É surfe na piscina de ondas, mas podia ser hipismo Origem Surf

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Ondas perfeitas e iguais e apresentações individuais trazem nova dinâmica às competições. A Jeep Ranch Pro, etapa recém-encerrada na piscina de Kelly Slater reacende a discussão. Afinal, é bom ou ruim? Tédio ou emoção? Tem mais prós ou contras? A resposta é difícil, pode ser um pouco de tudo, mas uma certeza é que as piscinas chegaram no surfe para ficar.

por Diogo Mourão

Acabou neste domingo, dia 20, a Jeep Surf Ranch Pro, sexta etapa do WSL Championship Tour, na piscina de ondas de Kelly Slater, na Califórnia. Só para variar, mais uma etapa dominada pelos brasileiros. Agora já são cinco vitórias em seis etapas. Desta vez, quem levou a melhor foi Felipe Toledo, que desbancou o bicampeão e até então invicto Gabriel Medina. Entre os oito semifinalistas, quatro eram brasileiros. Além de Toledo e Medina, Yago Dora, que fez a melhor onda do campeonato, e Adriano de Souza, estavam entre os finalistas. De quebra, Gabriel garante vaga para a grande final em Trestles. No surfe feminino, a francesa Johanne Defay superou a havaiana Carissa Moore na final e a brasileira Tatiana Weston-Webb termina com bom resultado (terceiro lugar).

Desta vez os brasileiros trocaram de posição no pódio: depois de duas vitórias de Medina, Felipe fica com o título. Crédito: Pat Nolan/World Surf League.

Chover no molhado

Falar do domínio brasileiro é chover no molhado. Mais do que a previsível vitória brasileira, o que volta a chamar atenção na etapa, mais uma vez, é a realização de um campeonato na piscina. Pipocaram mensagens com opiniões no WhatsApp. É legal? Sem graça? Um tédio? Emocionante?  Bom, independentemente do que acharmos, as piscinas estão aí, com prós e contras. Se por um lado a piscina faz o surfe ficar parecido com esportes como hipismo e ginástica olímpica, com apresentações individuais e quase sempre previsíveis, por outro, há a certeza de que todos terão a mesma condição para mostrar suas qualidades e sempre haverá o momento preciso que decidirá a competição.

Ao que parece, ouvindo aqui e ali, justamente o fato que faz a maior diferença entre a piscina e o mar é o ponto que mais incomoda. No mar, nenhuma onda é igual a outra. Uma das qualidades mais valiosas para qualquer surfista, e não estou falando apenas de profissionais, é o conhecimento do mar, saber escolher a melhor onda, o momento exato do drop.

Na piscina do Tio Kelly* é diferente. O trem traz a onda perfeita, tem de ter perna e o surfista pode, como nos outros esportes de exibições individuais, preparar sua “volta”. Entram outros elementos, o físico e o mental passam a contar. São poucas chances e a onda, muito rápida, não permite erro. Se perder aquela, não adianta voltar para o outside e tentar outra. Já era. Perdeu, playboy. É preciso ter confiança. Aliás, Yago Dora estava “quebrando”, parecia uma séria ameaça para furar a bolha de finais Felipe x Medina na etapa, mas na hora “H” cometeu erros até bobos e parou no meio do caminho.

Tatiana Weston-Webb consegue mais um bom resultado e garante a terceira colocação na etapa. Crédito Nolan/World Surf League)

Para quem gosta de surfe, qualquer fase de qualquer etapa vale à pena assistir se tiver onda boa. As fases finais já têm a emoção natural, principalmente agora, sempre com brasileiros envolvidos. Na piscina, porém, temos ondas perfeitas e as primeiras fases são um tédio. Juro por Deus, estava cozinhando e vendo a competição ao mesmo tempo. O surfista entrava na onda e, no meio, eu já me distraía cortando a cebola, mexendo alguma coisa na panela. É um desfile de manobras iguais, tubinho, mais manobras iguais, outro tubinho e uma finalização. Poucos conseguiam ousar, chamar mais atenção.

Na fase final, é diferente. Como no hipismo e na ginástica, de todos que entram na competição, poucos passam para as finais ou desempate (no hipismo). Quando entra decisão de título, a emoção vem junto. A presença dos melhores garante a expectativa de apresentações de mais impacto. Fica bem legal, com momentos de tensão pela briga pelo título e realmente boas exibições.

Uma vantagem clara das piscinas é poder fazer uma competição com dia e hora marcados, sem depender de swell, vento, fundo, tubarões na área. Isso é muito, muito bom mesmo, para as transmissões para TV ou qualquer plataforma.

Como diria minha vó, para o irremediável, remediado está. As piscinas chegaram e não acredito que sairão do Tour. O formato precisa ser revisitado, melhorado, para as pessoas não tirarem o olho da tela para cortar cebola, por exemplo. Quem sabe fazer um campeonato à parte, tipo um masters, com os oito melhores do Tour, com premiação alta e uma transmissão de tirar o fôlego? Fica a dica!

No meu ponto de vista, porém, tem uma questão mais profunda do que um tubo bem surfado em Pipeline. Enquanto no outside cresce o número de piscinas no mundo e fala-se até de um circuito mundial, o backwash (contraponto) vem forte com a questão sustentável. A Surfrider Foudation Europe , por exemplo, já se manifestou claramente contrária às piscinas de ondas, ressaltando a quantidade de água e energia usadas para fabricar ondas perfeitas, o que vai contra tudo que se fala sobre diminuição do consumo no mundo. Porém, esta é uma boa discussão, para outro texto.

Adriano de Souza homenageado

Homenageado por todos os brasileiros, Adriano De Souza, o Mineirinho, mostra classe e garra e vai às finais do Jeep Surf Ranch. Crédito Jackson Van Kirk/World Surf League via Getty Images)

O texto é para falar de CT em piscina, mas não dá para ignorar a bela homenagem que o time brasileiro fez ao campeão mundial Adriano de Souza, em sua última temporada no tour. Todos os brasileiros e também o português Frederico Morais competiram com a lycra de número 13, com “De Souza” nas costas. E Adriano retribuiu com uma atuação consistente, a garra e o talento de sempre.

*Quando escrevi Tio Kelly, lembrei-me que já me referi a ele em textos como o “Superboy Americano”. O tempo passa até para os mitos. É um privilégio ter visto a carreira deste fenômeno.



Fonte: Máquina do Esporte