A China na política olímpica – 22/07/2021 – Tatiana Prazeres

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Passa despercebido por muitos, mas a China participa da Olimpíada de Tóquio com três equipes diferentes. Além da delegação chinesa, há as equipes de Taipé Chinês e de Hong Kong.

O arranjo curioso é resultado de décadas de negociações diplomáticas, boicotes a Jogos Olímpicos e disputas políticas. O equilíbrio delicado remete tanto à história de colonialismo na China, quanto à guerra civil no país.

Na prática, trata-se do seguinte: na hipótese de um atleta de Hong Kong (ou “Hong Kong, China”, na designação oficial) ganhar uma medalha de ouro, executa-se o hino nacional da China, mas a bandeira que sobe é outra, a honconguesa.

Caso no topo do pódio esteja um atleta taiwanês (ou de “Taipé Chinês”, na denominação arduamente negociada), o hino executado é o do Comitê Olímpico Internacional. Entra em cena uma bandeira especial, que não é a que Taiwan considera como sua, mas traz referências locais.

A tal bandeira especial ganhou visibilidade –e gerou curiosidade– na Olimpíada de Atenas, em 2004, quando o taekwondo rendeu duas medalhas de ouro a Taipé Chinês. Além dos anéis olímpicos, a bandeira contém a imagem do sol branco sobre o céu azul, típica da China pré-comunista e usada até hoje em Taipé.

Ao mesmo tempo que reflete questões do passado, o arranjo evidencia desafios da China contemporânea.

Objeto de dominação colonial, Hong Kong foi devolvida pelos ingleses à China em 1997. A fórmula “um país, dois sistemas”, acordada no contexto da devolução, serve de base para que Hong Kong participe com delegação própria em Olimpíadas.

A situação de Hong Kong hoje, no entanto, constitui um dos principais irritantes nas relações externas da China. Vários países criticam Pequim pela adoção de uma lei de segurança nacional que teria comprometido a lógica dos “dois sistemas”.

A questão com Taipé Chinês, no entanto, é mais complicada. Com o fim da guerra civil em 1949, as forças nacionalistas em Taiwan e o regime comunista em Pequim disputaram por décadas quem seria o legítimo representante da China.

Para os jogos de 1952 em Helsinki, o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu convidar os dois lados. Em protesto, Taipé boicotou os jogos, enquanto Pequim aproveitou a oportunidade. Quando ambos receberam convite para os jogos de 1956 em Melbourne, foi a vez de Pequim protestar, levando a um boicote que durou até 1980.

Com o tempo, as circunstâncias favoreceram Pequim, que viu um número crescente de países reconhecerem sua autoridade. Foi nesse contexto que, em 1979, o COI definiu as regras prevendo, para ilha, a denominação de “Taipé Chinês”, além de bandeira especial e hino neutro.

Esse arranjo –aceitável mas desconfortável para ambos os lados– é simbólico do problema de fundo. Pequim defende a reunificação com a dita província rebelde, e Taipé não está interessada.

Autoridades chinesas assistem à abertura da Olimpíada de Tóquio nesta sexta (23) com a cabeça nos jogos de inverno de 2022 em Pequim. Se a pandemia já não fosse problema suficiente, o governo ainda precisa conter pressões por um boicote à sua Olimpíada. A situação em Hong Kong, aliás, é apresentada como um dos motivos.

Em resposta, Pequim tem dito que os Jogos Olímpicos não devem ser politizados. Mas a verdade é que a história das Olimpíadas é outra. Os jogos já estiveram associados ao nazismo, a atentados terroristas, à dinâmica da Guerra Fria e inclusive marcaram a ascensão da China como potência em 2008.

A própria história da participação da República Popular da China em Olimpíadas mostra que política e a competição esportiva sempre andam, correm e nadam juntas. Merece uma medalha quem conseguir separá-las.


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Fonte: Máquina do Esporte