Sexo gratuito da série ‘Hard’ faz valer infame slogan ‘não é pornô, é HBO’

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A marca HBO carrega consigo reputações. Uma delas, que o próprio canal pago gosta de enfatizar, é a TV de qualidade: “não é TV, é HBO” diz o pretensioso slogan em inglês “it’s not TV, it’s HBO”. Outra reputação paralela e, digamos, mais capciosa é aquela que satiriza o mesmo slogan: “não é pornô, é HBO”. Esse último recurso, para o bem e para o mal, é utilizado com desprendimento pelo braço brasileiro do canal americano — que frequentemente deita e rola com a fórmula.

É o caso da série Hard, nova aposta nacional da HBO, que estreou no domingo, 17, às 23h. Na trama, Sofia (Natália Lage) é uma dona de casa que fica viúva nos minutos iniciais do primeiro episódio. Recatada e do lar, a mulher de 40 e poucos anos descobre, então, que o marido era um produtor badalado da indústria pornô. Ainda no velório, ela recebe a notícia: a produtora, que até então desconhecia, está em seu nome.

Em um primeiro reconhecimento de campo da empresa, Sofia se desespera ao testemunhar cenas de masoquismo, dupla penetração, e uma quantidade obscena (ops) de gemidos por metro quadrado. Sua sogra (Denise Del Vecchio, deixando aqui os pudicos personagens bíblicos da Record de lado) trabalha na produtora e convence Sofia a mantê-la – até porque, se perder a empresa, a dondoca pode dar adeus à casa e ao cotidiano de classe média alta que tanto gosta. Começa então a jornada que vai do “que horror tudo isso” ao “talvez eu possa deixar meus preconceitos de lado”.

A julgar pelo primeiro episódio, Hard sofre de um dilema típico de canais com DNA tão patente: é mais do mesmo. As séries nacionais da HBO tornaram-se tão especializadas no mercado pornográfico que o desgaste era inevitável. O Negócio (2013-2018), o exemplar mais interessante da leva, mostrou a vida de garotas de programa de luxo. Magnífica 70 (2015-2018) explorou o mercado da pornochanchada brasileiro. A Vida Secreta dos Casais (2017-2019) acompanha uma trama confusa protagonizada por uma sexóloga. Em comum, todas ofereciam mais visual e nudez do que um roteiro com tutano.

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A protagonista de Hard, assim como as demais mulheres em destaque das séries citadas, deve se mostrar nos próximos capítulos como algo próximo de um baluarte da libertação sexual feminina. O público masculino, porém, é o alvo que vibra com essas produções. Fica aqui outra questão. Se a HBO lá fora tem insistido em renovar seu trato com as mulheres, o que se evidencia em programas como Big Little Lies e Insecure, vale a pena o Brasil continuar batendo na tecla do sexo disfarçado de feminismo? São dúvidas que o desenrolar de Hard pode responder – ou não, se os gemidos pelos cantos falarem mais alto que os diálogos.


Fonte: Jovem Pan