Italo Ferreira finca os pés em Baía Formosa antes de brigar por medalha em Tóquio – 13/07/2021 – Esporte

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Campeão mundial de surfe em 2019, o potiguar Italo Ferreira, 27, não esconde do que mais sente falta daquele cada vez mais distante mundo anterior à pandemia do coronavírus.

“Viajar sem máscara. É terrível viajar de máscara”, conta, rindo, em entrevista por video à Folha, direto de Baía Formosa, sua casa, no Rio Grande do Norte.

Italo não se lembra de ter ficado tanto tempo longe da cidade onde nasceu como durante as últimas etapas do circuito de 2021.

Foram meses intensos que começaram ainda no fim de fevereiro com uma rígida e, segundo ele, quase enlouquecedora quarentena na Austrália: 14 dias dentro de um quarto de hotel do qual ele nem podia botar a cabeça para fora.

Mas, saindo do isolamento, logo venceu a etapa de Newcastle do Mundial. Depois, sofreu derrota precoce em Narabeen, quando os árbitros não consideraram completa uma de suas manobras aéreas. Ele saiu da água revoltado e quebrou sua prancha no vestiário.

“Eu voltei [da quarentena] com muita energia e vontade. Mas aquele campeonato [Narabeen] acabou com toda a energia que eu tinha, quebrou as minhas pernas. Tentei ficar feliz e me motivar, mas foi difícil, acabei sentindo bastante. Eu podia ganhar aquele evento, e as coisas saíram do controle. Aquilo me desmotivou bastante, e depois competi meio que não tão feliz”, revela.

Após o nono lugar em Narabeen, ele foi quinto em Margaret River, terceiro em Rottnest Island e nono em Lemoore. Finalmente, pôde voltar para casa.

“Dei o ‘restart’, foi um início de temporada bem cansativo. Eu estava acostumado a ficar no máximo dois meses fora, mas foram quatro”, conta.

“O que me faz mais falta é poder ficar me divertindo com os amigos, surfando o tempo inteiro sem pressão, sem gente olhando. Aqui é pequeno, tem muita natureza, é tranquilo. Dá para treinar bastante, ver de onde eu vim, as coisas que continuam no mesmo lugar, as pessoas que gostam de mim. Voltar é recarregar, replanejar, sonhar novamente.”

Italo não esconde que sente falta de poder ter mais momentos como esses. São pequenos luxos que ele faz questão de se dar sempre que possível, tentando conciliá-los com o agitado calendário de competições e compromissos comerciais —além de entrevistas como esta.

Ou então de viajar com os amigos, como fez ano passado para as Maldivas, a melhor viagem de sua vida, segundo o próprio. Mas agora ele se prepara para embarcar em um outro sonho seu, a Olimpíada.

Ele deve ir para o Japão em menos de duas semanas para se adaptar ao fuso horário e às condições da praia de Tsurigasaki. “Se dependesse de mim, eu ficaria aqui até o último dia”, diz. O período em casa, que no total vai durar cerca de um mês, pode ser crucial na briga por uma medalha.

Na Olimpíada, a disputa terá metade do tempo de uma etapa normal do circuito, o que pode deixar os surfistas à mercê das condições climáticas e da sorte de conseguir uma boa onda —e é aí que sua casa pode fazer a diferença.

A estreia olímpica do surfe será em uma praia de ondas baixas, assim como é Baía Formosa. Enquanto não embarca, ele aproveita as condições semelhantes para se adaptar às pranchas mais leves construídas especialmente para os Jogos.

Se são muitas as coisas de casa que o atleta valoriza, tem uma da qual ele não abre mão e leva na bagagem para onde quer que vá. É o cuscuz, que também o acompanhará na Olimpíada.

Segundo ele, nenhum chega aos pés do preparado por sua mãe, Katiana Barbosa. “Queria eu [levar marmitas dela], mas ela já passou os esquemas para o Marcos.”

Marcos, no caso, é o braço direito de Italo. Os dois se conheceram quando o surfista tinha 14 anos e disputava uma etapa do Campeonato Brasileiro no Espírito Santo. Ele ficou hospedado na casa daquele que se tornaria um grande amigo.

Atualmente, seu fiel escudeiro cuida sobretudo da análise de vídeo das performances do surfista, mas também de questões contratuais e logísticas. Por isso, ele é um dos principais responsáveis pela guinada positiva na carreira do atleta —e também por coisas mais corriqueiras.

“Passaporte eu esqueço direto no hotel”, conta Italo. “Ele me ajuda basicamente com tudo, segura todas as pontas, é um cara que está do meu lado há bastante tempo. Nos últimos três anos, a gente se firmou como parceiros e mudou minha vida. Ele é certinho, organiza as coisas, bota tudo na linha. Sabe falar não quando precisa, coisa que eu não consigo.”

Enquanto aproveita os últimos dias no local onde mais gosta de passar seu tempo, o potiguar também sonha com um bom resultado na Olimpíada, quem sabe um ouro.

No evento, talvez o favorito seja o também brasileiro Gabriel Medina. Ele recentemente se envolveu em uma disputa com o Comitê Olímpico do Brasil, que não liberou a inclusão de Yasmin Brunet na sua delegação para os Jogos.

Segundo Medina, Brunet é, além de sua namorada, também sua técnica e tem funções como a de filmar suas provas, fazer análises, criar estratégias mentais para as competições e dar suporte com sua alimentação e logística.

Italo prefere não comentar a polêmica. “É irado ver todo mundo puxando o nível do outro”, diz sobre o panorama do surfe para Tóquio e sua rivalidade com o compatriota.

O Brasil hoje tem os três líderes do ranking mundial: Medina em primeiro, Italo em segundo e Filipe Toledo em terceiro —este não competirá no Japão em razão do limite de dois atletas por país na modalidade.

“Penso muito na Olimpíada, imagino como pode ser se eu conseguir alcançar o que eu quero. Fico sonhando, mas vivo muito no presente. Tem ansiedade, mas tem tranquilidade também, muita confiança Poxa, acho que estou preparado”, termina.



Fonte: Máquina do Esporte