Escolha de Brisbane como sede dos Jogos de 2032 exibe poder de John Coates – 21/07/2021 – Esporte

0
12


Para o homem que escreveu as regras, o resultado não poderia ter sido mais satisfatório.

Na quarta-feira (21), integrantes do COI (Comitê Olímpico Internacional) confirmaram Brisbane, na Austrália, como sede da Olimpíada de 2032, fazendo dela a primeira cidade a conquistar o direito de organizar o evento sob as novas regras de seleção concebidas por John Coates, um dos vice-presidentes da organização.

O retorno dos Jogos à Austrália foi especialmente satisfatório para Coates: ele é também o presidente do vitorioso Comitê Olímpico Australiano.

O percurso tranquilo de Brisbane, de candidata favorita a cidade-sede da Olimpíada, foi o primeiro teste de um processo de seleção mais enxuto que foi elogiado como um esforço para reduzir as despesas e o desperdício inerentes ao sistema de seleção de sedes olímpicas, e criar um método que produza candidaturas melhores.

Mas as novas regras, ao colocar a escolha de uma cidade definida como candidata preferencial nas mãos de alguns poucos líderes do COI, despertou novas questões sobre a lisura do processo e o papel de Coates, que provavelmente é a figura mais importante do movimento olímpico, abaixo apenas do presidente do COI, Thomas Bach.

Para Bach, Coates se tornou um subordinado essencial, um homem que sabe como fazer com que as coisas aconteçam no mundo labiríntico da política esportiva. Mas esse relacionamento estreito também tem benefícios para o advogado Coates, de 71 anos, cujo acúmulo de poder no ponto de interseção entre política, protesto e disciplina esportivos leva algumas pessoas a questionar a independência dos órgãos que ele discretamente controla.

Coates foi apontado por Bach, por exemplo, como homem de ligação entre o COI e os organizadores da Olimpíada de Tóquio, posto do qual ele ajudou a dirigir a realização dos Jogos neste ano apesar da pandemia. Isso veio se somar aos seus papéis de liderança da comissão legal do COI, um órgão que entre outras coisas supervisiona o direito de protesto dos atletas, e do Comitê Olímpico Australiano, que ele comanda há mais de três décadas.

Mas Coates, além disso, ocupa mais uma posição, que pode ser ainda mais influente: ele preside o órgão que supervisiona o principal tribunal do esporte, a Corte Arbitral do Esporte (CAS), a organização que no ano passado atenuou significativamente a punição da Rússia por facilitação do Estado ao doping.

“Os tentáculos dele estão em toda parte, de ser o principal dirigente esportivo da Austrália a ser uma figura altamente influente no COI”, disse Duncan Mackay, fundador do site Inside the Games, que acompanha os Jogos Olímpicos. “Ele tem influência sobre Thomas Bach, e já há muitos anos. Todos sabem como ele e Bach são próximos e o quanto ele é influente, o que provavelmente lhe confere mais uma camada de poderes.”

Esse poder permitiu que Coates reagisse contra grupos que buscavam reformar a maneira pela qual o movimento olímpico conduz seus negócios. Os críticos, não por coincidência, também atacam a concentração de poderes nas mãos de alguns poucos indivíduos como Coates.

“Quer os conflitos de interesses sejam reais, quer sejam uma percepção, eles existem”, disse Rob Koehler, diretor geral da organização ativista Global Athlete.

Koehler disse que os muitos papéis que Coates desempenha fizeram dele uma “parada única” para muitas questões.

“Por exemplo, a Comissão de Atletas do COI indicou que a Comissão de Assuntos Legais do COI, presidida por Coates, cuidará das sanções a atletas que violarem as regras quanto a protestos nos pódios, em Tóquio. Se um atleta desejar recorrer de uma sanção, ele terá de acionar a CAS, também presidida por Coates”, disse Koehler.

“Isso não é separação de poderes, e tampouco é indicador de que exista independência”, acrescentou.

