Itália 3 x 2 Brasil: foi bom te conhecer, Futebol Arte! | Placar

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Eraldo Leite é um jovem repórter da Rádio Globo do Rio que está cobrindo sua primeira Copa aqui na Espanha. No futuro, passarei anos ouvindo ele na imprensa esportiva carioca e, por sorte do destino, daqui a 31 anos, em 2013, terei a honra de trabalhar na mesma emissora, e me tornar amigo do grande profissional e, principalmente, do grande ser humano que desde já ele é. Nunca vai associar uma pessoa à outra, mas era eu o torcedor aos prantos que tentou confortar ontem, após a derrota do Brasil (2 x 3) para a Itália – placar que encerrou nossos sonhos do Tetra e, sinto informar a vocês, caros leitores e leitoras de 1982, pôs fim ao chamado ‘Futebol Arte’. Terei que ‘esperar’ exatos 40 anos após este trágico dia para revelar isso ao Eraldo, o que estou fazendo agora, pois sei que as resenhas que escrevo nas viagens ao passado serão republicadas a partir de 2021 pela Revista PLACAR. Sim, era eu, Eraldão! E para provar isso arranquei, sorrateiramente, a página de sua agenda que continha as anotações da partida. Você escolhe se quer que a devolva ainda em Barcelona ou em 2022, quando retornar de minha aventura. Pra mim não faz diferença: nos dois casos, será amanhã!

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Bem, já deu pra notar que não estou muito disposto a escrever sobre o jogo, né? Preciso justificar? Se é ruim e triste, em nossa efêmera existência, viver uma ‘Tragédia de Sarriá’, imaginem duas! Não esperava sentir o mesmo abismo no peito que me acometeu na juventude. Em 2022, de ‘quando’ venho, pessoas que regulem comigo em idade terão na memória, com clareza, o que estavam fazendo após o apito-final do jogo, com a mesma intensidade com que vão lembrar onde estaremos na morte de um futuro presidente eleito (isso em breve) ou na queda de duas torres gêmeas da arquitetura capitalista – fatos para os quais lanço mão do meu direito de não dar ‘spoilers’. No meu caso, na primeira vez desta dor, desci para o ‘play’, supondo que ali poderia chorar reservadamente, mas encontrei outro amigo, este de infância, Flávio, bom de bola pra Carvalho (seu sobrenome). Com lágrimas nos olhos, dava chutes contra a parede, com raiva. A cada arremate, uma promessa de se tornar jogador e dar o título ao Brasil. Juntei-me ao sonho, que nunca realizaremos mas será eternamente bonito termos compartilhado. Eraldo, Flavinho: fracassei novamente, desta vez na missão de vir ao passado evitar a derrota de Sarriá. Mas prometo que tentarei novas vezes, em 1986, 1990, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018… Quem viver reviverá!

Esforço e determinação não me faltaram nessa empreitada. Assim como o time de Telê Santana, só sei jogar indo pro ataque! Como as regras da Máquina do Tempo me impedem de fazer ações e revelações que alterem os fatos, me superei no que tenho de melhor e pior tentando fazer alertas subliminares ao Escrete. Quem acompanhou minha saga é testemunha: desenhei ‘chifrinhos’ diabólicos no Paulo Rossi em uma cartolina mequetrefe; consegui, com a ajuda do Pacheco da Gillette, ter conversas a dois com Sócrates e Cerezo; e, no que tenho de pior, fiz até paródia de canção do Chico Buarque (‘O que será?’), que cantarolei por dias tentando sinalizar sobre a Tragédia (O que Sarriá?) – sempre com aquele maroto sobe-e-desce das sobrancelhas, como quem diz: “Sacou?” Não, não sacaram. 

