Ansiedade pré-competitiva ou como lidar com os dragões – 16/07/2021 – Katia Rubio

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É muito tênue a linha que separa um atleta profissional mediano de um atleta olímpico. Ouço de muitos experts a resposta de que a diferença está nos detalhes.

Na lista dos detalhes constam habilidades derivadas de um privilégio genético sobre o qual pouco ou nada se pode fazer. Entretanto, como dizia o inventor Thomas Edison, talento é 1% de inspiração e 99% de transpiração. Ou seja, muita gente com físico fora da média ficou pelo caminho por não se dedicar o suficiente a conseguir suas marcas.

Atletas olímpicos são, na sua maioria, pessoas obstinadas. São incansáveis na busca dos mínimos detalhes que levam à perfeição, lembrando que a marca humana é a incompletude e a imperfeição. Nem mesmo os deuses que inspiram a celebração olímpica eram perfeitos.

Na lista dos 99% de transpiração está a preparação física detalhada e prescrita na medida do corpo que a executa. Está também a busca pelo gesto técnico preciso, um detalhe pode surpreender os adversários e a si mesmo.

Em nada o corpo sugere uma máquina, ainda que precisa e delicada. O corpo guarda segredos e sutilezas que a ciência busca desvendar apesar de todos os avanços tecnológicos.

Há ainda um detalhe que encerra muitos mistérios. A preparação psicológica.

Durante longos anos atletas tiveram que conviver e superar suas emoções de forma intuitiva, até que o campo esportivo se tornou uma especialidade da psicologia. Lidar de forma sistemática e organizada com tudo aquilo que é representação mental, de si ou do meio em que se vive, não é tarefa fácil. Ainda mais em se tratando da tensão de um evento específico como é a competição esportiva.

É curioso observar como cada pessoa lida com as pressões que decorrem de toda a preparação para “o grande dia”. Ansiedade, apatia, medo e terror são algumas das reações possíveis. O único estado emocional a não pertencer a essa lista é a indiferença.

Recentemente ouvi de Ricardo Prado, medalha de prata na natação em 1984, sobre o sentimento de solidão que ele teve na entrada da piscina durante aquela final. Ele tinha apenas 19 anos e precisava lidar com o peso de ser campeão mundial e de defender seu título.

Joaquim Cruz, campeão olímpico em 1984 e vice em 1988, também falou exaustivamente sobre isso. Sensibilizada, escrevi um livro sobre as estratégias de preparação psicológica que ele utilizou em sua carreira. Nomeou a ansiedade e o stress que ele sentia de dragões.

Ele se sentia consumido por aquela energia que insistia em minar suas forças durante a fase anterior à competição. A tensão era tamanha que ele acabou desenvolvendo uma úlcera gástrica. Mas quem o via na pista correndo não tinha a menor ideia do que se passava com ele.

Para quem assiste apenas ao momento da competição não resta dúvidas sobre a capacidade divina daquelas mulheres e daqueles homens que estão ao vivo diante de nós, ainda que pela tela da televisão, do computador ou do telefone. Tudo ali parece sob controle. Porém é bom lembrar a humanidade que habita cada um daqueles seres que está diante de nós.

É importante lembrar que apenas três entre tantos atletas subirão ao pódio, ainda que todos tenham se preparado para chegar lá. Para quem tudo vê, do conforto de sua poltrona, parece fácil, quase natural. Não é! Todo resultado é fruto de muito esforço.

Portanto, cuidado ao usar suas redes sociais para se referir de forma ofensiva a qualquer atleta que, por fruto do acaso ou diante de um acidente de percurso, não obtiver o resultado esperado.


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Fonte: Máquina do Esporte