Marisa Monte fala de novo álbum: ‘Em momento de ‘negacionismo’, quis fazer o de ‘afirmacionismo” | Música

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A cantora contou como manteve de forma híbrida, na era do Zoom, sua conexão com parceiros como Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Nando Reis, Marcelo Camelo e outros. Ela também falou de posicionamento político e protestou contra sua fama de reclusa. Ouça abaixo no podcast G1 Ouviu.

“A minha comunicação com o público e a minha presença púbica se dá através da música. E é o que pra mim justifica que eu seja uma pessoa pública. Eu não seria uma pessoa pública se não fosse pela música.”

Leia abaixo entrevista completa com Marisa:

G1 – Você tinha se preparado, depois de tantos anos, pra gravar um álbum de inéditas e entrar no estúdio em maio do ano passado. E de repente veio a pandemia. Queria saber o que você pensou nessa hora: ‘pô, agora que eu vou gravar, começa a pandemia…’
Marisa Monte –
O sentimento foi muito mais no âmbito coletivo, porque não fui eu que parei. Parou todo mundo. Eram tantas questões pra gente repensar, os filhos na escola, as pessoas que trabalham com a gente, o escritório, se vai parar, se não vai. Nesse primeiro momento, eu não estava no meio do processo. Eu ia entrar em maio, e estávamos em março. Eu não tinha shows marcados, porque já tinha limpado minha agenda. Então, nesse ponto de vista até foi um impacto controlável, porque o que eu tive que fazer foi aguardar, como todo mundo, e avaliar.

Marisa Monte com Silva durante gravação do álbum “Portas” no estúdio Nas Nuvens — Foto: Victoria Oliveira/Divulgação

Quando chegou lá para outubro, novembro, a gente viu que tinha acabado uma primeira onda, já tinha teste, já tinha todos os protocolos, as máscaras, tudo o que a gente tinha que fazer pra diminuir consideravelmente o risco de contágio. Aí a gente conseguiu refazer o plano de produção, o método de produção todo, adaptar a essa nova realidade.

Era um disco que eu queria fazer com uma banda tocando ao vivo, com encontros. E os encontros se tornaram perigosos.

Então a gente teve que se cercar de todos os cuidados, reduzir a equipe, fazer com uma equipe bem pequenininha. Grava cinco dias seguidos, faz intervalo de 10, 15 dias pra ver se ficou tudo bem. E aí todo mundo muito comprometido, ninguém saia na rua, ninguém tinha contato com ninguém doente, um pelos outros, né?

A gente conseguiu gravar uma semana no Rio, daí a gente fez um intervalo até a segunda semana pra ver se tudo bem. Nesse intervalo, a gente resolveu arriscar uma gravação remota em Nova York. A gente montou a banda lá, e a gente aqui no Rio, em um Zoom.

Em música, tem um delay. Então a gente não consegue tocar simultaneamente. Mas eu gravava uma base com voz, violão e mandava pra eles. Eu podia assistir eles tocando e interagir com eles.

A partir disso, a gente perdeu totalmente a insegurança de gravações remotas e seguimos alternando no modelo híbrido de gravações presenciais no Rio com gravações remotas em Lisboa — com uma orquestra que o [Marcelo] Camelo fez –, em Madri, Barcelona, Nova York, Seattle, Los Angeles…

Nesse sentido, foi o disco com mais colaborações internacionais que eu fiz sem sair do Rio. E foi esse desafio de ser criativo com o próprio processo de produção, além da música, que [tornou possível] a gente lidar com as dificuldades do momento – com responsabilidade e com potência pra poder trabalhar.

G1 – Para esse disco, vocês ficaram cinco meses em produção. Normalmente, você produz um álbum em quanto tempo?
Marisa Monte –
Olha, depende de quantas músicas você grava. No meu caso, eram muitas. Porque como eu também não podia ir para a estrada e eu tinha muitas músicas prontas, eu falei: ‘vou aproveitar esse tempo que eu estou aqui em casa no Rio e vou gravando’. Normalmente, acho que uns três, quatro meses, isso aí, é um tempo razoável pra gravar.

