Potente e impetuoso: Thiago Wild, a nova esperança do tênis brasileiro

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“Já comentei sobre o Thiago ser o grande protagonista desta geração”. É difícil discordar da opinião do maior tenista da história do país. Gustavo Kuerten, o Guga, já havia “cantado a bola” sobre o paranaense, descendente de alemães, Thiago Seyboth Wild, mas talvez nem mesmo ele esperasse que o primeiro triunfo do tenista de 19 anos viesse tão cedo. O dia 1º de março de 2020 marcou uma virada histórica e inesperada na carreira do paranaense, que conquistou o título do ATP 250 de Santiago, no Chile, e quebrou uma série de recordes, que o credenciam como o principal nome do tênis brasileiro para os próximos anos e comprovam que ele chegou para ficar.

“A nova geração está aparecendo. Ano passado já comentei sobre o Thiago (Wild) ser o grande protagonista desta geração, acho que foi campeão em todas as categorias que disputou no juvenil. Vejo ele (Wild) muito seguro, até mesmo pela personalidade dele, por vezes motivo de crítica, mas ele precisa acreditar em si mesmo e parece estar disposto a suportar todas as etapas”, disse Guga, após a vitória de Wild sobre o espanhol Alejandro Davidovich Fokina, na primeira rodada do Rio Open.

Em Santiago, Wild derrubou três argentinos especialistas em saibro, além do atleta da casa – e favorito – Cristian Garín, 18º do mundo após vencer o Rio Open. Garín sofria com problemas nas costas, mas obrigou Wild a salvar seis set points no primeiro set e perdeu no tie break. A exigência da partida fez o chileno optar por desistir e tratar da lesão. Na final, Wild derrubou o norueguês Casper Ruud (36º) sem se deixar abalar por perder o segundo set, fechando o jogo com parciais de 7×5/4×6/6×3. Com o título, Thiago chegou ao 113º lugar no ranking, se tornou o brasileiro mais jovem a vencer um torneio ATP, o mais jovem a vencer na gira sul-americana da ATP desde Rafael Nadal – seu ídolo – em Acapulco/2005, o tenista de menor ranking em uma final de nível ATP na América do Sul e o primeiro tenista nascido em 2000 a vencer um torneio da ATP.

“Não sou do time que fica elogiando, fazendo festa ou endeusando tenistas. Muito menos quando são jovens e têm uma carreira enorme pela frente. Não costumo fazer por alguns motivos. O mais importante é por viver em um país carente de ídolos e resultados, por isso as comparações e projeções são pesadíssimas. A pressão, injusta. Mas hoje não tem como não vibrar e enaltecer o resultado do Thiago Wild. Aos 19 anos, ganha seu primeiro ATP Tour e mostra muita maturidade para enfrentar pressão”, declarou Fernando Meligeni, em suas redes sociais.

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Dono de um forehand poderoso – aliás, seu cartão de visitas, que muitas vezes lembra a potência do golpe de Juan Martín Del Potro -, Wild teve uma evolução mental notória, que rapidamente transformou seu talento em bons resultados. O paranaense, como adolescente que ainda é, ficou conhecido pelo temperamento forte que, por vezes, o levava ao buraco em alguns jogos. A evolução e transição do circuito juvenil para o profissional costuma ser um choque para jovens tenistas, que precisam de um amadurecimento rápido e, muitas vezes, inalcançável para a idade da “revolta”. A cabeça boa é necessária para sobreviver à intensidade insana do profissional, com centenas de viagens e gastos anuais, com poucos resultados, pouco dinheiro e uma concorrência absurda.

Thiago Wild ficou conhecido em 2018, quando venceu o US Open juvenil e se tornou o segundo brasileiro a conquistar um Grand Slam no circuito de garotos. As expectativas, porém, não eram das maiores, já que Tiago Fernandes, vencedor do Australian Open juvenil de 2010, se aposentou do esporte aos 21 anos. Em 2019, neste mesmo período do ano, Wild era eliminado na segunda rodada do Brasil Open (substituído pelo ATP 250 de Santiago em 2020) para o desconhecido argentino Marco Trungelliti, depois de algumas raquetes atiradas e reclamações com seus treinadores.

Um ano depois, Wild continuava atraindo poucas expectativas do público brasileiro, mas a evolução emocional, mental e técnica foi notada rapidamente, quando o paranaense eliminou o promissor Davidovich Fokina (96º) em um jogo tenso na primeira rodada do Rio Open, com 3h50 de duração – o mais longo da história do torneio. Wild surpreendeu ainda mais quando colocou o croata Borna Coric (33º) – que já venceu Roger Federer – nas cordas e perdeu no detalhe, por 7 a 5, no tie break do último set, na segunda rodada.

“Podemos olhar para o lado negativo, mas no mínimo esse menino (Wild) tem personalidade. Boa ou ruim? Não sei. Cada um tem o direito de achar, mas que ele tem personalidade, ele tem. No mundo de hoje, onde ninguém pode beber água no bebedouro do lado, porque não pode, porque coloco no Instagram e te machuco, quando o cara tem personalidade, temos de falar que é legal”, disse Meligeni, durante o Rio Open.

O temperamento impetuoso se transformou, com treinamento, em uma forte personalidade e confiança inabalável dentro e fora de quadra. Wild escapou do subjetivo. Ele é objetivo em seus duros golpes dentro de quadra, em sua nova habilidade de se desvencilhar da pressão dos jogos e em suas entrevistas. Parece ser uma maneira de se manter centrado e focado, de não deixar nada furar sua couraça e de focar apenas no que tem de fazer, no pensamento do “ponto a ponto” – que ele tantas vezes repete durante entrevistas coletivas.

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“Ganhar é sempre bom, mas, independentemente do resultado, eu sairia com o pensamento de que estou no caminho certo, com uma linha de trabalho boa e com pessoas boas ao meu lado. Tiro desse jogo uma satisfação muito grande que levo para os próximos dias de trabalho, independentemente se eu vencer a próxima rodada, se virar Top 100 em um mês ou não virar. Quando você quer fazer algo muito bom, não acontece do dia para noite, são meses de trabalho que não podem ser quebrados”, comentou Wild, após vitória contra Fokina no Rio.

O discurso de Thiago Wild comprova o nível de confiança que ele mostra dentro de quadra. De todas as pessoas do mundo, talvez apenas ele tivesse confiança o suficiente para acreditar no que poderia fazer no Chile, na semana seguinte ao Rio Open. O bom tenista é aquele que acredita completamente em seu jogo, de maneira mais calma ou mais agressiva. Não existe arrogância em confiar 100% em sua capacidade de superar os desafios. É por esse motivo e, pelo próprio talento, que Wild chegou para ficar e, com o novo ranking, poderá mudar completamente seu calendário e tentar alçar voos mais altos, como no Masters 1000 de Miami, patrocinado pelo banco brasileiro Itaú. Além disso, Wild agora ocupa o segundo lugar na corrida para o Next Gen Finals, torneio que reúne os melhores jovens jogadores do circuito, o que pode atrair ainda mais convites para grandes torneios e subir ainda mais posições no ranking.





Fonte: Veja Esportes

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