Jogos de Tóquio-2020 enfim se materializam para edição sem precedentes – 17/07/2021 – Esporte

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Fruto do seu tempo, os Jogos Olímpicos modernos já foram palco de atentados terroristas, boicotes políticos e serviram como propaganda ao regime nazista. As Guerras Mundiais cancelaram três de suas edições. Agora, eles serão realizados durante a pandemia da Covid-19, que desde o ano passado assombra o mundo.

Se conviveram com a barbárie sob diversas formas, os Jogos também proporcionam a cada quatro anos manifestações de humanidade, espírito esportivo e congraçamento entre nações.

Como um pêndulo entre o temor e a esperança de tempos melhores encontra-se neste momento a Olimpíada de Tóquio-2020, a poucos dias do seu início. A cerimônia de abertura será na próxima sexta-feira (23), mas as competições já começam na quarta (21), no horário local, noite de terça (20) no Brasil.

Desde março de 2020, quando o megaevento na capital japonesa precisou ser adiado para 2021 por causa da pandemia, as incertezas tomaram conta. Pensava-se que a decisão pelo cancelamento seria tomada mais cedo ou mais tarde, ainda que os discursos oficiais negassem essa possibilidade.

O presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), Thomas Bach, reconheceu nos últimos dias que tinha dúvidas permanentes sobre a possibilidade de realizar os Jogos na data reprogramada, mas não externava suas preocupações para não aumentar os questionamentos.

Ampliadas ou não pelas palavras do cartola alemão, as dúvidas permearam todo o caminho e ainda atormentam os organizadores. Prevaleceram os contratos de televisão e patrocínio para uma edição sem precedentes, com os portões fechados ao público.

Os atletas, delegações e jornalistas que desembarcam aos milhares diariamente em Tóquio fazem a Olimpíada finalmente se materializar na capital japonesa, mas apenas dentro de um restrito circuito olímpico.

Este compreende as bem preparadas arenas de competição, o centro de imprensa no imponente centro de convenções Tokyo Big Sight, além dos ônibus e táxis do transporte oficial, únicos meios que os estrangeiros recém-chegados podem usar nos primeiros 14 dias.

Enquanto se aclimatam, treinam e contam as horas para entrar em ação depois de tanta espera, os atletas não se veem livres da ansiedade. Submetidos a testes diários de coronavírus, agora torcem como nunca pelos resultados negativos para não serem impedidos de competir.

Sub-chefe de missão do COB (Comitê Olímpico do Brasil), Jorge Bichara comemora a sensação de que a espera acabou, mas ainda vê com muita preocupação a possibilidade de alguém perder a chance de competir por causa da Covid-19.

“Isso vai nos acompanhar até o final dos Jogos e só temos a consciência e a responsabilidade como armas para nos proteger. Até agora todos têm demonstrado ambas”, afirma.

O maior susto por enquanto foram os sete casos confirmados de funcionários do hotel que hospeda parte da delegação do judô em Hamamatsu. Os atletas não tiveram contato com eles.

Há uma clara separação entre a vida normal de Tóquio e a Olimpíada. Nas ruas da região de Shinjuku, onde está hospedada a reportagem da Folha, vive-se o cotidiano agitado da metrópole, mesmo em seu quarto estado de emergência e com escalada de casos de coronavírus nas últimas semanas.

Os Jogos, para a maioria dos moradores da capital, vão se restringir à televisão, placas nas vias e alguns visitantes que cruzam o caminho.

“Agora que está começando a cair a ficha de que tudo vai acontecer. Ruas sendo fechadas, lugares de competição recebendo segurança. A sensação até então era de que poderia haver uma decisão a qualquer momento que mudasse as coisas”, diz o produtor e consultor de viagens Roberto Maxwell, 46, residente no Japão desde 2005.

Se economistas se dedicaram a calcular os prejuízos do novo estado de emergência ou os que resultariam de um hipotético cancelamento da Olimpíada, a frustração japonesa é imensurável. A cidade-sede mais bem preparada da história, como não cansa de repetir Bach, pouco poderá usufruir dos Jogos.

Desde o início do revezamento da tocha olímpica, afetado por cancelamentos e mudanças de rotas para evitar aglomerações, a empolgação já se dissolvia. O anúncio no último dia 8 de que não haverá nem mesmo público local nas competições (com poucas exceções fora da capital) foi o golpe final no entusiasmo, embora defendido como medida necessária pela maioria da população.

“Existia uma esperança há até pouco tempo, porque estavam rolando campeonatos esportivos com público reduzido. Agora o cidadão não ganhou nem a menor parte dos Jogos, mas que para ele seria a mais concreta, de ver as coisas acontecerem”, afirma Maxwell.

Moradora de Tóquio há quatro anos, a fotógrafa Bruna Luise Vargas, 32, chegou a garantir os outrora concorridos ingressos para duas competições. Antes do veto total ao público, porém, ela já não pretendia usá-los.

“Mesmo com limite de espectadores, eu não iria se não estivesse vacinada, e ainda não consegui ser”, ela afirma, crítica sobre o que vê como uma desorganização completa do poder público na estratégia de vacinação. “Não estou vendo direção nenhuma. Estamos em estado de emergência e vamos fazer Olimpíada mesmo assim? Entendo a limitação financeira e contratual, mas como cidadã seria tão mais legal se tivesse sido postergada.”

Enquanto a média móvel de novos casos diários de coronavírus cresce em Tóquio (946 na sexta-feira), 20,4% da população japonesa está totalmente vacinada.

Apesar de majoritária, a resistência ao evento é “silenciosa”, na visão de Maxwell. Ainda que tenha havido protestos de rua contra a organização dos Jogos, as manifestações não ganharam tanto corpo. Ele, que costuma sair de casa com malas para fazer filmagens e lavar roupa, relata ter sentido nas últimas semanas certa má vontade no trem por ser um estrangeiro que parecia estar chegando de viagem.

Ao repórter preocupado se pode ser mal visto com sua credencial olímpica, Vargas recomenda ficar tranquilo. “Os moradores dividem bem. Sabe que o problema não está em quem vem para trabalhar, mas na Olimpíada em si.”

Ela conheceu o significado prático da expressão “omotenashi”, que define a hospitalidade japonesa, logo no primeiro dia em que se mudou para o país, quando uma moradora de Tóquio parou o que estava fazendo para entrar com ela num táxi, a ajudou a se localizar e ainda fez questão de pagar a corrida.

“Eu estava muito curiosa para ver o omotenashi japonês elevado à décima potência durante a Olimpíada. Infelizmente, não vai rolar”, lamenta.

Pelo menos um “legado olímpico” pode ser comemorado, na visão da fotógrafa. Influenciado pela expectativa inicial de receber estrangeiros na Olimpíada, o Japão passou a proibir no ano passado que as pessoas fumem dentro de bares e restaurantes. “Você ia comer um sushi e saía cheirando a fumaça, era horrível”, ela conta.

Todas as sedes olímpicas querem passar uma imagem positiva para o mundo. O Japão deseja o mesmo, ainda que num cenário bem diferente daquele de quando foi escolhido para receber os Jogos, em 2013. Num evento reconfigurado pela pandemia e sob chuva de críticas da opinião pública, o desafio dos organizadores enfim começa a ser posto à prova.



Fonte: Máquina do Esporte