G1 – Nesse período em que você ficou sem gravar inéditas, você provavelmente, imagino eu, ficou produzindo essas músicas que vieram agora para o álbum. Elas ficaram muito tempo na gaveta esperando esse lançamento?
Marisa Monte –
Algumas músicas, por exemplo, são interiores ao Tribalistas. Então músicas que eu tinha com outros parceiros foram ficando na gaveta. E quando cheguei agora, que terminou a turnê dos Tribalistas, comecei a me organizar. Eu entraria no estúdio e o disco ia sair ainda no ano passado. Obviamente não deu. Aí eu tinha um repertório acumulado.

Tem músicas, de, sei lá, seis anos atrás. De cinco anos atrás, de três, dois anos atrás, e músicas do ano passado. Até de dentro da pandemia. Mas era um repertório que foi acumulando e esperando. Músicas como “Pra Melhorar”, que fecha o álbum, com Seu Jorge, a gente fez seis anos, sete anos atrás.

Quando a gente faz uma obra, a gente não pode imaginar em que contexto ela vai encontrar o mundo quando for lançada. Ela parece uma música feita hoje em dia. Mas se você for pensar, ela faz sentido em qualquer momento da vida, porque é uma música que está falando: ‘olha, respira fundo e segue’. É uma música que tem uma ideia atemporal.

Como “Gentileza”, que eu lancei em 2000. Ela hoje faz sentido num mundo com a brutalidade que a gente está vendo, a violência, agressividade solta. Acho que as músicas dialogam com seus momentos e vão dialogar de maneiras diferentes com os momentos, desde quando elas foram feitas, os momentos que elas vêm ao mundo, e nos momentos que virão no futuro.

G1 – Uma dúvida que eu tinha era sobre quando algumas músicas foram escritas, porque tanto “Pra melhorar” quanto “Calma” parecem terem sido escritas na pandemia. “Pra melhorar” você já contou. E “Calma”, foi escrita na pandemia ou foi ressignificada?
Marisa Monte –
A “Calma” é engraçado. Calma é uma música sobre um relacionamento, uma música de amor. É sobre um casal, está muito bem contextualizado o que é o calma ali. O eu lírico está falando pro outro: “calma, vai dar tudo certo”. É uma pessoa muito positiva, muito assertiva, que tem muita esperança naquele relacionamento, com uma certeza que vai dar certo.

Aí nesse sentido, eu acho que muitas pessoas identificaram com esse momento porque é um momento que a gente quer ter essa esperança, a gente está precisando dessa esperança.

Quando ela caiu no mundo de hoje — a gente fez ela há três anos –, ela se relacionou de novo com o contemporâneo, com o cotidiano da gente. E aí ela sobrepõe essa mensagem subliminar de “respira fundo, calma, vai dar tudo certo”, ao momento que a gente está vivendo.

De uma forma geral, eu tenho muita esperança no futuro. Não baseada num desejo utópico, mas baseada numa análise histórica mesmo.

Eu acho que a evolução que a gente vive como civilização humana é mais lenta do que a gente gostaria. Ela não é sempre progressa, tem momentos de retração como o que a gente está vivendo, uma retração conservadora, uma retração de valores até. Mas acho que já vivemos em outros momentos e isso impulsiona novos avanços.

Eu dou graças a Deus de ser uma mulher de hoje, porque há cem anos, a vida da gente seria muito mais dura. Acho que está melhor para as mulheres, está melhor para todas as causas identitárias, acho que hoje a gente está evoluindo. Não é tão rápido quanto a gente gostaria, não é sempre um avanço constante, mas eu acho que a gente vai ser impulsionado de novo pra um momento de progresso comportamental, científico, de valores, de mais conscientização a partir desse momento difícil.

Se você olhar 50 anos, 100 anos, é um avanço notável o que a gente está vivendo. E isso não é uma construção de um governo. Isso é uma construção coletiva da sociedade. E depende muito mais da gente, de todos nós, do que exatamente das ações de um governo, que é claro, podem atrasar esse processo — e, no caso, eu acho que é o que a gente está vivendo –, mas não serão suficientes pra impedir novos avanços.

Sou uma pessoa esperançosa quanto ao futuro, acho que é uma construção que todos nós temos que estar sempre atentos. E eu tive que fazer um disco de afirmação de valores.

