
Psicóloga explica que momentos de decepção podem trazer sequelas se não tratados da maneira correta
Derrotada no último domingo na grande decisão da Copa do Mundo diante da Espanha, a Argentina tenta se reerguer após ter o sonho do bicampeonato mundial consecutivo interrompido. E agora, como ficam as mentes de Lionel Messi e dos companheiros após essa frustração? A psicóloga esportiva do Inter de Minas, Priscila Mendes, explica o que se passa na cabeça do ser humano após momentos como esse e revela quais cuidados se deve ter para evitar sequelas a longo prazo.
Passar por grandes decepções como essa marcam negativamente a carreira de qualquer jogador. Enquanto o brasileiro Bruno Guimarães, que desperdiçou um pênalti no revés contra a Noruega, definiu o confronto como a “pior dor de toda a sua vida”, o argentino Messi, em sua última Copa do Mundo, garante que perder a decisão é “uma ferida que vai demorar para cicatrizar”.
É fato que grande parte do grupo albiceleste esteve presente na conquista do Mundial de 2022 no Catar. No entanto, nove desses jogadores sonhavam em levantar pela primeira vez a tão sonhada taça de campeão de uma Copa do Mundo, entre eles o palmeirense Flaco Lopez. Para os brasileiros o incômodo é ainda maior: já são 24 anos sem conquista e, até à Copa de 2030, nada vai mudar.
“A frustração é uma resposta emocional natural que surge quando o caminho de um indivíduo em direção a um objetivo é bloqueado ou interrompido. No contexto esportivo de alto rendimento, essa emoção pode desencadear o que chamamos na psicologia de cadeia emocional negativa. Nesses casos, a frustração é profunda porque o objetivo não foi apenas adiado, ele foi completamente retirado das mãos do atleta no momento de maior proximidade. A dor emocional é agravada pela exposição pública: o atleta não sofre apenas a sua dor pessoal, mas lida com o escrutínio da mídia, das redes sociais e a sensação de ter ‘decepcionado’ familiares e torcedores”, analisa Priscila Mendes, psicóloga esportiva do Inter de Minas, clube que é parceiro oficial do Flamengo na formação atletas em Minas Gerais.
Com o fim do Mundial, o calendário do futebol retorna a sua programação normal. Enquanto no Brasil temos a retomada dos campeonatos que estão em andamento, na Europa, os clubes iniciam uma nova temporada. E o maior desafio para esses jogadores que saíram derrotados, e principalmente para os seus clubes, é o de saber como eles irão reagir a essa frustração na sequência do ano.
“O impacto de uma frustração severa no seguimento da carreira pode ser devastador se não houver um trabalho de ressignificação. Quando o atleta entra em um estado de desesperança, ele perde a motivação intrínseca, que é o combustível para suportar a rotina exaustiva de treinos, viagens e concentrações. Muitos jogadores, após um grande trauma esportivo, desenvolvem a ‘síndrome de burnout esportivo’ ou passam a atuar no modo de sobrevivência, jogando muito abaixo do seu potencial. Eles criam mecanismos de defesa inconscientes, evitando se entregar 100% aos novos projetos pelo medo paralisante de sofrer uma nova decepção daquela magnitude. A carreira pode entrar em um declínio técnico e físico, marcado por lesões recorrentes (muitas vezes de fundo psicossomático), trocas constantes de clubes e dificuldade de adaptação. A frustração crônica corrói a resiliência, fazendo com que o atleta desista diante de obstáculos menores que, no passado, ele superaria com facilidade”, garante a psicóloga.
O retorno de um atleta após uma derrota dolorosa como o vice-campeonato de uma Copa do Mundo ou de uma eliminação inesperada mexe profundamente com um vestiário de futebol. Por mais que o elenco tente manter a normalidade, o peso da frustração e do luto desportivo do companheiro cria um ambiente delicado.
Superar esse problema e retomar o mais alto nível de confiança não é fácil. No entanto, existem alguns fatores que podem contribuir na retomada desse estado de espírito. A psicóloga do Inter de Minas Priscila Mendes dá algumas dicas a esses atletas de como vencer essa frustração:
- Acolhimento e validação: O primeiro passo não é forçar o otimismo, mas validar a dor. O atleta precisa de um espaço seguro (longe das redes sociais e da imprensa) para expressar sua tristeza, raiva e decepção sem julgamentos.
- Distanciamento estratégico: Imediatamente após o trauma, é vital que o atleta dê um passo atrás. Uma pausa para estar com a família, reconectar-se com sua rede de apoio primária e afastar-se do ambiente do futebol ajuda a quebrar a cadeia emocional negativa.
- Ressignificação: Com o tempo, é importante que o atleta olhe para a situação não como o fim da linha, mas como parte de sua narrativa de vida. É preciso separar a identidade do indivíduo da sua performance ou status no futebol. Ele é mais do que um “jogador de Copa do Mundo”.
- Redefinição de metas (curto prazo): Não deve-se focar no próximo ciclo de quatro anos imediatamente. E sim estabelecer metas pequenas, diárias e alcançáveis no retorno ao clube. O foco volta para o processo: fazer um bom treino hoje, recuperar a alegria de tocar na bola e ajudar um companheiro mais jovem.
- Acompanhamento contínuo: A saúde mental deve ser tratada como a saúde física. O acompanhamento psicológico não deve ocorrer apenas na crise, mas fazer parte da rotina de manutenção do bem-estar do atleta, fornecendo ferramentas para lidar com a pressão, as críticas e as expectativas futuras.







