Rio-16 deixa frutos para desempenho do Brasil em Tóquio, mas futuro é incerto – 16/07/2021 – Esporte

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Ao conquistar mais medalhas na Rio-2016 do que quando sediou os Jogos Olímpicos, em Londres-2012, a Grã-Bretanha inaugurou um padrão de sucesso a ser perseguido pelas delegações nas Olimpíadas seguintes. A primeira desafiada a repetir o feito será a brasileira.

Embora o COB (Comitê Olímpico do Brasil) não coloque isso como meta oficial, superar em Tóquio as 19 medalhas obtidas há cinco anos no Rio de Janeiro será comemorado como medida de sucesso na participação. Ainda mais no contexto pandêmico que afetou a preparação de todos, mas de alguns brasileiros em especial.

Há motivos para acreditar na possibilidade de evolução numérica, ainda que eles não sejam necessariamente relacionados a um projeto consistente de desenvolvimento do legado esportivo que possa levar a isso.

Pelas projeções atuais, dificilmente o recorde virá sem algumas conquistas no surfe e no skate, esportes que farão sua estreia no programa olímpico e nos quais o Brasil já tinha excelentes atletas à disposição.

A confederação de skate soube trabalhar em cima do legado “natural” proporcionado pelas tantas gerações de skatistas que lutaram para abrir espaço. Criou uma seleção brasileira adulta e outra de base pensando nos próximos anos, participou da montagem de um circuito nacional forte e atraiu patrocínios.

No surfe, se confirmado o sucesso olímpico em 2021, este se dará pela mesma razão dos quatro títulos em seis temporadas no circuito mundial: a existência de uma geração extremamente talentosa.

Fora esses dois esportes, as principais chances de medalha do Brasil em Tóquio que não participaram da Rio-2016 são Alison dos Santos, nos 400 metros com barreiras, e Beatriz Ferreira, no boxe. Milena Titoneli (taekwondo), Hebert Conceição (boxe) e Marlon Zanotelli (hipismo) evoluíram ao longo deste ciclo e chegam bem cotados, mas não propriamente favoritos.

O canoísta Isaquias Queiroz, a dupla de velejadoras Martine e Kahena, os judocas Mayra Aguiar e Rafael Silva, os ginastas Arthur Nory e Arthur Zanetti poderão repetir as conquistas de cinco —e também nove, nos casos de Mayra, Rafael e Zanetti— anos atrás. São esperados bons desempenhos novamente das seleções de futebol e vôlei e das duplas do vôlei de praia.

Há ainda aqueles que já eram grandes nomes no último ciclo, mas acabaram fora do pódio e terão uma nova chance, como os nadadores Bruno Fratus e Ana Marcela. Portanto, exceções feitas a skate e surfe, tudo indica que no pódio haverá mais rostos brasileiros conhecidos do que novos.

Apesar de o investimento estatal no esporte olímpico ter sido reduzido nos últimos anos, como mostrou levantamento da Folha, as verbas públicas de preparação usadas pelo COB, oriundas da arrecadação das loterias federais, cresceram.

Em geral, os investimentos robustos feitos no topo da pirâmide desde o ciclo de 2012 (já que o Rio foi escolhido como sede em 2009) permitiram a manutenção do desempenho de quem já estava em alta em 2016 e ainda poderia competir por no mínimo mais uma edição no auge da carreira.

Antes da pandemia, as dúvidas do COB eram menos sobre o desempenho possível em Tóquio e mais sobre os Jogos subsequentes. No Pan de Lima-2019, por exemplo, o Brasil teve campanha recorde.

Manter as condições para um atleta vitorioso tende a ser mais fácil do que revelar outros tantos, dos quais a minoria chegará lá.

Em Tóquio, por causa das restrições sanitárias, não existirá o programa Vivência Olímpica, criado pelo COB para Londres com o objetivo de permitir que atletas jovens não classificados vivenciassem o clima e as instalações dos Jogos. Thiago Braz, Isaquias, Martine e Felipe Wu, presentes em 2012 no projeto, conquistaram medalhas em 2016. Hugo Calderano (tênis de mesa) e Rebeca Andrade (ginástica artística), ambos consolidados em seus esportes atualmente, também participaram.

Entre os nomes da delegação atual, Beatriz Ferreira, Duda (vôlei de praia), Paulo André (atletismo) e Edival Pontes (taekwondo) são os principais destaques que vivenciaram de dentro a Rio-2016.

Chelsea Warr, diretora de performance da Agência de Esportes do Reino Unido (UK Sport), esteve no Brasil em 2019 e falou à Folha sobre o que deu certo no processo para identificar e desenvolver talentos.

“Elaborar perfis do que é preciso para vencer em cada evento e modalidade olhando sempre para frente, não para os resultados históricos e atuar proativamente para encontrar atletas que se enquadrem nesses modelos tanto dentro do seu próprio esporte quanto em relação a talentos transferidos de esportes semelhantes”, citou.

“Só porque você tem grande base populacional, ou até mesmo ampla base de praticantes de esporte, isso nem sempre se traduz em sucesso. Ao longo dos anos venho admirando e aprendendo muito com países menores, como Holanda e Nova Zelândia. Se o Brasil pudesse aplicar algumas das características desses países e sistematizasse seu inegável potencial populacional, não há dúvida de que vocês dariam muito trabalho aos competidores”, completou.

Em 1996, a Grã-Bretanha conquistou 15 medalhas, com apenas um ouro. Desde então, esse número só cresceu: 28 (2000), 30 (2004), 51 (2008), 65 (2012) e 67 (2016). Mas nem tudo são flores, e os britânicos já se preparam para uma possível queda de rendimento em Tóquio.

A Olimpíada no Japão nem começou, e a pandemia certamente tomou o lugar de preocupação primordial do COB. Mas o desenvolvimento esportivo é um processo. Por isso, quando os atletas estiverem disputando suas medalhas nas próximas semanas, muitos outros estarão vislumbrando ou em efetiva preparação para fazer o mesmo em Paris-2024, Los Angeles-2028 e por aí vai.

A Olimpíada do Rio falhou na entrega do legado urbano e das instalações esportivas, como mostrado pela Folha nesta série. A derrota ainda não está decretada no legado da performance esportiva, mas para evitá-la será preciso muito trabalho nos próximos anos.



Fonte: Máquina do Esporte