Agenda de Eraldo ./Arquivo pessoal

Nos últimos três dias, depois da vitória sobre a Argentina – e como avisei na última resenha –, me dediquei a evitar que rotinas (leia-se: superstições) fossem quebradas. O trajeto do ônibus de nossa delegação, por exemplo. Como trouxera do futuro a informação de que nosso motorista ia alterar o caminho feito antes do confronto com os argentinos para chegar ao estádio, revelo aqui que investi algumas pesetas para conseguir o uniforme dos ‘Mossos d’Esquadra’, a guarda aqui na Catalunha, mais antiga corporação policial da Europa. Devidamente trajado, postei-me cinicamente numa esquina crucial na escolha do traçado para chegar à Sarriá e, gesticulando muito, tentei forçar o criativo e inconsequente piloto a repetir a rua que escolhera sexta-feira passada. Arisco, ele me enganou fazendo uma curva suave e impensável, como as de Gaudí, arquiteto e orgulho de Barcelona. Na janela do ônibus, pude ver o rosto incrédulo do ‘parça’ ‘Pacheco, Camisa 12’. Após a derrota, o garoto propaganda da Gillette veio comentar, sempre insistindo no marketing: “Se tu fizer a barba com nossa lâmina vai cair serragem… Que cara de pau!”

Outra quebra nos ‘protocolos da superstição’ – eu sabia bem por ter lido sobre isso ‘ainda’ em 2022 – foi na tradicional pose do time para fotógrafos, antes do ‘rola a bola’. Sinto comunicar a vocês, caros leitores e leitoras de 2022, que no futuro o charme do ritual será abolido do esporte, mas ao menos neste Mundial foi a única vez que a Seleção não formou o famoso ‘seis em pé; cinco agachados’, perfeito para a produção de pôsteres dos times campeões. Ainda com a calça escura do traje policial, mas já de ‘espadrilles’ (alpargatas) e camisa colorida compradas na loja ‘El Corte Inglés’ – ou seja, fantasiado de catalão –, paguei muitos ‘carajillos’ (queridinho demais aqui, mistura de café com conhaque ou rum) para conseguir entrar no gramado com uma máquina fotográfica de mentirinha e, já aflito, em desespero, tentar: “Junta! Junta!” E depois, apelando com uma típica ‘barretina’ na cabeça: ‘Arracímense! Arracímense! Quero sacar uma foto!”. Mas ‘nadalandia’ – espécie de expressão castelhana para ‘lhufas’, ‘xongas’ ou ‘necas de pitibiriba’.

Só teria então mais duas chances – me ocorreu. A primeira era evitar aquele passe irresponsável do Toninho Cerezzo que deu origem ao segundo gol italiano. Na conversa com ele, dias atrás, já tinha falado insistentemente sobre o perigo de jogadas assim, sempre citando o lance semelhante de Clodoaldo na Copa de 70, no susto do gol do Uruguai, lembram? “Pra frente! Bola pra frente!”, urrei. Sem sucesso. Nosso volante, aliás, não estava, digamos, num dia bom para disputar partida decisiva. Após Rossi roubar a bola e pôr a Itália à frente no placar, Cerezzo se derreteu em lágrimas, mesmo sendo ainda apenas 25 minutos jogados do Primeiro Tempo. Deu pra ver o Junior correndo até ele para ‘mandar na lata’: “Se você não parar de chorar agora, meto-lhe a mão na cara. Este é um jogo para homens, Toninho. Se você está com medo, saia logo!” ‘Mêda’…

Anotem: em 2009 o craque mineiro será novamente acusado de ter, nas palavras do ponta ‘Búfalo’ Gil, ‘amarelado’. Não contra a Itália, mas na ‘Batalha de Rosário’, o 0 x 0 com a Argentina na Copa passada, quando alegou dores na panturrilha pra não entrar em campo. “Esperar 31 anos para falar isto é covardia”, responderá Cerezo, negando a farsa e afirmando ter sido vetado pelo médico Lídio Toledo. Seja qual for a verdade… Erros acontecem, no Futebol como na Vida, e devem ser tratados com complacência e sinceridade. Mas pouco destaque será dado aos equívocos e falhas do Brasil ontem, camuflando assim, sob o mito da ‘derrota do Futebol Arte’, a verdade: a Itália jogou melhor. Dê um passo à frente aquele que nunca cometeu um erro. O mesmo passo à frente que o irritadiço Júnior não deu ontem, deixando Paulo Rossi em condição legal no terceiro e mortal gol italiano. Erros acontecem.

