Isaquias quer dois ouros em Tóquio e vê ‘ganância’ como combustível – 19/06/2021 – Esporte

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O canoísta Isaquias Queiroz, 27, tem bem clara a sua meta para os Jogos Olímpicos de Tóquio.

“Se eu quero me tornar o maior atleta olímpico [do país] em relação a visibilidade e quadro de medalhas, tenho que ganhar dois ouros em Tóquio. Ou um ouro e outra medalha, mas meu treinamento de cinco anos é para ganhar dois ouros. Não quero ir lá para ganhar prata nem bronze”, ele diz à Folha em entrevista organizada pela Petrobras, uma de suas patrocinadoras,

Após subir ao pódio três vezes na Olimpíada do Rio (recorde brasileiro em uma edição), mas não no lugar mais alto, o atleta afirma que a “ganância” é o combustível para seguir em frente.

Outra fonte de motivação é honrar a memória de Jesús Morlán, treinador responsável por mudar a vida de Isaquias e o patamar da canoagem de velocidade brasileira na última década. O espanhol que chegou ao Brasil em 2013 e comandou as conquistas no Rio morreu em novembro de 2018, vítima de um câncer no cérebro.

O treinador tinha o sonho de chegar à sua décima medalha olímpica no Japão, após levar o compatriota David Cal a cinco conquistas de 2004 a 2012. Em 2016, Isaquias faturou a prata no C1 (canoa individual) e no C2 (canoa em dupla) 1.000 m e o bronze no C1 200 m.

No programa de Tóquio permaneceram as duas provas de 1.000 m, que serão realizadas nos últimos dias dos Jogos, já no início de agosto. Isaquias ainda não sabe se competirá no C2 com Erlon Souza, 29, seu parceiro na prata há cinco anos, ou Jacky Godmann, 22.

Foi com Jacky (Erlon estava lesionado) que ele voltou a competir no C2 em maio, na etapa da Hungria da Copa do Mundo —ficaram em terceiro. No C1, Isaquias terminou em segundo. Resultados bem avaliados pela equipe brasileira, que passou a ser comandada por Lauro de Souza Júnior, o Pinda, após a morte de Morlán.

Durante a pandemia, os treinamentos em Lagoa Santa (região metropolitana de Belo Horizonte) não foram afetados, mas o hiato de competições entre o título mundial em agosto de 2019 e o retorno no mesmo palco, em Szeged, durou cerca de um ano e nove meses.

Como você avalia a sua volta às competições na Copa do Mundo da Hungria? Ficar quase dois anos sem competir não era o nosso plano de trabalho [risos]. Só que o Lauro soube adaptar muito bem o treinamento. Eu fiquei com muito medo de não poder competir na Copa do Mundo, porque a Europa ainda estava com as restrições. A gente teve que ir para o Qatar e de lá para a Hungria, bem mais cansativo. Na Hungria tivemos um pouco da experiência do que vai ser Tóquio em relação aos protocolos contra Covid. Na raia o mais estranho que senti foi essa questão de distanciamento, não poder tocar na mão, conversar, estar mais próximo.

Não fizemos uma preparação intensa para a Copa do Mundo. O pessoal da Alemanha teve três seletivas antes, a República Tcheca uma, e a gente não competiu. O medo de não ir [à Hungria] era ir para Tóquio direto sem competir. Graças a Deus a gente foi, teve essa sensação e ficamos muito felizes pelo resultado. Mesmo com o vento me atrapalhando, consegui fazer uma ótima prova e ficar em segundo [no individual], contra o alemão que estava na raia um, quase sem vento. Para mim isso deu um ar de fortalecimento, de falar “cara, não treinei e fui bem”, então agora é treinar mais ainda nas próximas semanas para chegar bem a Tóquio.

No C2 você competiu com o Jacky, não com o Erlon, seu parceiro habitual e que estava lesionado. A mudança na parceria foi só por conta da lesão mesmo ou pode se repetir em Tóquio? Com a situação que o Erlon estava passando, o Jacky teve que entrar no C2. Eles têm um emparelhamento em relação à remada. O Jacky tem uma técnica um pouco melhor, mas o Erlon fisicamente é bem mais preparado. Cada um tem a sua qualidade. Eu e o Jacky soubemos nos virar bem. Começamos a treinar mais no início do ano e em pouco tempo ficamos em terceiro na Copa do Mundo, que estava com nível de Mundial. Ninguém foi lá só para passar o remo, só a gente do Brasil que diminuiu um pouco o ritmo. O Erlon está tentando se recuperar da lesão, fazer todo o tratamento para termos dois atletas de nível alto. Quem estiver melhor vai remar o C2. Por enquanto a vaga do lado esquerdo [do barco] está aberta entre os dois.

