Religião e jogos on-line: a nova vida de Mequinho, lenda do xadrez

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Poucas coisas podem ter soado tão realistas nos últimos meses como Beth Harmon, personagem enxadrista interpretada pela americana Anya Taylor-Hoy, em O Gambito da Rainha, produção que vem batendo recordes na Netflix. Os olhos fitos dirigidos aos adversários, com o queixo quase sempre apoiado sobre os dedos entrelaçados, confundiu espectadores sobre a existência real ou fictícia da menina americana órfã e ruiva que recolocou o xadrez em evidência.

Harmon é, na verdade, uma obra de ficção, baseada em livro homônimo ao da série, publicado pelo escritor americano Walter Trevis (1928-1984), em 1983, mas tem trajetória que remete facilmente à do gaúcho Henrique da Costa Mecking, mais conhecido como Mequinho, 68 anos, um herói nacional da década de 1970 e primeiro grande mestre internacional já formado pelo país.

“Não assisti, só ouvi falar da série. Soube que a protagonista teve uma trajetória precoce também. Ainda criança, ganhei um tabuleiro de damas e xadrez da minha mãe. Ela me ensinou a jogar damas, eu ganhava de todos os adultos, mas o xadrez era muito mais bonito, tinha peças diferentes, fiquei encantado. Um delegado que sabia jogar me ensinou e com sete anos eu já era vice-campeão entre os adultos de São Lourenço do Sul (RS). Aos 13, fui campeão brasileiro, com 20 ganhei o título de grande mestre. Fiquei entre os três melhores do mundo ainda muito jovem”, recorda Mequinho, com orgulho, a VEJA.

Em Gambito da Rainha, além do começo quase com a mesma idade de Mequinho, Harmon também teve um herói um tanto quanto improvável que a apresentou ao jogo no porão do orfanato onde morava, o zelador Shaibel, interpretado por Bill Camp. As semelhanças entre ficção e realidade, no entanto, param por aí, já que o auge de Mequinho teve de ser tragicamente interrompido.

Desde que foi diagnosticado com um quadro de miastenia grave, em 1978, aos 25 anos – doença rara autoimune que afeta a comunicação entre os sistemas nervoso e os músculos, que o afastou por quase duas décadas dos tabuleiros –, Mequinho vive longe de holofotes.

Até 1977, quando conquistou a terceira posição no ranking da Federação Internacional de Xadrez (FIDE),  desfilava em carros abertos, era presença constante no programa do Chacrinha e em outras atrações.  “Fui até capa da VEJA, do Jornal do Brasil, conheci vários presidentes. Me mudei para o Rio para jogar pelo Flamengo e cheguei a lotar o Maracanã. O presidente Médici me ofereceu um cargo no governo. Conheci, aliás, presidentes de quatro países. No meu melhor momento, aos 25 anos, fui acometido por miastenia”, lembra.

“Fiquei à beira da morte. Eu não tinha força nem para escovar os dentes, sentia frio, passava o dia todo no Rio de janeiro enrolado no cobertor. Um médico me deu 15 dias de vida. Eu não conseguia mastigar, poderia morrer asfixiado. Durante três meses e meio só tomei líquido. Tive muita depressão e cortei o telefone, pois não queria falar com ninguém. Na época já recebia ameaças do inimigo”, completa.

  • Mequinho ainda come bem pouco, toma diariamente uma série de remédios homeopáticos e leva uma rotina tranquila em um pequeno apartamento em Taubaté, no interior paulista, voltado, principalmente, para o catolicismo, especificamente ao movimento Renovação Carismática.

    Mequinho ainda tem ligações quase umbilicais com o xadrez, apesar de passar a maior parte do tempo rezando ou frequentando missas em Taubaté. Disputará no próximo dia 19, em São José dos Campos, um torneio de xadrez rápido. Ele joga a maior parte das vezes on-line, não todos os dias devido a dificuldade em razão da miastenia. A doença, da qual se diz “99% curado” ainda afeta também a visão e as pálpebras.

