Adriano revela depressão após morte do pai: ‘Um buraco no tornozelo e outro na alma’

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O Imperador abriu o coração e contou a sua trajetória, relembrando a dificuldade em tornar-se um jogador profissional, passando pelos anos de glória na futebol italiano e na seleção brasileira e revelando o real motivo para deixar a Europa e o mundo da bola de maneira precoce

Reprodução/Instagram/@adrianoimperadorAdriano posando com a camisa do Flamengo

Adriano, ídolo da Inter de Milão e do Flamengo, abriu o coração e fez um emocionante relato ao “The Player’s Tribune”, em texto publicado nesta terça-feira, 11. O Imperador, como ficou conhecido nos tempos de Itália, contou a sua trajetória, relembrando a dificuldade em tornar-se um jogador profissional saindo de uma favela do Rio de Janeiro, passando pelos anos de glória na futebol italiano e na seleção brasileira e revelando o real motivo para deixar a Europa e o mundo da bola de maneira precoce. Tratado como um “talento desperdiçado” por muitos, o ex-atacante explicou que perdeu a vontade de atuar profissionalmente após a morte do pai e explicou que retornar à vida simples na capital fluminense fez bem à sua vida.

Revelado nas categorias de base do Flamengo, Adriano contou que por muito pouco não foi dispensado pelo clube aos 15 anos, durante uma seletiva. Ele, porém, continuou a sua formação do Rubro-Negro, ganhou espaço no elenco profissional e rapidamente foi negociado com a Inter de Milão, onde virou o “Imperador”. Na mesma época, o atacante colecionou convocações a para seleção logo e viu sua carreira dar um salto enorme em questão de pouco tempo. No texto, o ex-atleta admite que este período foi um dos melhores de sua vida, mas revela que todo mudou em questão de dias. Logo após a conquista da Copa América de 2004, onde foi herói ao marcar no “apagar das luzes” na final contra a Argentina, ele recebeu a notícia da morte do pai. “Nove dias depois. Eu estava de volta à Europa com a Inter. Recebi uma ligação de casa. Eles me disseram que meu pai havia morrido. Ataque cardíaco. Eu realmente não queria falar sobre isso, mas vou te dizer que, depois daquele dia, meu amor pelo futebol nunca mais foi o mesmo. Ele amava futebol, então eu amava futebol. Simples assim. Era meu destino. Quando joguei futebol, joguei pela minha família. Quando marquei, marquei para a minha família. Então, quando meu pai morreu, o futebol nunca mais foi o mesmo”, recordou.

“Eu estava do outro lado do oceano na Itália, longe da minha família, e não conseguia lidar com tudo aquilo. Fiquei tão deprimido, cara. Comecei a beber muito. Eu realmente não queria treinar. Não teve nada a ver com a Inter. Eu só queria ir pra casa. Para ser honesto com você, embora eu tenha marcado muitos gols na Série A ao longo desses anos, e embora os torcedores realmente me amem, minha alegria se foi. Foi meu pai, sabe? Eu não poderia simplesmente apertar um botão e me sentir eu mesmo novamente”, continuou Adriano, que deixou a Inter de Milão em 2008, voltou para o Brasil e acertou um contrato de empréstimo de seis meses com o São Paulo. No ano seguinte, ele fechou com o Flamengo, onde foi campeão brasileiro. Em 2011, o centroavante teve passagem discreta pelo Corinthians, onde também foi coroado com uma conquista do nacional. “Nem todas as lesões são físicas, entende? Quando rompi o tendão de Aquiles em 2011? Cara, eu sabia que ali estava tudo acabado pra mim, fisicamente. Você pode fazer uma cirurgia, reabilitar e tentar continuar, mas nunca mais será o mesmo. Minha explosão se foi. Meu equilíbrio se foi. Merda, eu ainda manco. Ainda tenho um buraco no tornozelo. Foi a mesma coisa quando meu pai morreu. Mas a cicatriz estava dentro de mim. ‘Cara, o que aconteceu com o Adriano?’ É muito simples. Tenho um buraco no tornozelo e outro na alma”, explicou Adriano.

“Sim, talvez eu tenha desistido de milhões. Mas quanto vale a sua paz de espírito? Quanto você pagaria para ter de volta a sua essência? A imprensa, às vezes, não entende que somos seres humanos. Era muita pressão ser O Imperador. Eu vim do nada. Eu era um garoto que só queria ir jogar futebol e curtir com os amigos. E eu sei que não é algo que você ouve de muitos jogadores hoje em dia, porque tudo é muito sério e há muito dinheiro envolvido. Mas estou apenas sendo honesto. Nunca deixei de ser aquele moleque da favela. A imprensa dizia que eu tinha ‘desaparecido’. Eles falavam que eu tinha voltado para a favela e estava me drogando, e mais um monte de m#[email protected] Publicavam fotos minhas dizendo que eu estava cercado por criminosos e que minha história era uma tragédia. Quando escuto uma coisa dessas, só rindo mesmo, porque eles não têm a mínima ideia do que acontece na minha vida. Eles não sabem como isso pode machucar uma pessoa. Na época, eu estava desolado com a morte do meu pai. Queria me sentir eu mesmo novamente. Eu não estava drogado. Isso nunca. Eu estava bebendo? Sim, claro. Merda, sim, eu estava. Saúde! Mas, se quiser testar – te juro por Deus –, você não vai encontrar droga nenhuma no meu sangue. O dia em que eu usar droga é o dia em que minha mãe e minha avó vão morrer. Bebida alcoólica? Ah, isso vai dar mesmo, bastante, até porque eu gosto de tomar um danone”, continuou.

Fora dos gramados desde 2016, quando teve rápida passagem pelo Miami United, dos Estados Unidos, Adriano encerra o texto dizendo que não sumiu nas favelas do Rio de Janeiro, mas que retornou para casa onde é acolhido. Ao longo de sua carreira, ele conquistou 18 títulos, entre eles o tricampeonato do Italiano com a Inter de Milão, a Copa América e a Copa das Confederações com a seleção brasileira e duas edições do Brasileirão com Flamengo e Corinthians. “Sempre tive muito orgulho de ser o Imperador. Mas sem Adriano, o Imperador não presta! “Adriano não usa coroa. Adriano é o menino da favela que foi tocado por Deus. Você entende agora? Você vê? Adriano não sumiu nas favelas. Ele apenas voltou pra casa.”





Fonte: Jovem Pan