Tem outros segredos que vocês estão guardando para a hora que realmente importa? O segredo é que a gente não estava preparado. Ganhou medalha sem esperar que vinha. Ainda tem margem para crescer. Em 2016 não consegui nem completar o C1 1.000 m na Copa do Mundo a dois, três meses dos Jogos, e quando cheguei ao Rio estava preparado.

Você já declarou ter o objetivo de ser o maior atleta olímpico do Brasil. Como está esse objetivo hoje, depois da pandemia e do adiamento dos Jogos? No Rio de Janeiro faltou uma medalha de ouro. Veio uma prata, um bronze e outra prata. Lógico que até hoje ainda me atormenta essa questão da falta do ouro. No C1 1.000 m eu me contentei com a prata, mas nas outras duas provas eu estava muito bem para ganhar. Se eu quero me tornar o maior atleta olímpico em relação a visibilidade e quadro de medalhas, tenho que ganhar dois ouros em Tóquio. Ou um ouro e outra medalha, mas meu objetivo, meu treinamento de cinco anos é para ganhar dois ouros. Não quero ir lá para ganhar prata nem bronze.

“Ah, Isaquias, você não está sonhando muito alto?”. Não, porque a gente sabe que tem a possibilidade no C2 e dois dias de descanso pra começar o C1. Então vai ter bastante tempo de preparação, uma margem para descansar. A maioria dos adversários fortes também vai competir no individual e na equipe, então vai dar uma igualada. Não vou brigar por outra coisa que não seja isso. Foram cinco anos de trabalho, o Jesús [Morlán] também deu a vida dele, literalmente, pela canoagem e pela gente, então vamos treinar pesado para chegar lá e honrar esse trabalho que ele fez ao longo dos anos.

Você pensa que, caso algo dê errado em Tóquio, ainda terá os Jogos de Paris para atingir suas metas? Não penso, porque foram cinco anos da vida de treinamento, então não posso jogar isso fora. Sem falar também que toda a torcida brasileira, minha família, amigos, minha cidade, Ubaitaba, e a Bahia em peso estão esperando essas medalhas. Não tenho margem para falar “se eu não ganhar agora tento em Paris”. Se eu fizer isso já estou jogando para cima o treinamento. É agora. Paris é outro projeto. A gente sabe que vida de atleta às vezes é curta, você pode se machucar e tchau. Meu objetivo é passar por Tóquio com medalha, eu não quero voltar de pescoço pelado, quero ir para minhas férias com a sensação de trabalho feito. Lógico que estou sendo ganancioso, porque esse é meu combustível, querer cada dia mais medalhas. Sem isso o atleta não tem porque treinar.

De que forma o Jesús ainda está presente nos seus pensamentos hoje em dia? A gente vai estar com o barco que ele idealizou. Um dia ele acordou de madrugada, ligou para o Lauro e disse que o barco tinha que ser dessa cor, desse jeito. Ele gostava muito de F1 e do Max Verstappen, e ele queria que o barco fosse azul escuro [como o carro da equipe Red Bull] com os nomes em verde fluorescente. Estamos com tudo pronto, sem contar os materiais da sorte. A flanelinha de secar o barco que já vem desde Atenas [2004], resistente. A cueca que era do Jesús o Lauro vai ter que usar lá em Tóquio, não tem jeito [risos], e ele vai ter que comprar um tênis prateado. Todos esses acessórios têm que estar lá.

Brincadeiras à parte, a gente está focado para realizar o sonho dele da décima medalha. Por isso que falo que não tem como passar por Tóquio sem medalha. Seria uma frustração bem grande, porque ele se dedicou bastante a essa temporada de Tóquio e sonhava muito estar lá. Tivemos essa perda enorme, mas ele passou todo o ensinamento dele para o Lauro, que está fazendo um grande trabalho com a gente. Tenho muita confiança no Lauro, conheço ele desde 2007, quando me ajudou no meu primeiro Campeonato Brasileiro. Temos uma amizade muito boa e, principalmente do falecimento do Jesús para cá, nos dedicamos mais ainda a evoluir tecnicamente. O resultado está aparecendo.

Você falou dos objetos da sorte do Jesús, mas também tem o seu. Pode contar mais sobre a girafa de pelúcia? Essa girafinha quem deu para o meu filho foi minha irmã por parte de pai. Depois, quando eu ia para campeonato e ele não estava presente, eu acabava colocando na mochila e ela ia comigo. No avião vai lá em cima, e desde então vem passeando o mundo comigo. E acaba dando um conforto a mais. Ele [Sebastian, o filho] até ficou chateado estes dias porque queria a girafa e eu disse: “você vai tomar meu amuleto da sorte?”. Agora ele está com a girafinha, mas com certeza depois vai me deixar levar para Tóquio, para trazer sorte de novo. Poder levar um objeto do meu filho é significativo para mim. Ela ainda não tem nome, vou ter que fazer uma enquete na internet para ver qual será [risos].



Fonte: Máquina do Esporte