Deixe seu cringe olímpico na gaveta – 19/07/2021 – Sandro Macedo

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Atenção, você certamente deve ter um cringe olímpico muito perto de você. Não é tão difícil identificá-lo, é só levantar algumas bolas e verá ele cortando todas.

Pode começar aproveitando o clima das finais da NBA. Cite o time de basquete que os EUA montaram para Tóquio, que ainda terá os finalistas Jrue Holiday (Milwaukee Bucks) e Devin Booker (Phoenix Suns) se juntando a Kevin Durant, Jayson Tatum ou Damian Lillard, o único homem no mundo que faria cestas de cinco pontos com facilidade, se elas existissem.

Tudo bem, não tem LeBron James, Stephen Curry ou James Harden, mas mesmo assim tem cara de imbatível.

O seu amigo cringe, porém, logo responderá que “Dream Team” de verdade só teve um, em Barcelona-1992, com Michael Jordan e Magic Johnson. Aliás, nem comece a falar quem é melhor, “Space Jam Jordan” ou “Space Jam LeBron”. Isso pode virar uma polêmica maior do que quem deveria sentar no trono de “Game of Thrones”.

E como ter uma Olimpíada sem um astro do atletismo do tamanho de Carl Lewis ou Usain Bolt? Uma piscina sem Ian Thorpe ou Michael Phelps? Pensando bem, o cringe vai dizer que boa mesmo foram as participações de Bolt e Phelps em Pequim-2008, o que veio depois… Bem, não foi a mesma coisa.

O sucesso do vôlei nas quadras, sempre candidato ao ouro? É, mas quem ganhou o ouro primeiro foi a turma de Marcelo Negrão e Maurício, em 1992, que por sua vez são herdeiros diretos da geração de prata, de 1984.

Futebol? Estragaram quando permitiram a entrada de jogadores acima dos 23 anos. Bom era antes, Olimpíada-raiz, com jogadores novinhos, todos de clubes brasileiros, como a medalha de prata de 1984, com Dunga, ou novamente a prata em 1988, com Romário, Bebeto e Taffarel, praticamente um embrião do tetra da Copa em 1994.

E que legal trocar a noite pelo dia nos Jogos, hein? Não para o cringe, que não troca a recordação da maratona televisiva de Seul-1988 ou de Pequim-2008 por nada.

Emoção na cerimônia de abertura? “Foi bonitinha”, dirá seu amigo da geração X, ou Y, ainda que não se compare a Montserrat Caballé e dois dos três tenores cantando depois de um cara acender a pira olímpica com uma flechada em Barcelona-1992 —ele na verdade errou a flechada. Perceba que o cringe tem uma certa obsessão com os Jogos de Barcelona, é um jeito de ele falar também de “legado”.

Para terminar, o nosso fraterno cringe olímpico não só gosta de citar as glórias de Jogos passados como “as melhores de todos os tempos” como também olha com desdém para novidades recentes, incluindo algumas que veremos em Tóquio.

Momento da confissão: eu sou cringe olímpico. Pronto, falei.

Mas não é hora de ser cricri com as particularidades de Tóquio. Sim, sim, surfe, skate ou escalada deveriam ir para os X-Games, eu sei, eu sei. Mas é justamente o surfe e o skate que têm tudo para salvar o quadro de medalhas do Brasil de uma vertiginosa queda em relação aos resultados da Rio-2016.

Então, coloque o seu cringe olímpico na gaveta e comece a se acostumar com termos como “alpha flip”, “360 spin”, “tubo” e “aéreo”. Afinal, você sempre se gabou dos “wasari”, “cristo invertido” e “duplo twist carpado… esticado”.


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Fonte: Máquina do Esporte