Política e dinheiro atropelam bom senso e transformam Tóquio-2020 em ‘Olimpíada do medo’ – 17/07/2021 – Esporte

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Bastou uma semana em Tóquio para compreender as razões de quem era a favor do cancelamento da Olimpíada de 2020 e também confirmar as que levarão à sua realização em meio a uma pandemia ainda longe de ser controlada no mundo.

Dinheiro e política atropelaram a vontade e a segurança do povo japonês e os riscos sanitários para seguir adiante com uma Olimpíada sem apoio popular nem torcida local e estrangeira nas competições, além de uma recepção desconfiada e apreensiva a quem desembarca do exterior para trabalhar no evento.

A combinação da aposta política do governo japonês, representado pelo premiê Yoshihide Suga, e da pressão econômica do COI (Comitê Olímpico Internacional), dirigido por Thomas Bach, vai resultar em uma Olimpíada sem precedentes, paranoica e, por fatores negativos, histórica.

Testes e mais testes de Covid-19 serão feitos nos participantes durante os Jogos. Medidas rígidas foram estabelecidas, mas a cidade começa a dar sinais de fragilidade antes mesmo de começar a Olimpíada: há relatos de certo caos em aeroporto e de descontrole de protocolos em hotéis que hospedam os estrangeiros envolvidos com os Jogos. O primeiro caso de Covid-19 já foi registrado na Vila Olímpica.

Segundo a organização do evento, uma pessoa ligada aos Jogos, não sendo atleta, testou positivo e entrou em um período de quarentena de 14 dias. A identidade não foi revelada.

Nos últimos dias, Tóquio entrou no seu quarto estado de emergência, com picos de 1.000 casos diários na região e sob o temor em relação à variante delta, altamente contagiosa e que já representa quase 20% das infecções pelo vírus detectadas no país.

Especialistas estimam que a delta será responsável por 90% dos diagnósticos até meados de agosto, quando a Olimpíada terá terminado, dando lugar à Paraolimpíada. São 800 mil casos de Covid-19 e cerca de 15 mil mortos até agora no país. O “legado” olímpico pode ser desastroso, segundo especialistas da área de saúde no país.

Não é normal que uma Olimpíada ocorra em uma situação tão excepcional. E não à toa a cidade de Tóquio, por ora, está longe de demonstrar nas ruas euforia com o evento prestes a começar.

O que explica então tanta insistência das autoridades em não abrir mão da Olimpíada, a primeira a ser adiada na história?

Uma boa pista é a cena do então primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, no Maracanã durante o encerramento da Rio-2016, em agosto daquele ano, vestido do personagem de videogame Mario.

A Olimpíada de 2020, a ser realizada em 2021 por causa da Covid-19, sempre foi um trunfo político de Abe e, consequentemente, de seu partido, o Liberal Democrático (LDP), que governa o Japão.

Politizar os Jogos, aliás, não é um privilégio dos japoneses. Uma das imagens que marcaram a escolha do Rio de Janeiro para 2016 reúne o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-governador Sérgio Cabral e o então prefeito (e agora novamente no cargo), Eduardo Paes.

Política e Olimpíada sempre andaram de mãos entrelaçadas, sob a enxurrada de bilhões de dólares de dinheiro público despejados na organização do evento.

A diferença em Tóquio para edições anteriores é o contexto inédito de uma pandemia que já matou 4 milhões de pessoas no mundo todo e está longe de ser controlada – a vacinação no Japão, por exemplo, tem sido lenta.

Por questões de saúde, Abe, o Super Mario da Rio-16, foi sucedido em setembro do ano passado por Yoshihide Suga, seu braço direito no governo.

Suga instalou uma gestão de continuidade, por onde passava insistir na realização da Olimpíada de Tóquio, um projeto de Abe logo que assumiu o comando do país, em 2012, como forma também de se posicionar diplomática e economicamente no cenário internacional.

Especialistas em política japonesa destacam a dificuldade de Suga em enfrentar o COI, que detém os direitos de realização do evento e certamente buscaria recompensa impagável se o Japão decidisse buscar caminhos para cancelar a competição.

O premiê também ficou acuado pelos patrocinadores japoneses –cerca de 60 empresas locais investiram US$ 3 bilhões em patrocínios e mais US$ 200 milhões depois do adiamento para 2021.

É uma pressão e tanta sobre um governo que já terá perda de arrecadação na parte turística diante da proibição de visitantes estrangeiros durante os Jogos.

Oficialmente, a organização dos Jogos de Tóquio anunciou no fim do ano passado um custo de US$ 15,4 bilhões, aumento de 22% ano em razão da renegociação de contratos e de medidas anti-Covid com a mudança do evento para 2021.

Em 2013, quando bateu Madri e Istambul na disputa pela sede, declarou US$ 7,5 bilhões com as despesas. No ano passado, jornais japoneses de prestígio estimaram em US$ 28 bilhões os gastos e cobraram mais transparência das autoridades.

A contribuição orçamentária por parte do COI, por exemplo, foi comprometida com a decisão de vetar espectadores nas competições e, consequentemente, extinguir a possibilidade de receita estimada em US$ 815 milhões com a venda de ingressos (estima-se que 910 mil bilhetes tenham sido afetados com a medida).

Thomas Bach não tem sido recebido com festa por onde passa no Japão. O COI nunca deu sinais de que toparia cancelar a Olimpíada. Cerca de 75% da receita do comitê vem de direitos de transmissão dos Jogos –grande parte de empresas americanas.

O chefe do COI se transformou em persona non grata nos eventos em Tóquio por ter pressionado por uma Olimpíada que não tem o apoio de grande parte dos moradores da cidade anfitriã e tem sido criticada pela comunidade médica local.

Funcionários de um hotel reservado à delegação brasileira de judô receberam diagnóstico positivo de Covid-19. No fim de junho, houve dois casos na delegação de Uganda detectados na chegada ao aeroporto de Tóquio.

Sob desconfiança do mundo todo, de aliados e da oposição a seu governo, o premiê Suga dobrou a aposta. Quer provar que Tóquio é capaz de realizar uma Olimpíada segura com a Covid-19 circulando por aí. Só falta combinar com o vírus.



Fonte: Máquina do Esporte