a 0, no Monumental de Núñez. Entretanto, a partida novamente descambou para a violência. Após Jair fraturar José Salomón em uma dividida, jogadores das duas equipes iniciaram a confusão no gramado.

O confronto ficou paralisado por mais de uma hora. Chico e De la Mata foram expulsos e não puderam finalizar a partida, que terminou em título argentino. Apesar da conquista, o jornalista Julio Macías, em seu dicionário dos argentinos que já atuaram pela seleção alviceleste, lamenta a forma como se despediu o herói de 1937.

“Essa tarde/noite constituiu sua aposentadoria da seleção, e não poderia ter sido mais triste.”



Fonte: Máquina do Esporte