Debate sobre patrocínio de Marta precisa ir além dos clichês – 19/07/2021 – Renata Mendonça

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Vai começar a Olimpíada e, mais uma vez, o futebol feminino será um dos assuntos mais comentados. Não só pelos que efetivamente assistem e gostam de acompanhar as partidas das mulheres mas também por aqueles que têm como “hobby” depreciar o jogo delas.

E, aqui, cabe abrir um parêntese: ainda me impressiono com a quantidade de pessoas que diz não ligar para futebol feminino e ainda assim faz questão de entrar em todas as discussões para “provar” que ninguém liga para futebol feminino. Sabe o que eu costumo fazer quando não ligo para uma coisa? Eu efetivamente não ligo, não falo sobre, não entro em discussão, não me importo.

Parêntese fechado, voltemos ao cerne da questão. Com o futebol feminino em voga, surgem dois tipos muito peculiares de pessoas: os acima citados e os “especialistas em marketing esportivo”, que, mesmo sem qualquer estudo, experiência na área e, principalmente, sem quaisquer dados, buscam provar que futebol feminino não dá audiência, não gera interesse do público e, portanto, não é um negócio viável.

Tudo isso para justificar que, não, a Marta não pode rejeitar ofertas de patrocínio esportivo em protesto por achar que merecia ganhar mais. Na cabeça dessas pessoas, é óbvio que já pagam o justo e que Marta não tem do que reclamar, pois “suas camisas vendem menos do que as do Biro Biro” (cheguei a ler isso).

O comentário esdrúxulo tem razão apenas em um aspecto. Assim como não é possível comprar camisas do Biro Biro, até pouco tempo atrás não era possível comprar uma camisa com o nome de Marta.

As fabricantes não faziam questão de fornecer, achavam irrelevante. Chegou ao ponto de, em 2015, a Nike ter lançado pela primeira vez uma camisa exclusiva para a seleção feminina e não tê-la colocado à venda.

Houve, à época, uma grande movimentação nas redes sociais reivindicando a possibilidade de comprar o uniforme das mulheres. A resposta da empresa era de que não fazia parte dos planos dela comercializar aquela camisa. Então, para começar, não é possível dizer que “ninguém compra a camisa da Marta” se as pessoas sequer tinham a possibilidade de fazê-lo.

Em 2019, as pessoas tiveram essa chance. Para a Copa do Mundo daquele ano, a Nike, de maneira inédita, lançou uniformes específicos para cada uma das seleções femininas patrocinadas por ela.

Pela primeira vez, a empresa não só criou camisas diferentes para as mulheres como também fez uma grande divulgação delas. Resultado? As vendas das linhas de seleções femininas da Nike aumentaram 150%. Em relação às vendas da última Copa do Mundo feminina, em 2015, a Nike registrou aumento de 200%, segundo dados da Women Experience Sports.

Para fechar, números que vão ajudar o pessoal que diz que “a Marta não gera lucro”. Em 2019, ela entrou em campo nos jogos da Copa do Mundo usando batom —um vermelho bem forte, inclusive, no dia em que ela fez seu 17º gol em mundiais e se tornou a maior artilheira da história das Copas (entre homens e mulheres). A Avon, patrocinadora da Marta e responsável pela ação, vendeu mais de um milhão de batons depois que a camisa 10 apareceu com ele.

Está na hora de parar de reproduzir clichês e discutir com argumentos. Ninguém aqui defende que deve-se igualar os ganhos de Marta aos de Neymar. Mas se o futebol feminino tem crescido exponencialmente nos últimos anos, isso se deve muito à contribuição dela e de outras mulheres que sempre lutaram por isso. Então é justo que ela lute por essa valorização.

Se as pessoas usassem o mesmo esforço que fazem para justificar uma lógica machista para subvertê-la, a gente viveria em outro mundo hoje.


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Fonte: Máquina do Esporte