Dez anos após desastre nuclear, Fukushima recebe nesta terça 1º evento da Olimpíada – 19/07/2021 – Esporte

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Todos os dias, representantes do governo de Fukushima fazem apresentações aos jornalistas no centro de imprensa em Tóquio. Querem mostrar que a região está recuperada, é segura e faz parte do que o Japão batizou de “Recovery Games” (jogos da recuperação, em inglês).

Dez anos após um dos maiores desastres nucleares da história, a província vai receber o primeiro evento esportivo da Olimpíada. A partida de softbol entre Japão e Austrália vai acontecer a partir das 21h desta terça-feira (20, quarta-feira no horário local), no Fukushima Azuma Baseball Stadium, a 290 km da capital.

“Os locais da Olimpíada foram limpos e restaurados de maneira profunda. Mas existem áreas que não passaram por esse processo, como florestas e montanhas, e elas oferecem sérios riscos de exposição a radiação”, disse à Folha o professor Marco Kaltofen, coautor de estudo sobre os índices de radiação em locais que receberão os Jogos.

“De fato, várias partes de Fukushima ainda estão fechadas a visitantes, mas o risco de radiação nos locais de eventos olímpicos é insignificante.”

Em 11 de março de 2011, uma reação em cadeia provocou o acidente que causou mais de 18 mil mortes e a evacuação de uma área de 1.150 km², deixando cerca de 100 mil desabrigados. Às 14h46 daquele dia, um terremoto de magnitude 9,1 atingiu o arquipélago. Com epicentro no mar a cerca de 70 km da península de Oshika, foi o mais forte registrado na história do Japão.

Seguido por intensos tremores, provocou um tsunami que avançou sobre três províncias: Iwate, Miyagi e Fukushima.

As ondas de até 14 metros de altura inundaram a Usina Nuclear de Fukushima Daiichi, na qual três dos seis reatores nucleares derreteram e liberaram elementos radioativos no ar, na água e na terra.

O estádio Azuma, a cerca de 90 km do local da tragédia, será sede das disputas de softbol e beisebol. Como está fora de Tóquio, cidade onde a presença de público nos eventos está vetada, a arena poderia receber torcedores, algo que não acontecerá por decisão do governador Massao Uchibori.

ONGs que acompanham os níveis de radiação na área do acidente concordam que o evento será seguro para atletas, jornalistas e público. Ainda assim, o Greenpeace registrou há três anos atividades mais altas do que o normal na J-Village, centro de treinamento que pode ser utilizado por equipes olímpicas.

“Quem chega do exterior para passar duas semanas em Fukushima, caso fique apenas nos locais seguros, não vai receber dose alta de radiação. Se você veio do Brasil, foi exposto a um nível muito maior de radiação durante o voo até o Japão do que em Fukushima”, afirma Azby Brown, pesquisador da Safecast, entidade que mede radiação no ambiente.

“Mas há um lado político que necessita de mais transparência. Na J-Village, por exemplo, há lugares que estão limpos, e outros que não estão. O governo quer que acreditemos no que eles estão fazendo, só que as coisas não funcionam assim.”

O estádio fica no complexo Azuma Sports Park, com escolinhas para crianças e campos para práticas de diferentes modalidades. A Folha tentou entrar em contato com a administração do local, mas não obteve resposta.

Entidades que acompanham a situação após o vazamento nuclear veem mágoa de parte da população com o envolvimento de Fukushima e a utilização do desastre para a promoção dos Jogos, já que o governo japonês prometeu fazer da realização da Olimpíada uma revolução para a área.

“Há uma divisão, porque há lugares que ainda oferecem risco. É possível viver em Fukushima de maneira segura, depende do local”, afirma Brown. “Uma questão importante é que ainda há milhares de pessoas evacuadas de suas casas e que ainda não voltaram. Foi vendida a ideia de que a Olimpíada seria um boom para a economia, e isso não aconteceu. Muita gente acredita ter sido usada.”

Para o pesquisador, um dos questionamentos é o que poderia ser feito em Fukushima caso o dinheiro do orçamento olímpico fosse aplicado na recuperação da região —os Jogos deste ano serão os mais caros da história, e a projeção é que o custo total do evento será superior a US$ 15 bilhões (R$ 76,7 bilhões).

À Folha, o governo de Fukushima assegurou não haver quaisquer riscos para a realização das partidas de beisebol e softbol. Todas as medições realizadas nos últimos anos, de acordo com as autoridades, mostram que os níveis de radiação estão dentro dos parâmetros regulares.

Um relatório publicado em julho de 2012 a partir de uma investigação independente apontou que a Tokyo Electric Power Company (TEPCO), responsável pelos reatores da usina, falhou. A empresa não tinha os requisitos básicos para avaliar os riscos de acidente nem planos de evacuação e de danos colaterais. Três meses mais tarde, a companhia reconheceu não ter tomado as medidas necessárias.

Procurada, a TEPCO disse que “fará todos os esforços para facilitar a realização dos Jogos, inclusive com o fornecimento de energia ao Azuma Stadium”.



Fonte: Máquina do Esporte