Mulheres fortes, submissas e rebeldes invadem telas do festival de Cannes | Pop & Arte

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Depois de usar atentados – em Oslo ou Paris – como pano de fundo para desenvolver suas ficções, o diretor norueguês Joachim Trier – parente distante de Lars von Trier – volta à seleção oficial de Cannes pela segunda vez com “Julia (em 12 capítulos) ”.

A princípio, a ideia de um filme escandinavo remete a provocações e confronto com limites. Mas neste longa, feminista e contemporâneo, é a observação e a delicadeza que dão o tom.

O fio condutor é uma mulher de 30 anos, vivendo em Oslo, em constante transição de carreira, relacionamentos e questionamentos sobre maternidade. Renate Reinsve incarna uma jovem aberta para o mundo, pronta para experimentar novas aventuras. Mas a vida também traz problemas familiares, doenças, perdas, fatores que contam para o amadurecimento da personagem.

“Desde que li o roteiro pela primeira vez, me senti muito próxima da personagem e fui tentando várias formas de interpretá-la”, explicou Reinsve durante a coletiva de imprensa em Cannes, na quarta-feira (8).

“Geralmente os filmes têm o amor como essência, a busca da pessoa certa. Mas acho que o tempo também tem um papel na vida da pessoa. No caso de Julia, há situações em que acontecem na hora errada, com a pessoa errada”, declarou o diretor Joachim Trier.

Na sessão paralela Cannes Classics, os cinéfilos ganharam um presente com “Tsuki wa noborinu” (a lua subiu ao céu, em tradução livre), de 1955, dirigido por Kinuyo Tanaka, considerada uma das maiores atrizes do cinema japonês.

Além de ter sido atriz fetiche de cineastas como Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Akira Kurosawa e Mikio Naruse, ela foi a segunda mulher a ir para trás das câmeras durante a fase de ouro do cinema japonês, nos anos 1950 – e concluiu seis longas. “Tsuki wa noborinu” foi restaurado a partir de uma antiga cópia. O resultado é impecável.

A trama lembra um filme de Ozu, em torno dos valores da família e da tradição. Mas a câmera de Tanaka não é tão estática. Talvez as imagens em movimento possam ter sido propositais para se distanciar do estilo de Ozu, que seria, a princípio, o diretor do longa, do qual ele é co-roteirista. Mas uma greve o impediu de trabalhar e ele abençoou a pupila com o projeto.

A discrição e retenção de sentimentos são a tônica da mulher japonesa daquela época, com total devoção ao pai ou ao marido. O patriarca é Chishu Ryu, outro grande ator dessa geração. Viúvo, ele vive com as três filhas, de personalidades diversas, mas sempre submissas. Tanaka faz uma ponta no filme, como uma das empregadas da casa. O lar japonês tradicional é o centro de gravidade dos pequenos romances que vão surgindo.

Uma retrospectiva do trabalho de Kinuyo Tanaka estava sendo preparado para o Festival de Locarno do ano passado, que acabou cancelado por causa da pandemia.

Religiosa lésbica do século 17

Diretor Paul Verhoeven, atriz Virginie Efira e roteirista David Birke no tapete vermelho de Cannes, antes da exibição de ‘Benedetta’ — Foto: Reuters/Reinhard Krause

Num outro extremo da figura feminina, o diretor holandês Paul Verhoeven apresenta a sua versão sobre Benedetta Carlini, uma religiosa do século 17, que viveu em Pescia, na Italia. A igreja abriu um processo contra Benedetta, no qual consta que ela teria tido um caso com uma outra freira.

A Itália do filme, mergulhada na peste, faz uma estranha referência ao mundo atual, afligido pela pandemia. Verhoeven não busca autenticidade a todo preço, a personagem principal, vivida por Virginie Efira, tem os cabelos oxigenados e maquiagem discreta, mas impecável. Alguns momentos dramáticos arrancam risos da plateia – a saber se essa era a intenção do diretor.

Bastidores continuam sexistas

Por trás das câmeras, no entanto, a história é um pouco diferente. Em 2018, embaladas pelo movimento #Metoo, mais de 80 mulheres de cinema subiram no tapete vermelho do festival para pedir mais equidade de gênero. Em 2021, dos 24 filmes selecionados, apenas quatro foram dirigidos por mulheres. A organização garante que a escolha foi feita por mérito, sem levar em conta raça, gênero ou nacionalidade.

Vale a pena lembrar que, em 73 edições do evento, apenas uma mulher recebeu a Palma de Ouro – Jane Campion, em 1993, por “O Piano”.

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Fonte: Pop & Arte