Diário olímpico, Ana Sátila: Discriminação contra brasileiros, dores e vitória – 19/07/2021 – Esporte

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A reta final de uma preparação olímpica é marcada por fortes emoções entre os atletas que aguardam ansiosamente a oportunidade de competir no palco mais almejado do esporte. Desse pacote de sensações sortidas podem sair conquistas, frustrações e um inevitável frio na barriga.

Some-se a isso o fator pandemia, que além de ter adiado os Jogos de Tóquio de 2020 para 2021, ainda desperta dúvidas e preocupações às vésperas do início das competições na capital japonesa.

Desde meados de abril, quando a contagem regressiva para a Olimpíada marcava a casa dos cem dias, três atletas brasileiras passaram a enviar periodicamente para a Folha, a convite da reportagem, mensagens de áudio contando os destaques positivos e negativos de suas preparações.

São elas: a velejadora Kahena Kunze, 30, medalhista de ouro na Rio-2016 com Martine Grael na classe 49er FX; a canoísta Ana Sátila, em sua terceira participação olímpica na modalidade slalom aos 25 anos; e a skatista da categoria park Yndiara Asp, 23, estreante nos Jogos, assim como o esporte que pratica.

Conheça pelas palavras das próprias atletas como elas viveram e enxergaram os últimos dias de um exigente ciclo olímpico de cinco anos.

Ana Sátila

13.abr

“Primeira semana do meu diário rumo a Tóquio. A gente estava pronto para começar a preparação para a viagem à Europa, já estava quase tudo certo e fiquei sabendo que a França suspendeu os voos do Brasil, então até agora não sabemos o que fazer. Serão muitas dificuldades pelo caminho, mas a gente está firme no objetivo. É ter muita calma neste momento e esperar para ver se vai conseguir viajar para a Europa e fazer essa preparação. É muito necessário competir fora do país, com outros atletas, e conseguir dar continuidade na nossa programação.”

20.abr

“Continuo treinando muito bem, especialmente agora que a gente já tem uma data prevista para ir à Europa realizar o nosso treinamento, a última preparação rumo aos Jogos Olímpicos. Voltei ao Rio de Janeiro e fico aqui uma semana treinando até conseguir viajar. A confederação e o COB [Comitê Olímpico do Brasil] não mediram esforços para preparar toda essa viagem. É muito difícil, devido à pandemia, organizar os voos. A nossa rota mudou um pouquinho, mas o nosso cronograma continua excelente, a gente vai conseguir treinar muito bem e talvez participar de algumas competições, remar com outros atletas. De resto, a gente está sempre fazendo os exames de Covid, se cuidando muito para conseguir viajar.”

28.abr

  • Em: Praga (República Tcheca)

“Semana espetacular, estou feliz demais, a gente finalmente conseguiu viajar e veio para a República Tcheca, onde vai acontecer uma etapa da Copa do Mundo. Viemos no dia exato, porque logo em seguida já fechou [a fronteira] aqui de novo. Em Praga tem muitos atletas de nível espetacular e vários canais aqui dentro da cidade mesmo. Conseguimos treinar em vários canais diferentes e que são maravilhosos. Estou aproveitando bastante, treinando muito forte.”

5.mai

  • Em: Praga (República Tcheca)

“Ainda muito empolgada! A gente já tinha ficado muito tempo treinando em uma pista só. Então, chegar aqui na República Tcheca, treinar em uma pista espetacular e com várias outras pistas também aqui por pert, e muitos atletas de um nível altíssimo treinando aqui, é uma motivação a mais. É claro que não está como na semana passada, já estou muito cansada, com muita dor dos treinamentos. Tudo mudou, né? Até mesmo a temperatura, está muito frio, então a gente acaba sofrendo demais com isso, principalmente treinando na água gelada o tempo todo. A gente está nessa semana de se cuidar, se prevenir para que consiga continuar o treinamento sem nenhuma interrupção.”

13.mai

  • Em: Liptovsky Mikulas (Eslováquia)

“A gente saiu de Praga e foi para a Eslováquia, onde vamos tentar participar de uma competiçãozinha interna. A Eslováquia é muito forte na C1 e no K1 [provas em que ela compete, na canoa e no caiaque], então eu já vou ter várias concorrentes de altíssimo nível para poder fazer essa comparação. Estou remando em mais uma pista diferente. É super legal estar na largada novamente, a gente sentiu falta de competir.”

