Garotas de São Tomé e Príncipe encontram sorriso no surfe – 15/10/2023 – Esporte


“Para que ter uma mulher em casa?”, perguntou Caíto Ramos, em tom didático. “É para organizar a casa do homem, matar bicho, fazer almoço. Normal! É direito de uma mulher”, respondeu a si mesmo, em arroubo retórico, como quem apenas atestasse o óbvio.

É esse mesmo o padrão na ilha de São Tomé, no arquipélago de São Tomé e Príncipe, na costa oeste africana. As tarefas domésticas são geralmente exclusividade das mulheres, grupo no qual se incluem meninas, crianças mesmo, responsáveis por afazeres como a lavagem das roupas.

Na paupérrima ilha, com problemas sérios de estrutura básica, essa lavagem é feita nos rios. Estar em São Tomé significa ver constantemente as “raparigas”, como se diz no português local, caminhando com baldes na cabeça, indo ou voltando dos riachos. A água doce sempre foi o seu lugar.

A partir de 2020, no entanto, algumas conheceram a água salgada. Agora, há mulheres que surfam.

Não existia registro anterior dessa prática. Algo percebido pela portuguesa Francisca Sequeira, que conhecera o local em sua rota como comissária de bordo e, na pandemia de Covid-19, estava em processo de redescobrimento pessoal. “Pensei: ‘Bom, vou para São Tomé, vou levar minha prancha, fazer um retiro e, quem sabe, ensinar umas raparigas a surfar’”, contou.

Foi assim, inicialmente de maneira despretensiosa, que nasceu a Soma (Surfistas Orgulhosas na Mulher d’África). Ao lado da ex-surfista profissional Joana Andrade, Francisca bateu à porta de algumas casas, juntou meninas e percebeu que havia ali algo latente. “O que eu senti foi: ‘Vou voltar, garantidamente’. Eu soube que não tinha sido um projeto pontual e que teria continuidade.”

Francisca, 32, que reúne a raríssima combinação sensibilidade/inteligência/esforço, ganhou a confiança de boa parte da comunidade de Santana, onde fica o São Tomé Surf Club. A Soma completou três anos e está em expansão, com um programa estruturado, que vai bem além do esporte propriamente dito.

“Eu comecei a estudar e a pesquisar sobre a surfeterapia. Para muitas pessoas, o surfe mesmo, por si, é terapêutico. Na realidade destas raparigas, o surfe, por si, não chega a transformar a realidade. Era preciso complementar com uma estrutura quase de uma escola não formal, para combater a desigualdade de gênero, a gravidez precoce e o abandono escolar”, disse a idealizadora do projeto.

Hoje, a Soma tem uma turma de 40 garotas, divididas em duas faixas de idade (dos 10 aos 13 anos e dos 14 aos 17). A prática do surfe ocorre em um dia da semana. Há nos demais aulas de outras três disciplinas: apoio escolar, psicoeducação e empoderamento feminino.

O problema é encaixar tudo isso na rotina das meninas, que precisam também ir à escola e, o que normalmente é mais importante para suas famílias, dar conta das responsabilidades na casa. Por isso foi tensa a conversa de Francisca com Caíto, acompanhada pela reportagem da Folha na semana passada.

“Se ela vai sair, quem vai fazer o trabalho?”, perguntou ele, relutante em liberar Jéssica, 17, para as atividades na Soma. “Como filha mais velha, ela é chefe de quintal, tem tarefas, todo o trabalho de casa. Se ela sai de casa, não faz nada. O pai ficha chateado”, disse Caíto, em terceira pessoa.

Francisca revirou os olhos, mas ouviu pacientemente e contra-argumentou. Explicou que participar do projeto ajudaria a jovem a arrumar emprego e ofereceu o pagamento escolar da matrícula, das mensalidades e do material –aporte financeiro que a entidade passou a fazer agora. A contrapartida será a assiduidade de Jéssica.

Enquanto se desenrolava a negociação –finalizada em acordo assinado– sobre o chão lamacento de Santana, apareceu uma senhora, moradora do barraco ao lado: “É do surfe, né?”.

Ela recordou que uma de suas filhas, Osvaldina, tinha participado da Soma. “Ela desistiu?”, perguntou Francisca. “Não. Eu desisti ela”, respondeu, explicando o nascimento de um novo filho tornou Osvaldina figura-chave nos cuidados com a criança. O surfe ficou para depois.

Chocantes para quem não está acostumado à realidade local, os diálogos foram encarados com naturalidade, até entusiasmo, por Francisca. Ela viu na mãe de Osvaldina, agora com o bebê mais crescido, disposição para liberar o retorno da menina ao surfe. E enxergou em Caíto uma abertura: “Em nenhum momento ele se fechou”.

