Como ter a melhor experiência turística na Amazônia – 16/11/2023 – É Logo Ali


Na sua coluna Guia Negro, o colega Guilherme Soares Dias descreve a “pior experiência turística da vida”, que foi uma viagem, em setembro passado, ao estado do Amazonas. Avesso aos tradicionais programas turísticos voltados para incautos (como eu, por sinal), ele fez uma concessão ao, sem dúvida, imperdível encontro das águas, onde os rios Negro e Solimões se juntam seguindo com o nome de Amazonas, mas sem se misturarem no primeiro momento. É fascinante perceber que as temperaturas das águas são diferentes, assim como suas cores, que criam um lindo mosaico. O impacto das duas poderosas correntes (hoje bem comprometidas pela seca absurda da região) é um daqueles espetáculos para não se deixar de ver pelo menos uma vez na vida.

O que me chamou a atenção no texto de Guilherme, entretanto, foi sua bronca ao saber que o pacote contratado para visitar o encontro das águas incluía outros dois programas típicos da região: o nado com botos e a visita a uma aldeia indígena. E aí, como alguém que perdeu a conta de quantas vezes visitou a Amazônia, a trabalho ou a lazer, vou me permitir alertar a quem se abalar para o fascinante lado norte do país: não contrate pacotes em bloco. Em geral, inclui roubadas como as descritas pelo coleguinha e você vai sair com um gosto amargo de quem bancou o otário ou, pior, foi politicamente incorreto sem querer, pronto para ser cancelado nas redes.

Começando pelo nado com botos, vale fazer uma ressalva: normalmente, as agências credenciadas para essa atividade devem seguir uma norma que faz toda a diferença —o contato com turistas só pode ser realizado, no máximo, uns poucos dias na semana em cada área. Isso é estabelecido justamente para evitar que os animais, que de bobos não têm nada, se viciem no peixinho fácil fornecido pelos guias, em geral ribeirinhos que encontram na atividade uma valiosa fonte de renda, causa mais do que justa. É impressionante constatar que, embora nos demais dias, esses mamíferos tenham que se virar para buscar seu próprio alimento, eles identificam por instinto (ou, mais provavelmente, e os biólogos que me perdoem, pelo som dos barcos) os dias em que as excursões chegam a suas vizinhanças com grupos de incautos que podem tomar boas rabadas dos botos se abusarem da proximidade. Fica a dica de quem já levou uma dessas, hashtag não bobeia, porque dói.

Mas em um ponto preciso concordar 100% com seus comentários, Guilherme. É o raio da visita às aldeias indígenas, que na prática são galpões disfarçados de ocas, próximas aos lodges (nome pomposo e gringo dos hotéis de selva, espalhados por toda a região, com mais ou menos conforto a depender do bolso do hóspede) ou das beiras dos rios. Nessas “ocas” fake são recebidos os turistas, com arquibancadas instaladas para dar conforto às nádegas alienígenas, enquanto meia dúzia de indígenas dança, canta e arrasta os visitantes para o centro do espaço para um contato “mais autêntico” que é pura encenação.

Mais melancólicos do que essa falsa exibição da “verdadeira celebração indígena”, só os quiosques de “artesanatos” oferecidos ao final da apresentação, que incluem inacreditáveis filtros de sonhos, móbiles tradicionais dos povos nativos originários da América do Norte, que não se sabe como vieram parar em plena Amazônia.

Aqui me permito contar um causo vivido há muitos anos, quando participei de um encontro de mulheres jornalistas no hoje falido e depredado hotel Ariaú Towers, localizado no rio do mesmo nome, afluente do Negro, a 60 quilômetros de Manaus. Eram ainda os anos 1990, e para muitas ali era o primeiro contato com a floresta, o que deu ao grupo direito de fazer todos esses programas turistésimos, como a pesca de piranhas com pequenas iscas de carne crua (desse você escapou, né, Guilherme?). Em tempo: os peixinhos ariscos têm um talento ímpar para roubar sua carninha sem morder o anzol. Digamos que, de cada dez iscas que entram na água, no máximo uma vai resultar em um peixe para a sopa do jantar —com sorte.

Na noite do último dia do encontro, depois da frustrada pesca da piranha, fomos para a tal festa na aldeia, que nos foi vendida como sendo de uma tribo que não falava nossa língua, portanto não deveríamos tentar interagir com seus membros, como se isso fosse normal para um monte de jornalistas. Ao final da apresentação, entretanto, duas meninas, ainda paramentadas, correram a pedir autógrafos a uma coleguinha do grupo que, na época, apresentava o Fantástico.

“Sempre vemos seu programa em casa”, garantiu a mais nova em bom português, feliz com seu autógrafo e irritando o guia do convescote. Pano rápido. Sigamos.

Então, se o negócio é fugir das armadilhas deprimentes, o que esta viciada no mato amazônico aconselharia ao Guilherme numa próxima oportunidade? Puxando a brasa para o meu tambaqui, sugiro que contrate uma trilha de três ou quatro dias pela mata, com um guia local. Você vai andar de três a sete quilômetros por dia, nada muito exaustivo até para quem não tem prática de andar fora do fresquinho dos shopping centers; vai dormir numa rede e brigar com o mosquiteiro a noite inteira ao som dos assustadores rugidos dos bugios, os dragões da floresta; e vai aprender a fazer fogo para cozinhar o jantar mesmo debaixo de chuva, usando um pedaço de breu branco catado ali na árvore mais próxima. Depois do encontro das águas, essa será a mais perfeita experiência do que é a Amazônia. Vai por mim, Guilherme, dê mais uma chance a esse que eu, pelo menos, considero o mais fascinante e rico bioma de nosso Brasil.

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