Com a falha de posicionamento, o lateral nada mais fez que manter acesa a mística do papel decisivo de laterais-esquerdo na história da Seleção Brasileira. Desde Nilton Santos em 1962, no Chile, quando o craque deu outro passo adiante – para fora da área, maquilando o pênalti que poderia dar a vantagem de 2 x 0 ao outro favorito ao título, o time da Espanha. No futuro, esta sina segue nos pés de outros canhotos, dos quais darei apenas a inicial de seus nomes:

– Um vigoroso e habilidoso lateral-esquerdo, chamado ‘B.’ sofrerá pênalti cabal desperdiçado em 1986 e anos depois marcar de falta gol antológico, em 1994;

– O gol de 94, aliás, só será possível após lance impensado de ‘L.’, lateral-esquerdo titular que, por uma cotovelada no adversário, será expulso, dando lugar a ‘B.’.

– Em 2006, outro lateral-esquerdo e craque, ‘R.C.’, será criticado por não acompanhar o atacante que fará o gol de nossa desclassificação, preferindo dar uma ajeitada no meião;

– E em 2018, será a vez de ‘M.’, mais uma fera na posição, ficar marcado pela forma como tenta impedir um dos dois gols de nossos futuros algozes. 

Mas tudo isso é passado, quer dizer, futuro… Enquanto escrevo, olho ao meu lado os restos de uma ‘caña’ trazida da bodega e só quero ver o ‘copo cheio’. Boas notícias do Amanhã:

1) no retrospecto entre as duas seleções, de hoje a 2022, esta será a última vitória da Itália, incluindo Copas e amistosos; 

2) será sobre eles, inclusive, que conquistaremos enfim o Tetra; 

3) não posso garantir ser a “Maldição Reversa de Sarriá’, mas em 2022, de ‘quando’ venho, acreditem: os italianos estarão de fora do Mundial pela segunda vez seguida.

As vitórias brasileiras nos últimos dois confrontos em Copa com a ‘Azzurra’ – os 4 x 1 na final de 1970 e os 2 x 1 na disputa pelo terceiro lugar em 1978 – talvez tenham sido anabolizantes na forma como o time entrou no gramado – bela e corajosa, para alguns; burra e irresponsável, para os demais. Nesse intervalo de nove dias pós-Primeira Fase, o sábio Zezé Moreira, técnico do Brasil em 1954 e hoje trabalhando para a Seleção como ‘olheiro’ dos adversários, fez assim seu relatório final para Telê Santana: “A melhor equipe que se apresentou até agora foi a Itália. Seus jogadores têm categoria, classe. O time jogou um futebol como deve ser jogado em uma Seleção. É a melhor equipe.” E enxergou isso mesmo o selecionado italiano tendo empatado seus três primeiros jogos – nada exuberante, mas o suficiente para se classificar. Confirmando assim uma máxima que se consagrará a partir de hoje no esporte: ‘O que importa é o resultado’.

O baldão de água fria – ou ‘gelatto’ – na Seleção Canarinho começou a ser construído logo aos 8 minutos, na primeira desatenção de Júnior na partida, quando não acompanhou Paulo Rossi e o atacante, livre, marcou de cabeça, já dentro da pequena área. Erros acontecem… No ataque também, pois logo depois Serginho ‘rabeou’ (aprendam com o surfe!) uma finalização de Zico e, diante de Zoff, chutou pra fora. Quatro minutos depois do tento italiano, numa das poucas vezes em que o mesmo Zico, com drible desconcertante, conseguiu se desvencilhar da marcação de Gentile, ele devolveu a Sócrates, que empatou, também chegando à pequena área, mas pela direita – golpe de sorte dele, pois ficava ali a placa publicitária da Coca-Cola (já contei este ‘bafão’ na resenha passada). Aí veio o passe ‘a la Clodoaldo’ de Toninho Cerezo, o choro, o ‘esporro’ do Júnior, o Gentile agarrando e rasgando a camisa do Zico na área (em pênalti foi 1 x 1, Luisinho fez um também, na segunda etapa) e fomos pro vestiário perdendo. Cerezo não chorava…

Sócrates comemora seu belíssimo gol diante da Itália no Sarriá
Sócrates comemora seu belíssimo gol diante da Itália no Sarriá JB Scalco/Placar