Quem realmente não se fechou, em notória e celebrada exceção, foi Guilherme Felix, pai de Rosy, 19, uma das caras do projeto Soma. Ele é o que Francisca chama de “advocator”, alguém com influência nas famílias de Santana –onde há um impressionante senso de comunidade–, capaz de abrir o coração e a mente de outros pais.

A Folha acompanhou Francisca à casa de Felix. Estavam na pauta do encontro o agendamento de uma reunião de pais e uma decisão sobre o futuro de Rosy, com a possibilidade de mudança para Portugal. “É ela que sabe”, disse o desprendido Guilherme, que foge ao protótipo do macho chefe de família santomense.

Independentemente do caso específico de Rosy –confiante apesar de dificuldades imensas e de situações dolorosas recentes–, não há nenhum exagero em dizer que o surfe já faz uma diferença palpável em Santana. Nas meninas que o experimentaram. E no entorno, na mentalidade também dos meninos –em geral adeptos do lema “leve-leve”, um bordão da ilha, uma vida sem compromisso.

É por isso, pela quebra de paradigmas cravados naquele chão de lama, que conversas como o embate com Caíto entusiasmam Francisca.

“Nós estamos a conseguir ir além da própria missão, que é trabalhar no empoderamento feminino. Estamos também aqui a quebrar estereótipos de gênero e a narrativa que está tão enraizada na cultura deste país. É muito mais desafiante trabalhar com os pais do que com as próprias raparigas”, disse ela.

Com as raparigas, segundo Francisca, é possível “perceber efetivamente que elas estão a ser pessoas mais confiantes, mais seguras de si próprias, com maior motivação, com maior resiliência”. “Antes, elas ganhavam uma onda e, se não conseguissem se levantar, desistiam automaticamente. Já há uma persistência, é incrível. Depois, é vê-las levar isso para a vida.”

O resultado é aferível também do ponto de vista estatístico, com entrevistas periódicas. Antes da intervenção da Soma, 65% das garotas concordavam que é obrigação da mulher assumir todas as tarefas domésticas. Esse número caiu para 23%. “Eu fazia tudo sozinha em casa, achava que era o certo. Agora, peço ajuda a meus irmãos”, afirmou Celina, 18.

O projeto foi ganhando notoriedade no mundo do surfe, atraindo voluntários de várias partes do mundo, e também chamou a atenção de empresas dispostas a associar seu nome à causa. De acordo com o relatório anual da entidade, essas empresas foram em 2022 responsáveis pela arrecadação de 17,4 mil euros (cerca de R$ 92,5 mil na cotação atual). As receitas totais foram de 30 mil euros (R$ 159,4 mil).

Os números serão maiores em 2023, com parcerias com diferentes companhias. Uma delas é a sul-coreana Samsung, que levou influenciadores a São Tomé. Mais recentemente, foi firmada uma parceria maior com a norte-americana Shutterstock e com a francesa Betclic.

A Betclic tomou conhecimento da iniciativa e viu nela um bom caminho. O grupo de apostas enxergou nas garotas santomenses um bom exemplo de “desafio às odds”, “desafio às probabilidades”, algo que casa com seu ramo de atuação. “Tem a ver com o desporto, mas tem a ver com as histórias. Elas se atrevem a fazer algo diferente”, afirmou Ricardo Malaquias, gerente de projetos de marketing do grupo.

A empresa –responsável pelo convite feito à Folha para conhecer a Soma– percebeu que simplesmente não havia fotografias de mulheres negras surfando nos grandes bancos de imagem usados pela publicidade. Era mais fácil encontrar uma surfando na internet do que uma sobre uma prancha. E se uniu a um desses bancos, a Shutterstock, para produzir imagens.

A Shutterstock dispõe agora de 120 fotografias e 30 vídeos captados em São Tomé, e a venda do material tem quase a totalidade do valor revertido para a Soma. Foi também filmado um documentário que mostra a realidade no segundo menor país da África e a mudança promovida por quem desafiou as probabilidades.

Como Jéssica, que vai surfar de novo apesar da relutância do pai. Como Rosy, que tem um pai mais aberto, mas precisou superar seu pavor do mar: “Imensas ondas, correntes… Eu ficava com imenso medo de entrar na água”.

Ela não era a única. Ainda existe esse medo em um grupo que só tinha lugar na água doce. Mas há algumas meninas, como Daniela, 19, que agora também desbravam a água salgada.

“No começo, era um lugar de medo. Agora, é um lugar de alegria.”



Folha de S.Paulo