Danilo supera desconfiança e se firma como líder ‘pacificador’ do Brasil | Placar



DOHA – “De Bicas para o mundo”, dizia a mensagem na camisa dos familiares de Danilo Luiz da Silva, o filho mais ilustre da cidade mineira de pouco mais de 13.000 habitantes. Entre uma selfie e outra nos arredores do estádio 974, antes da goleada sobre a Coreia do Sul, eles esbanjavam alegria e orgulho com o retorno do lateral à seleção brasileira na Copa do Mundo. Esta turma é quem faz brotar o alto astral do atleta que, aos 31 anos, se consolidou como um dos líderes mais respeitados do time que nesta sexta-feira, 9, encara a Croácia pelas quartas de final. As contestações de boa parte da torcida parecem ter ficado para trás tanto por suas atuações, sempre seguras, quanto por sua postura.

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Danilo foge do padrão dos boleiros, sobretudo pela clareza com que se porta, em campo e diante dos microfones. Lateral direito de origem formado no América Mineiro, ele atuará diante da Croácia novamente do lado esquerdo, para substituir os lesionados Alex Telles, já cortado, e Alex Sandro, em recuperação. Mas ai de quem falar em improvisação ou quebra de galho. Danilo é o atleta mais versátil da equipe, pode jogar nas duas alas e até de zagueiro, o que já tem feito na Juventus. “Jogar na direita, esquerda ou centro, para mim é algo natural e indiferente. Acho que nos próximos anos serei zagueiro, que é onde tenho desfrutado mais”, disse em entrevista coletiva na véspera. Tite, a seu lado, sorria orgulhoso. 

Parece óbvio e é: ninguém ergueria tantos troféus na carreira, por clubes do quilate de Santos, Porto, Real Madrid, Manchester City e Juventus se não tivesse imensas virtudes. Para Danilo, no entanto, não foi fácil ganhar o respaldo popular, sobretudo pelo fato de suas características mais defensivas destoarem das de históricos antecessores, como Cafu e Jorginho. O caminho para redenção está perto do fim — faltam três jogos para o tão sonhado hexa —, mas seja qual for o resultado, ele sente que o respeito, com o qual sempre contou internamente, já começa a ecoar nas arquibancadas.

“Eu entendia a cobrança, esse gosto do brasileiro por laterais extremamente ofensivos. Mas com o passar dos anos me adaptei ao futebol de diferentes maneiras, diferentes escolas e treinadores, e funcionou. Com seleção demorou um pouco mais, mas eu costumo falar sobre ‘inteligência cristalizada’, a capacidade de focar no que realmente importa no momento. Claro que é importante ter o reconhecimento e o afeto do torcedor, nós trabalhamos para isso. Mas durante a minha carreira tive que escolher entre focar nas críticas ou no meu desenvolvimento como jogador”, disse, com a sabedoria adquirida pela leitura de livros sobre psicologia esportiva. 

Um dos aspectos que mais diferencia Danilo de outras lideranças da equipe é a sua diplomacia. Enquanto Neymar e Thiago Silva, por exemplo, volta e meia alimentam polêmicas desnecessárias, se dizendo perseguidos por adversários e jornalistas, o lateral é um pacificador nato. Na Juventus, seu dom da conciliação foi fundamental durante a passagem de Cristiano Ronaldo, a quem já conhecia dos tempos de Real Madrid, pois ele era um dos poucos a quem o português escutava.

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Na última quinta, 8, Danilo foi surpreendido com a iniciativa do repórter Fernando Fernandes, da Band, que depois de fazer uma pergunta salientou que, ao contrário do que muitos jogadores pensam, atiçados por bajuladores, a imprensa brasileira não torce contra a seleção, pelo contrário, apenas faz seu trabalho, que pressupõe senso crítico. Danilo, então, ergueu a bandeira branca. “Acho importante o seu depoimento. É uma tecla que toco há algum tempo, mesmo sendo um dos que mais apanharam neste processo (risos). Deveria existir uma maior alquimia e união entre todas as partes que englobam a seleção, inclusive imprensa e torcida.”

Danilo já havia adotado um discurso de comunhão em um dos momentos mais difíceis do ciclo, a derrota na final da Copa América, diante da Argentina, no Maracanã. Em uma longa carta no Instagram, ele se disse contra a realização do torneio no Brasil em plena pandemia, cobrou capacitação tanto de jornalistas quanto de atletas e propôs uma reaproximação com os torcedores.

“Como atleta profissional, representante dessa classe, entendo que é necessário cada vez mais demonstrarmos aquilo que somos, ‘gente da gente‘ , encurtar as distâncias e assumir as responsabilidades, não só profissionais, mas também sociais, de nossa profissão. Estando tão expostos, nos resta sermos menos reativos, mais compreensivos e aliados de quem tanto nos prestigia, O POVO. É necessário termos clareza nos discursos dentro e fora de campo, assim fazendo dessa relação tríade (torcedor, imprensa e atletas) mais saudável e benéfica”, diz um dos trechos.

Um dos temas mais caros a Danilo é a questão da saúde mental dos atletas, um problema evidenciado cada vez mais por casos de burnout e depressão no esporte. No início deste ano, o jogador da Juventus criou um projeto chamado Voz Futura, no qual promove debates e passa mensagens de sobre diversidade, igualdade de gênero e diversas outras pautas sociais.

Danilo costuma usar a palavra “resiliência” e pratica aquilo que prega. Na última Copa, na Rússia, ele ficou de fora depois de sofrer uma lesão na estreia. No Catar, repetiu a dose ao machucar o tornozelo diante da Sérvia. Na ocasião, apesar da tristeza, ele chegou a brincar com os repórteres. “Fui inventar de ir ao ataque e acabei prendendo o pé”, disse, para depois garantir que voltaria. Ele está de volta e é peça cada vez mais importante na equipe, que encara a Croácia a partir das 12h (de Brasília), no Estádio Cidade da Educação.

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