O COI vem insistindo em que Coates se afastou de todas as deliberações sobre a concessão das Olimpíada de 2032 a Brisbane. Mas a votação da quarta-feira representa a segunda ocasião em que Coates obteve sucesso em conquistar uma Olimpíada para a Austrália; mais de duas décadas atrás, foi ele que organizou a surpreendente vitória de Sydney sobre Pequim para organizar os Jogos Olímpicos de 2000.

E é inegável que as digitais de Coates estavam claramente visíveis em todo o processo que viu Brisbane avançar como candidata única a organizar a Olimpíada de 2032.

Em 2016, Bach apontou Coates para presidir uma comissão encarregada de desenvolver uma nova maneira de selecionar cidades-sede.

A mudança havia sido provocada por uma sequência de escândalos e pela disparada de custos relacionados à organização de uma Olimpíada —ou mesmo de uma candidatura para isso—, o que havia levado muitos países ocidentais a se afastar, já que o sentimento público contrário aos Jogos havia reduzido o elenco de cidades candidatas. Mais ou menos na mesma época, Brisbane, que já tinha se candidatado sem sucesso a sediar uma Olimpíada, informou ao COI que estava estudando a viabilidade de sediar os Jogos, fosse em 2028, fosse em 2032.

Por volta de fevereiro de 2019, um estudo de 18 meses de duração havia concluído que Brisbane tinha o potencial de apresentar uma candidatura forte. Um mês mais tarde, Bach encarregou Coates de desenvolver uma maneira de selecionar a cidade sede “de modo ainda mais flexível, direcionado, e orientado ao diálogo”.

Em junho do mesmo ano, o COI formou comissões que recomendariam as chamadas candidatas preferenciais a sediar os Jogos. Poucos meses mais tarde, Coates, em sua função de líder do Comitê Olímpico Australiano, uniu-s ao primeiro-ministro Scott Morrison, de seu país, para negociações com Bach em Tóquio a fim de discutir a candidatura de Brisbane.

Por volta de fevereiro de 2021, depois de ouvir expressões de interesse do Qatar e da Hungria, o conselho executivo do COI anunciou que recomendaria Brisbane aos seus integrantes como candidata única a organizar os Jogos Olímpicos de 2032.

Os rivais de Brisbane ficaram furiosos, mas não tinham como expressar essa insatisfação publicamente. Dirigentes esportivos do Qatar escreveram ao COI para registrar as queixas de seu país quanto ao processo. Publicamente, o presidente de uma comissão do Legislativo da Alemanha disse que “seria difícil superar esse resultado em termos de não transparência”.

Mas Bach agiu rapidamente para rebater as insinuações de que Coates pode ter influenciado indevidamente a seleção de Brisbane.

“Nossas regras sobre conflitos de interesse, aplicadas por nosso pessoal da área de ética e fiscalização, são extremamente claras e rigorosas”, disse Bach. “Por isso, ele não tomou parte de qualquer discussão do conselho executivo sobre os Jogos de 2032.”

Mesmo assim, Coates não tinha escondido no passado sua disposição de fazer qualquer coisa que fosse necessária para obter o resultado que desejava.

Um ano antes dos Jogos de Sydney, por exemplo, Coates revelou que o Comitê Olímpico Australiano havia oferecido compensações monetárias em valor de US$ 70 mil a dois membros africanos do COI, antes da votação de seleção da sede em 1993. Quando os votos foram contados, Sydney derrotou a favorita, Pequim, por dois votos. “Bem, não vencemos só pela beleza da cidade e pela qualidade das instalações esportivas que tínhamos para oferecer, e jamais venceríamos”, disse Coates, na época.

Richard Pound, o integrante do COI com mais tempo de serviço, disse que, embora haja quem não goste dos métodos de Coates, sua capacidade e experiência o tornam parte indispensável da equipe de liderança de Bach.

“Ele não é o tipo de pessoa que agrada a todos, mas é muito competente”, disse Pound.



Fonte: Máquina do Esporte