O salto mais arrojado da NBA no país do futebol

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Até meados dos anos 1990, acompanhar jogos da NBA, a liga americana de basquete, era tarefa para obcecados pelo esporte. Sem internet nem TV por assinatura, os fãs conseguiam assis­tir a poucas partidas e os resultados só saíam nos jornais dois dias depois — quase sempre em notas de rodapé. Os produtos licenciados, escassos, restringiam-se a bonés e camisetas. Nos últimos anos, porém, a NBA iniciou um projeto de globalização que resultou na transmissão do campeonato para 215 países, enquanto a marca firmou presença em quase metade deles, abrindo escritórios na Europa, África e América Latina. O objetivo, claro, é aumentar a base de fãs, e o Brasil é fundamental na ambiciosa estratégia.

O faturamento da NBA no país ainda é pequeno, girando em torno de 50 milhões de dólares, uma fração dos bilhões gerados mundialmente. Mas o potencial é o que faz brilhar os olhos dos dirigentes da liga. Pesquisas mostram que o número de fãs já está na casa dos 40 milhões, o dobro do que era três anos atrás e equivalente ao tamanho da torcida do Flamengo, o mais popular dos clubes de futebol. Além disso, a relevância do Brasil é justificada por outros indicadores, como o interesse dos anunciantes, o potencial de receita e o horário confortável das transmissões ao vivo, normalmente à noite (ao contrário da Europa, onde ocorrem de madrugada por causa do fuso). “Somos um dos maiores consumidores de basquete do mundo e com espaço para aumentar cada vez mais a base de fãs”, diz Rodrigo Vicentini, diretor da NBA no Brasil.

O mais recente arremesso da NBA para crescer no país é a abertura de duas lojas oficiais, além das oito já existentes. Uma megastore de 1 200 metros quadrados, a quarta maior no mundo, será inaugurada em São Paulo em abril de 2021. Ela oferecerá 2 500 produtos, mas a venda é apenas parte da experiência com a marca que a liga pretende proporcionar. Haverá espaço para eventos, bar, quadra, réplicas de vestiários e até um molde das mãos do ex-jogador Shaquille O’Neal — desde que a pandemia recue.

NO RIO - Orlando Magic contra o Flamengo: o Brasil é um dos principais mercados – Buda Mendes/Getty Images

Contar com os melhores jogadores é decisivo, mas, para competir com todas as modalidades de entretenimento, é preciso ir além das quadras. No ano passado, foi montada em São Paulo a NBA House para a transmissão dos jogos finais. Passaram pelo local cerca de 30 000 pessoas. Em 2015, três anos após a abertura do escritório da NBA no Brasil, o Orlando Magic enfrentou o Flamengo no Global Games, no Rio de Janeiro. “A NBA se especializou em criar espetáculos que superam o jogo em si”, diz Fernando Trevisan, diretor da Trevisan Escola de Negócios.

A globalização da NBA é uma estratégia inteligente, e até mesmo óbvia, de ampliar o número de fãs — e o faturamento — para além das fronteiras dos EUA. Do ponto de vista do brasileiro, são bem-vindas as iniciativas para diversificar o carrossel esportivo, talvez exageradamente carregado na maior paixão nacional, o futebol. Por outro lado, é vital lembrar que tanto o basquete quanto o futebol são eventos e, como tais, estão sujeitos a ciclos de popularidade e audiência. Por motivos comerciais ou por não terem apelo suficiente, a Fórmula 1 e outros campeonatos foram afastados da TV aberta. Segundo o jornal The New York Times, a própria NBA deparou com uma queda de audiência nas finais deste ano, o que talvez se deva à pandemia. A conquista da atenção do torcedor exige tempo e paciência. E milhões de dólares em investimento para que a bola faça chuááá.

Publicado em VEJA de 18 de novembro de 2020, edição nº 2713

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Fonte: Veja Esportes

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