Uma grande notícia esportiva da semana foi a de que Estados Unidos e Reino Unido, com candidaturas únicas, devem ser sedes da Copa do Mundo Feminina de 2031 e 2035, respectivamente. A confirmação é no ano que vem.
Não há dúvidas de que ambas serão um sucesso de público e organização. São países que adoram, respeitam e investem no futebol feminino, têm infraestrutura praticamente pronta e excelentes estádios. Mas tem um detalhe. São nações que, ao mesmo tempo que merecem, por tudo que fizeram nos últimos anos para ajudar a desenvolver o esporte, estão entre as que menos precisam sediar o Mundial.
Já falei nesse espaço como a popularidade do futebol feminino explodiu na Inglaterra desde que o estádio de Wembley ficou lotado nos Jogos Olímpicos de 2012, quando a seleção inglesa enfrentou o Brasil. Ficou claro que se tratava de um excelente negócio. Vieram patrocínios, transmissões na televisão, aumento de torcida. A liga doméstica se profissionalizou e hoje é uma das mais fortes do mundo. A seleção também se fortaleceu. A Inglaterra sediou e venceu a Eurocopa de 2022 com recordes de público nos estádios e foi finalista da Copa do Mundo no ano seguinte.
As seleções dos outros três países britânicos vão se beneficiar mais. Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales têm participações pontuais em competições internacionais quando comparadas à fortíssima equipe inglesa. Mas é fato que já existe um sólido alicerce para o futebol feminino no Reino Unido como um todo.
Nos Estados Unidos, nem se fala. Será a terceira vez que o país vai receber o mundial feminino, e sua dominante seleção segue em primeiro lugar no ranking da Fifa.
Mas sabe qual país pode aproveitar o privilégio de ter sido escolhido como sede da Copa do Mundo? O Brasil. Mas, infelizmente, não parece estar agarrando as oportunidades como deveria. Sempre vai ter um hater para falar: “ah, mas ninguém liga para o futebol feminino.” Esse comentário não é só desrespeitoso, como ignorante. Não é preciso diploma de marketing ou finanças para perceber o quanto investir na modalidade vale a pena.
Inglaterra e Estados Unidos só são casos de sucesso porque levaram a sério e tiveram planejamento. Começar o campeonato brasileiro feminino sem placas de publicidade ao redor do gramado, transmissão de todas as partidas, postagens nos perfis oficiais nas redes sociais, é algo chocante. Alguns veículos de imprensa usaram a manchete: “CBF perde patrocinadores”, passando a impressão equivocada de que seria falta de interesse no futebol feminino. O portal Dibradoras mostrou que havia empresas querendo patrocinar a competição, e o problema seria de gestão.
Um grande evento esportivo deve servir como catalisador para que o país-sede desenvolva a modalidade internamente, receba investimentos para usar em infraestrutura, turismo. Quando me perguntam aqui na Inglaterra como me sinto com o fato de a sede da Copa de 2027 ser no meu país, digo que, por enquanto, estou dividida. Sei o poder transformador do esporte e vejo como uma oportunidade única. Mas temo que, nas mãos erradas, seja uma chance perdida. Faltam só dois anos. É muito pouco quando se quer realmente deixar um legado esportivo e social.
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Folha de S.Paulo