No primeiro tempo do jogo do Brasil contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1970, quando uma bola foi cruzada na área brasileira, o narrador Geraldo José de Almeida descreveu a ação do goleiro da seleção no lance dizendo um “Sai que é sua, Felix”.
Nos anos 1990, o bordão ficaria famoso na voz de Galvão Bueno com o “Sai que é sua, Taffarel”. Mas o trecho da narração exibida na televisão brasileira durante a transmissão da Copa de 1970 só voltou à tona agora, 55 anos depois.
A descoberta dos áudios aconteceu por acaso neste ano. “Entrei em contato com uma pessoa que dizia ter uma parte do acervo da TV Tupi. Como essa pessoa não conhece futebol, ela separou um material e me passou um monte de coisa. No meio de tudo isso tinham esses jogos da Copa do Mundo de 1970. Foi uma surpresa para mim”, conta o jornalista, escritor e pesquisador Thiago Uberreich, que é autor do livro “1970: o Brasil é Tri”, de 2020.
Para Uberreich, essas narrações são uma espécie de Santo Graal dos colecionadores. “Eu acho que o público não tem muito a noção do quanto isso é raro”, diz. A frase “Vai que é sua, Felix”, conforme o pesquisador, é uma das que ele resgatou entre as inéditas, só ouvidas mesmo ao vivo por quem acompanhou o campeonato.
Disputada no México, a Copa do Mundo de 1970 foi a primeira a ser transmitida ao vivo na televisão para o Brasil. Na época, ainda não havia videocassete, portanto os telespectadores não tinham como gravar o que passava nas tevês.
Apesar das imagens da Copa serem bastante conhecidas, as narrações originais ficaram guardadas por Globo, Record, Bandeirantes e Tupi, as quatro emissoras que formaram um “pool” para transmitir aquela Copa por meio da Rede Brasileira de Televisão.
De lá para cá, apenas trechos dessas narrações foram exibidas, em geral na TV Cultura. Normalmente, os lances do Tri são reprisados com narrações feitas posteriormente, ou então usando o áudio das rádios.
O material resgatado por Thiago Uberreich inclui a quase totalidade dos jogos do Brasil na Copa. A principal exceção é a narração do primeiro tempo das quartas-de-final contra o Peru, da qual não há vestígio.
“Nesse material que me chegou da TV Tupi nós temos meia hora de pós-jogo [da final], inclusive com a vinheta original de encerramento na voz de Cid Moreira. A gente já conhecia a vinheta de abertura, mas a de encerramento ninguém conhecia. Então essa é a raridade”, diz Uberreich.
Durante as partidas, produtos das três empresas que patrocinaram a transmissão —Gillette, Esso e Souza Cruz— eram anunciados pelos narradores. Geraldo José de Almeida pronunciava o “H” mudo, transformando a sonoridade dos cigarros Hollywood em “Oliúde”.
Ex-diretor-geral da Globo, Walter Clark contou no livro “O campeão de audiência” que, na negociação feita no México pelos direitos de transmissão da Copa, o magnata Emilio Azcárraga Milmo estava irredutível com a proposta da delegação brasileira.
Segundo Clark, tudo mudou quando Paulo César Ferreira, conhecido pelos colegas como Tarzan, deu um murro na mesa e disse que, se a Copa não fosse transmitida para o Brasil, a seleção não iria ao México disputá-la. Tarzan não tinha nenhum poder para definir os rumos da seleção, mas o blefe fez Azcárraga Milmo ceder.
Como só havia um sinal de áudio disponível para os canais de TV, a solução foi exibir a mesma narração em todas as emissoras, com o revezamento dos narradores Fernando Solera, Geraldo José de Almeida, Walter Abrahão e Oduvaldo Cozzi ao lado dos comentaristas João Saldanha, Rui Porto, Geraldo Bretas e Leônidas da Silva.
“Já me perguntaram nas redes sociais quem narrou mais gols do Brasil. Solera narrou sete, Geraldo José narrou seis, Walter Abrahão, três, e Cozzi, três”, diz Uberreich.
O pesquisador está divulgando as narrações originais sincronizando-as com as imagens coloridas, já que a Copa foi transmitida em preto e branco para o Brasil.
“Aí está o cidadão brasileiro Carlos Alberto Torres recebendo [a taça Jules Rimet] de sua excelência, o senhor presidente Díaz Ordaz. E esse beijo que você deu, Carlinhos, foi o beijo do Brasil inteiro nesta taça que não é de mais ninguém, não será de mais ninguém porque é nossa”, narrou Geraldo José de Almeida.
No pós-jogo do Tri, todos os narradores e comentaristas, além de outros membros da equipe, falaram ao microfone. Oduvaldo Cozzi, que se despedia da narração, foi homenageado pelos colegas.
“Quando eu passei esses áudios para uma das filha de Oduvaldo Cozzi, a família ficou em êxtase”, conta Uberreich.
Treinador da seleção até março daquele ano, João Saldanha não demonstrava rancor em suas palavras naquele marcante 21 de junho de 1970.
“Nunca uma Copa do Mundo foi tão merecida quanto essa”, comentou Saldanha. “Muito obrigado, México lindo, lindo, lindo, lindo, lindo”, agradeceu Geraldo José na transmissão.
Folha de S.Paulo