    “Ainda jogo, até hoje estou entre os melhores do Brasil e disputo alguns campeonatos. Estou 99% curado da miastenia, mas ainda sinto muito cansaço. Jogo bastante on-line, não todo dia, pois meus olhos são mais fracos. Não jogo com meu nome, mas com o apelido “Lorenzo”, pois São Lourenço é um dos meus protetores”, afirma.

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    Mequinho em ação em torneio de xadrez
    Mequinho em ação em torneio oficial de xadrez Facebook/Reprodução

    Ao mesmo tempo que usa a maior parte do tempo para falar diretamente sobre religião, também trabalha para a publicação de um novo livro exclusivamente sobre xadrez, com análises falando de partidas que realizou no Internet Chess Clube (ICC), principalmente contra o norueguês Magnus Carlsen, campeão mundial e que ostentou recentemente uma marca de 125 partidas de invencibilidade em torneios oficiais.

    “Joguei várias vezes com o melhor do mundo, o Carlsen. Ganhei cinco e perdi três. Mas não gosto tanto de jogar on-line, pois tem muito roubo, muita gente joga com auxílio de um programa de computador. A religião é minha prioridade agora”, explica.

    Em 1978, Mequinho estava atrás apenas dos russos Anatoli Karpov e Viktor Korchnoi, que se naturalizou suíço. Hoje, acredita que mesmo com o impulsionamento da série, dificilmente o país poderá formar novos grandes mestres. “É muito difícil mesmo isso acontecer porque nos outros países há mais jogadores e mais apoio”.

    “Profeta do Apocalipse”

    Sua história de vida foi contada em um livro, Como Jesus Cristo Salvou a Minha Vida, escrito por ele próprio, em 1981. Hoje, Mequinho se diz um “profeta do Apocalipse” e relata receber ameaças de “um país comunista”.

    “No terreno do xadrez houve muitos crimes e terrorismo. Tentaram derrubar meu avião em um voo para Manila, nas Filipinas, ameaçaram envenenar minha comida. Não vou citar nomes, mas tem um país que sempre quis que só os representantes deles fossem campeões. Até hoje, há mais de 20 anos, recebo trotes e ameaças diárias deste país comunista. Felizmente encontrei a cura em Deus, me formei em teologia e filosofia, escrevi livros. Pensei até em ser padre, mas Jesus tinha outra missão e me escolheu para ser um Profeta do Apocalipse. Hoje me divido entre o xadrez e a religião”, diz.

    Mequinho divide hoje a função que autodenomina como Profeta do Apocalipse com um jovem da cidade chamado Marco Aurélio, 28 anos, com quem estreitou amizade pela religião. Hoje eles moram juntos em seu apartamento, próximo à região central.

    “Eu amava xadrez, mas só o xadrez não adiantava, eu precisava da ajuda de Deus. Em 1977 fiquei devoto, passei a participar de um momento que reza pelas curas. Falo sobre religião e xadrez, mas Jesus me escolheu para ser profeta do Apocalipse”, argumenta.

    Recentemente, no último dia 15 de novembro, publicou que “a capital de um país será totalmente arrasada se esta não parar de lhe dar trotes”. Na postagem, cita diversas passagens do livro de Apocalipse e diz que os seguidos trotes ofendem a Jesus. Após o contato com a VEJA, relatou que os trotes cessaram de maneira significativa.

    “Vou pregar o evangelho no mundo inteiro. Esse país inimigo me detesta porque eu rezo e Jesus está mandando terremotos para eles. Uma das profecias mais importantes que Deus me deu esse tempo todo é que há seis países que são muito piores do que Sodoma. São eles e outros cinco aliados, sei muito bem os nomes. Sempre me preocupei muito com o perigo do comunismo de reprimir os católicos, isso é horrível”, conta.

    Mais do que o xadrez, o desejo de Mequinho é levar a sua história de superação e anunciar as profecias que diz receber de Deus a todo mundo.  Curiosamente, Beth Harmon tem suas cenas finais da primeira temporada da série na Rússia, um dos poucos países que Mequinho não menciona nominalmente, mas diz que nunca pisará devido a ligação com o comunismo.

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  • Fonte: Veja Esportes