Como a Arábia Saudita ganhou a Copa do Mundo de 2034 – 07/11/2023 – Esporte


A escolha da Arábia Saudita como sede da Copa do Mundo de 2034, confirmada na última semana, é resultado de um vigoroso lobby, com a construção de relações como parte fundamental. Com a desistência da potencial rival Austrália, o reino do Golfo, rico em petróleo, emergiu como candidato único.

O país viu o seu caminho suavizado por um conjunto abrupto de mudanças no processo de licitação da Fifa (Federação Internacional de Futebol). Na prática, a entidade presidida por Gianni Infantino assegurou uma candidatura sem oposição.

Para os críticos, as medidas que ajudaram a abrir caminho para Riad representam um regresso aos velhos hábitos no órgão dirigente do futebol, com a transparência, a responsabilização e as preocupações éticas obliteradas por acordos de bastidores com interesses comerciais cruéis.

Com o regresso do torneio ao Golfo, as preocupações expressadas por grupos de direitos humanos que dominaram a preparação para Mundial do ano passado, no Qatar, também foram reavivadas.

Infantino, que neste ano foi eleito para um terceiro mandato como presidente da Fifa depois de ter concorrido sem oposição, cultiva laços com a Arábia Saudita há algum tempo —participando de eventos com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e até aparecendo em um vídeo de turismo saudita.

Sob Infantino, as receitas da Fifa dispararam, com previsão de aumento significativo nos próximos anos. A Copa do Mundo do Qatar gerou US$ 6,3 bilhões (R$ 30,66 bilhões, na cotação atual) para a organização, que tem mais de US$ 4 bilhões (R$ 19,47 bilhões) em reservas.

Como única candidata para 2034, a Arábia Saudita não enfrentará uma votação competitiva quando estiver sujeita à aprovação no congresso da Fifa no próximo ano.

As decisões que praticamente levaram a Arábia Saudita ao torneio de 2034 foram reveladas após uma videoconferência entre os 37 membros do Conselho da Fifa em 4 de outubro, presidida por Infantino. A pauta incluiu o item: “4.7: Processos licitatórios e sede da Copa do Mundo Fifa”.

Os participantes da teleconferência receberam documentos descrevendo os planos para 2030 e 2034 que foram elaborados na sede da Fifa, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

Pouco depois da convocação, a Fifa anunciou inesperadamente que a Copa do Mundo de 2030 havia sido concedida a uma candidatura conjunta e sem oposição de Espanha, Portugal e Marrocos, enquanto a América do Sul também sediaria três jogos para marcar o centenário da primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai.

Como resultado de o torneio de 2030 ter sido atribuído a seis países em três continentes, a Europa, África e América do Sul se juntaram imediatamente à América do Norte na lista de regiões incapazes de concorrer ao Mundial de 2034. Os Estados Unidos, o Canadá e o México serão os palcos da competição de 2026.

A Fifa revelou então um prazo de pouco mais de três semanas para as nações da Ásia e da Oceania apresentarem manifestações de interesse para 2034. Poucos minutos após o anúncio inesperado, a Arábia Saudita confirmou a sua intenção de concorrer, obtendo rapidamente o apoio de mais de 125 dos 211 membros da Fifa.

A Austrália, o único outro país que manifestara interesse em sediar o torneio de 48 seleções, foi pega de surpresa e confirmou sua decisão de não lançar um desafio antes do prazo final de 31 de outubro.

“Temos que ser realistas. A Arábia Saudita é uma aposta forte, eles têm muitos recursos”, disse James Johnson, presidente-executivo da Football Australia. “O governo deles está priorizando o investimento no futebol, e é difícil competir com isso.”

Victor Montagliani, vice-presidente da Fifa e chefe da Concacaf, a federação de futebol da América do Norte, da América Central e do Caribe, defendeu o processo de tomada de decisão, dizendo que era um reflexo de uma abordagem mais “estratégica” para gerenciar as principais receitas da organização.

“No mundo corporativo, não se pede aos acionistas que votem nessas decisões. É o conselho”, disse ele ao podcast Sports Unlocked.

O apoio generalizado ao plano de Riad é ligado à sua campanha frenética para expandir a sua presença no jogo. Dezenas de memorandos de entendimento foram assinados nos últimos meses entre a Federação Saudita de Futebol e os seus homólogos em todo o mundo, enquanto entidades do reino têm investido dinheiro em acordos de patrocínio.

Vários clubes da Saudi Pro League, cheios de dinheiro do fundo soberano do país, gastaram mais de US$ 900 milhões (R$ 4,38 bilhões) em novos jogadores durante o verão, segundo a auditoria Deloitte. Estrelas como Cristiano Ronaldo, Neymar e Karim Benzema agora jogam em clubes sauditas.

Um relatório divulgado pela Play the Game, uma iniciativa gerida pelo Instituto Dinamarquês de Estudos Desportivos, mostrou que os patrocinadores sauditas têm agora mais de 300 acordos desportivos, 84 dos quais no futebol. Em outubro, a entidade turística Visit Saudi fechou acordos comerciais com as confederações de futebol asiática e africana e com a espanhola LaLiga.

“Eles conseguiram mostrar à Fifa e ao seu presidente que a Arábia Saudita veio para ficar no futebol”, disse Stanis Elsborg, analista sênior da Play the Game. “Eles têm sido muito bons em trabalhar nos corredores do poder.”

Os críticos dizem que as mudanças no processo de candidatura à Copa do Mundo são um sinal de retrocesso nas reformas para melhorar a transparência e a responsabilização após o escândalo de corrupção da Fifa em 2015, que resultou na revisão de seu livro de regras, na destituição de sua liderança e na elevação de Infantino ao cargo mais alto.

A Fifa se defendeu: “Desde a conclusão das investigações sobre o regime anterior, o presidente Infantino transformou a Fifa de uma instituição tóxica em um órgão de governo respeitado, confiável e moderno”.

Infantino disse que todas as decisões relacionadas com o processo de licitação foram tomadas “por consenso” e após “ampla consulta”.

Miguel Maduro, ex-chefe de ética da Fifa, disse que, embora o órgão dirigente do futebol já tenha sido propenso à corrupção, o atual sistema de patrocínio depende, em vez disso, de métodos “legítimos” para usar dinheiro e favores para construir redes de poder e influência.

“Em vez de dar 20 mil dólares num envelope ao chefe de uma federação de futebol para comprar o seu voto, agora você pode patrocinar a atividade de uma liga ou a competição de futebol”, disse ele. “É legal e muito mais eficaz.”



Folha de S.Paulo