O Manchester City foi considerado culpado em 114 das 115 acusações apresentadas contra o clube pela Premier League por violações de suas regras financeiras, em uma decisão que deverá causar grande impacto no futebol europeu.
O clube, que pertence a um integrante da família governante de Abu Dhabi, foi acusado pela liga de violar regras entre 2009 e 2018. Em 2023, após uma investigação de quatro anos, o caso foi encaminhado a um painel independente.
O painel considerou o Manchester City culpado em 114 acusações, segundo pessoas a par do assunto. Uma delas acrescentou que a acusação que não foi comprovada era uma das mais graves.
A Premier League sustentou que o clube havia infringido as regras —por exemplo, ao inflar receitas de patrocínio e pagar alguns funcionários sem declarar os valores oficialmente— para contornar limites de gastos. A liga também acusou o clube de não cooperar com a investigação.
O Manchester City, que pertence desde 2008 ao xeique Mansour bin Zayed Al Nahyan, sempre alegou inocência e pretende recorrer, disseram as fontes.
A decisão pode aumentar ainda mais as tensões nas relações entre o Reino Unido e os Emirados Árabes Unidos, que se deterioraram nos últimos anos. Uma tentativa de aquisição do jornal Telegraph, apoiada pelo xeique Mansour, levou o governo a proibir que Estados estrangeiros sejam proprietários de jornais britânicos.
Abu Dhabi tem demonstrado especial frustração porque seus fundos soberanos são grandes investidores em empresas e infraestrutura no Reino Unido, com participações em ativos que vão de parques eólicos à empresa de telecomunicações Vodafone.
O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, disse que queria analisar o veredito da comissão independente após tomar conhecimento das reportagens sobre o caso.
Questionado sobre se o City deveria perder títulos conquistados anteriormente, Burnham disse ao ITV Granada Reports: “As pessoas não deveriam se precipitar e chegar a esse tipo de conclusão… Acho que todos nós precisaríamos examinar o relatório da comissão independente com bastante atenção”.
Nesta sexta-feira (25), o City declarou: “O processo da Premier League continua em andamento, com etapas importantes ainda a serem concluídas, e está sujeito a estrita confidencialidade”. A Premier League não quis comentar.
Embora alguns clubes tenham perdido pontos nos últimos anos por violar regras financeiras, a dimensão do caso do City não tem precedentes no futebol inglês.
Advogados especializados em direito esportivo disseram que as possíveis punições, caso as conclusões sejam mantidas, variam de multas pesadas e perda de pontos à expulsão da Premier League ou à obrigação de o clube indenizar outras equipes.
Eventuais recursos e contestações judiciais podem levar anos para serem resolvidos. O clube também poderá enfrentar novas ações judiciais movidas por equipes que deixaram de conquistar títulos ou receber premiações durante o período em que ocorreram as infrações.
“Esse resultado, se mantido, abrirá as comportas para novas contestações judiciais”, afirmou Paul Stothard, sócio do Norton Rose Fulbright. Ele acrescentou que “outros clubes podem decidir buscar indenização por perda de receita, por não terem conseguido se classificar para competições europeias ou por terem sido rebaixados”.
Desde que foi comprado por um integrante da família real de Abu Dhabi, em 2008, o Manchester City se transformou na força dominante do futebol inglês, conquistando oito vezes a Premier League, quatro vezes a Copa da Inglaterra e uma vez a Champions League.
Nesse período, o clube gastou mais de € 3 bilhões (R$ 17,8 bilhões) na contratação de jogadores, segundo estimativas do site de dados Transfermarkt, e recuperou cerca de € 1,5 bilhão (R$ 8,9 bilhões) com vendas. O déficit do City em transferências nesse intervalo é o maior do futebol.
Desde 2008, a controladora do clube investiu mais de £ 1 bilhão (R$ 6,9 bilhões) na área ao redor do Etihad Stadium, sua casa no leste de Manchester, construindo um novo centro de treinamento, edifícios residenciais e comerciais e uma arena para apresentações musicais. O veredito no caso da Premier League foi anunciado poucos dias antes da inauguração do novo hotel do Manchester City ao lado do estádio.
Em 2019, a controladora do clube, o City Football Group, que mantém investimentos em clubes da Europa, das Américas e da Ásia, vendeu uma participação à empresa norte-americana de private equity Silver Lake, em uma operação de US$ 500 milhões (R$ 2,6 bilhões) que avaliou o grupo em US$ 4,8 bilhões (R$ 25 bilhões).