Bastava um gol, de empate, para seguirmos na disputa e, ao que parecia, o destino queria-que-queria que fosse Falcão o autor. Ele quase fez em tabela com Zico e depois, aos 23’, arrematou pras redes, com ajuda preciosa do agora atento Cerezo, que passou por trás atraindo a marcação. Era o 2 x 2 – e bastava isso, Brasil! Cairá no esquecimento que Telê recuou sim, pondo Paulo Isidoro no lugar de Serginho. Mas quis também o Futuro que num bate-rebate na área brasileira, Tardelli chutasse inofensivamente ao gol e a bola encontrasse no caminho o carrasco Rossi, em condição legal dada pelo Junior, parado na pequena área. Errar duas vezes… Tem dia que rola…

O momento do gol de Falcão diante da Itália
O momento do gol de Falcão diante da Itália Ricardo Chave/Placar

Outro lance sepultado no futuro pela mídia esportiva brasileira – que sempre se derramará por este time – será o quarto gol da Itália, erroneamente anulado pela arbitragem. Foram ao todo 27 arremates a gol do Brasil, contra nove da Itália, mas e daí? No futuro, ficará célebre uma partida de Copa do Mundo em que teremos 18 finalizações (13 ao gol) contra 14 do adversário e mesmo assim perderemos de 7 x 1 – aguardem! “O que importa é o resultado”, dirão. 

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E assumo isso pelo fracasso em minha missão de evitar a derrota para os italianos. Nunca nos esqueçamos da ‘máxima maior’ do esporte: “o importante é competir”. E não ficar tocando a bola de um lado pro outro, esperando o tempo passar, como fizeram Alemanha e Áustria ao ‘combinarem’ a classificação de ambos no grupo da Primeira Fase. Vergonha! Assim será chamada: ‘Partida da Vergonha’. E aproveito a deixa para, numa tentativa de me reabilitar após a péssima paródia de ‘O que será?’, retornar aos versos da canção de Chico Buarque. Essa tal ‘Tragédia de Sarriá’ foi uma derrota da qual o Brasil ‘não tem vergonha’. 

Nem nunca terá.

Paolo Rossi, jogador italiano fazendo gol, no jogo Brasil 2 X 3 Itália, na Copa do Mundo da Espanha, em 1982 .
O carrasco: a tarde foi de Paolo Rossi, o camisa 20 da Itália ./Placar

PARA QUEM AINDA QUER VER OS MELHORES MOMENTOS DO JOGO

https://www.youtube.com/watch?v=rjNoEP_V8nM&ab_channel=jogosdobrasil

PARA QUEM AINDA QUER VER O JOGO COMPLETO

https://www.facebook.com/watch/?v=870952513667624

BRASIL 2 x 3 ITÁLIA

Competição: Copa do Mundo de 1982

Local: Estádio de la Carretera de Sarriá, Barcelona 

Data: 5 de julho de 1982 

Horário: 12h15 (Brasília)

Público: 41.930 espectadores

Árbitro: Abraham Klein (Israel)

Assistentes: Thomson Chan Tam Sun (Hong-Kong) e Bogdan Guanev Dotchev (Bulgária)

BRASIL: Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior; Toninho Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates; Serginho (Paulo Isidoro, aos 24’ do 2ºT) e Éder

Técnico: Telê Santana

ITÁLIA:  Zoff, Gentile, Scirea, Collovatti (Bergomi, aos 34’ do 1ºT) e Cabrini; Tardelli (Marini, aos 30’ do 2ºT), Antognoni e Orialli; Conti, Paolo Rossi e Graziani 

Técnico: Enzo Bearzot

 

Gols: Primeiro Tempo: Paolo Rossi aos 8’; Sócrates, aos 12’; Paolo Rossi, aos 25’; Segundo Tempo: Falcão, aos 23’; Paolo Rossi, aos 29’Cartão Amarelo: Gentile e Oriali

Edição de junho de 2022 de PLACAR: uma homenagem à seleção de 1982
Edição de junho de 2022 de PLACAR: uma homenagem à seleção de 1982 PLACAR/Reprodução

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