23.mai

  • Em: Liptovsky Mikulas (Eslováquia)

“Hoje eu terminei em primeiro lugar na canoa e em terceiro no caiaque na competição aqui na Eslováquia. É uma pista muito boa, de um nível muito alto, de Copa do Mundo mesmo, e aqui tem muitos atletas campeões olímpicos, mundiais e uma geração muito forte. É a seletiva [olímpica] da Eslováquia, então todo o mundo está participando. Ainda está muito frio, o que para a gente atrapalha muito. Frio e chuva, mas tentando se adaptar. O resultado foi legal, mas não gostei muito do K1, o terceiro lugar poderia ter sido melhor. Cometi um erro muito grande já no início da pista, mas está sendo um aprendizado rumo à Copa do Mundo, rumo aos Jogos Olímpicos.”

2.jun

  • Em: Praga (República Tcheca)

“Acabei de pegar meus dois barcos olímpicos, que ficaram incríveis. Desde o design até a embarcação, tudo o que vem dentro. Eu fui até a fábrica, na Polônia, onde consegui ajustar os mínimos detalhes. Ficou perfeito. Agora a gente tem o fisioterapeuta aqui também, ele acabou de chegar para nos acompanhar nessa última etapa. Foi essencial, porque a gente já estava sentindo muita dor, incomodando bastante. Com a ajuda dele está sendo maravilhoso.”

29.jun

“A primeira etapa da Copa do Mundo aconteceu em Praga, e uma semana depois a segunda aconteceu na Alemanha, em Markkleeberg. Em Praga, cheguei muito bem preparada, mas infelizmente dois atletas do Brasil testaram positivo para Covid. Nós da delegação brasileira fomos impedidos de competir, o que para mim foi extremamente difícil. Foram dois, três dias ali sofrendo muito, porque eu tinha me preparado para aquela competição. Saber que simplesmente eu não teria nem a experiência de entrar na água foi muito doloroso, precisei muito da ajuda do meu técnico para colocar minha cabeça no lugar e superar aquele desafio que foi tão duro.

O fator principal foi não saber se ainda poderia competir na segunda etapa ou não, se seria possível voltar para casa ou precisaria ficar ali de quarentena. No final, a gente conseguiu viajar para a Alemanha com muito esforço do meu técnico, trabalhando dia e noite para conseguir provar que a gente não tinha muito contato com os atletas que testaram positivo. Acabou dando certo, a federação internacional aceitou a nossa participação. Mas mesmo assim, chegando na Alemanha, a parte mais difícil foi um pouco da discriminação contra o Brasil, de não quererem aceitar a gente no mesmo hotel.

Então eu cheguei, de verdade, exausta nessa Copa do Mundo. Psicologicamente, cada vez que eu entrei na água não conseguia me sentir bem e, claro, fisicamente também refletiu muito. Eu sabia que estava na pior situação em que poderia me encontrar, mas precisava continuar focada para a competição. Consegui ainda uma final no K1, então já foi uma conquista. Na C1, no dia depois, eu não conseguia mais entrar na água, não conseguia colocar o mínimo que sabia e acabei não passando para a final.

Mas consegui levar isso como experiência, com certeza vai ser um diferencial muito grande nos Jogos Olímpicos, porque ali a situação não podia ter sido pior e mesmo assim consegui continuar um pouco concentrada. Agora cheguei em casa e ficarei aqui por uma semana e meia. Vários compromissos, entrevistas, mas estou conseguindo seguir o meu plano de trabalho. Estar entre a minha família também é muito importante. Tenho certeza e a positividade de que tudo vai melhorar.”

8.jul

“Acabei de chegar ao Japão e estou muito feliz que deu tudo certo até agora. Eu estava tentando me cuidar o máximo que podia, mas sempre com um pouco de receio de testar positivo no final. Aqui é do hotel para o treinamento no canal. Hoje foi o meu primeiro dia de treinos, a gente fica nessa bolha e é muito seguro, mas para chegar até aqui foi muito complicado, deu um pouco de medo. A primeira batalha a gente já venceu, agora é focar para conseguir continuar treinando bem e aprender a pista o máximo que conseguir. A motivação é maior ainda nessa reta final, só tenho a agradecer a todo o mundo que me apoiou para chegar até aqui. Foi muito complicado, mas eu consegui. É um sentimento de vitória antes de a competição ter começado. Tenho certeza de que vai sair muita coisa boa daqui.”



Fonte: Máquina do Esporte