Feminicído: surfista e filhas são mortas a facadas

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Estava colocando as malas no carro para pegar a estrada ontem (15), à noite, quando recebi a notícia. A Dani, com quem passei um fim de semana, na minha última viagem de surfe para mulheres, em Itamambuca, SP, tinha sido morta de forma brutal pelo ex-companheiro, que tirou também a vida das duas filhas adolescentes dela. Uma criança sobreviveu e eu espero um dia poder contar a ela quão maravilhosa era sua mãe. Isso é tudo que eu posso dizer em relação a essa tragédia, pois matérias policiais ficaram no meu passado. Meu texto é uma homenagem à Dani, ao legado que ela deixou e à vida.

por Marcela Lima

A Dani tinha 40 anos, era uma mulher forte, cheia de vida e luz. Estava aprendendo a surfar e como todo surfista iniciante, recém-picado pelo mosquito do surfe, estava super empolgada. É estranho demais pensar que ela não está mais entre a gente. Nunca estamos preparados para a morte. Ela sempre vai doer. Mas quando perdemos alguém jovem e saudável é ainda mais inesperado. Quando eu tinha 18 anos perdi a minha mãe, que lutava há anos contra um câncer. Foi o momento mais doloroso da minha vida, mas a morte nesse caso foi um descanso. Não consigo imaginar a dor da filha de 9 anos da Dani, que perdeu sua mãe de forma tão abrupta. Que Deus conforte o coração dela, da família e de todas nós que ficamos sem nossa parceira de surfe.

A nossa parceira de surfe, Daniela Grecchi, sempre será lembrada com carinho por todas que tivemos a honra de dividir as ondas com ela. Foto: Renata Paiva

Foi difícil dormir essa noite. Não consegui ter um sono profundo, na verdade. Quando abri os olhos, a Dani foi o meu primeiro pensamento. Desde então comecei a ter flashes dos meus momentos com ela. Um deles está registrado no meu feed do Instagram. Nós duas remando para tentar pegar a mesma onda em Itamambuca. Em vez de disputar, uma estava incentivando a outra e a foto da nossa amiga Renata Paiva captou esse momento.

Eu e a Dani remando na mesma onda, durante a nossa viagem para Itamambuca, SP – Imagem: Renata Paiva

Quando eu cheguei em Itamambuca a Dani foi a primeira a me receber. Ela atualmente era o braço direito, esquerdo e tudo mais da Mariana Vervloet, a minha amiga que organiza essas viagens de surfe feminino. A Dani corria atrás de patrocínios e parcerias para as trips, ajudava em absolutamente tudo e mesmo no meio da correria ainda achava tempo para dividir as ondas com a gente.

Na primeira noite ela me chamou para ver a lua, que estava cheia e deslumbrante. Conversamos sobre a nossa religião em comum, ela também era espírita. Falamos sobre nossas tatuagens, os significados delas e ela me falou cheia de orgulho que tinha três filhas. No sábado à noite eu encontrei umas garrafas de gin que uma das meninas tinha levado e cismei de ir ao supermercado comprar gelo e tônicas. Adivinhem quem topou me levar de carro até lá? Claro que foi ela, a mãezona do grupo. Tive pouco tempo com ela, mas pude perceber a alma linda que ela era.

Não vou esquecer, acho que nenhuma de nós que estava nessa viagem, a alegria dela ao ganhar de presente da Mari uma prancha. Era um funboard e ela segurou com os olhos brilhando, como uma criança recebendo o presente de Natal.

Dessas poucas e intensas lembranças que tenho com a Dani há, no entanto, apenas um arrependimento. No domingo de manhã ela me disse que não ia surfar, porque estava menstruada e com muita cólica. Quando ela viu todo mundo saindo da água com a cabeça feita ela mudou de ideia, mas já passava de meio-dia e ela me disse: “Está tarde agora. Eu vou voltar para casa com vocês, para ajudar a levar as coisas e venho aqui rapidinho fazer um surfe sozinha”. Eu fiquei com preguiça só de imaginar ela indo e voltando e acabei a desencorajando. Que ideia mais infeliz a minha.

Se eu pudesse voltar no tempo diria: “VAI, AMIGA!!!” A gente nunca sabe até quando vai estar nesse plano. Por isso a gente precisa surfar as ondas como se não houvesse amanhã, “porque se você parar pra pensar, na verdade não há”.

A passagem da Dani na Terra será lembrada com carinho por todas nós que tivemos a honra e o privilégio de dividir o outside com ela. Era uma mulher com uma história única e ao mesmo tempo tão semelhante a de muitas nós. Com dores, alegrias e sonhos. Viveu um relacionamento tóxico e abusivo e conseguiu sair dele para buscar sua merecida felicidade. Infelizmente. esse direito foi tirado covardemente dela por um monstro. Felizmente ela viveu os últimos meses o sonho que ela queria: pegou ondas, se empoderou, fez amigas, visitou lugares, se divertiu e espalhou luz e amor.



Fonte: Máquina do Esporte