Num momento de negação, de negacionismo, eu quis fazer o de afirmacionismo. A gente já sabe o que a gente não quer. E o que a gente quer? A gente quer meio ambiente, quer a natureza, quer a educação, quer a arte, quer cultura, quer comunhão entre as pessoas, quer a coletividade harmônica. E isso tudo eu quis imprimir e passar para as pessoas através do disco.

G1 – Vou aproveitar que você falou sobre isso e fugir um pouquinho do disco. Hoje em dia muitos artistas estão sendo cobrados para se posicionar sobre temas políticos, temas mais polêmicos. Você considera como uma obrigação esse posicionamento?
Marisa Monte –
Com certeza. Mas assim, eu tenho 35 anos de carreira, já fiz tantas coisas. Já cantei, já fiz campanha de desarmamento, já fiz campanha pela paz, eu já cantei o ‘Gentileza’, fiz campanha para o casamento gay, show pelo meio ambiente, pelos direitos humanos, cantei em escola ocupada, assinei carta pro Biden, carta pro índio. Então acho que assim: qual a dúvida?

Cada um tem sua forma de expressar. Acho que é importante as pessoas se posicionarem, sim. Acho que me posiciono à minha maneira e acho que não deixo dúvidas sobre quais são meus valores, quais são os valores que eu acredito.

E assim, nem tudo precisa ser tão verbalizado, oralizado. Você pode dizer isso de outras maneiras e de uma forma poética, inclusive. É uma resistência poética e amorosa, que é uma grande forma de protesto dentro desse momento onde a gente vive sob ataque.

E eu vejo esse resultado no próprio público, no jeito que as pessoas [falam]: “ai, que delícia esse disco, isso me fez bem, eu estava precisando e nem sabia, minha vida hoje está melhor porque estou ouvindo nesse momento esse disco”.

Isso é importante, porque também existe a saúde emocional e espiritual, de a pessoa estar ali no dia a dia com um pouco de alento, um pouco de uma vivência existencial mais interessante do que só o cotidiano. A gente tem que ter esses escapes, essas portas, pra poder suportar o insuportável.

Marisa Monte grava álbum “Portas” no estúdio Nas Nuvens — Foto: Victoria Oliveira/Divulgação

G1 – Aproveitando que você falou sobre essa questão de saúde mental… Você tem uma, digamos, fama de ser uma artista mais reclusa…. nem sei como você carrega isso também, se é sua intenção ser mais reclusa, se você não se vê dessa maneira. Mas, sendo assim, pelo menos na vista das pessoas de fora, foi mais fácil lidar com a pandemia, com esse momento de reclusão, de ficar longe de todo, até mesmo dos palcos?
Marisa Monte –
Olha, eu nunca passei tanto tempo da minha vida profissional e adulta sem fazer um show, sem pegar um avião. O último avião que eu peguei foi em fevereiro de 2020. Então pra mim é um momento bem estranho, porque eu viajo muito, nunca paro de fazer show, tem sempre alguma coisa rolando. Foi um momento de uma reclusão, todo mundo em casa, mas tem um ganho também na vida com a família, de poder estar mais com eles.

Então o fato de ter ficado mais em casa, ter mais tempo pra estar em família, foi bom pra mim, também. Eu pude desfrutar do lado positivo disso tudo. Acho que é um momento difícil pra todo mundo, todo mundo teve que se reinventar na sua maneira de trabalhar, não sei se você está em home office, não sei se você tem filhos ou se seu filho vai abrir a porta daqui a pouco e falar com você alguma coisa, mas todo mundo teve que ir dando seu jeito, né?

É… [faz uma pausa] engraçado, né? E aí a pessoa que vive no palco viaja, ainda tem a fama de reclusa [risos]. Mas acho que porque realmente a minha comunicação com o público e a minha presença púbica se dá através da música. E é o que pra mim justifica que eu seja uma pessoa pública.

Eu não seria uma pessoa pública se não fosse pela música. E ela sempre esteve em primeiro plano na minha relação com o público. Eu estou aqui pra colocar a música num altar, sempre. Estou a serviço dela. E isso pra mim é muito claro. Ela é mais importante do que eu como pessoa.

Marisa Monte e Chico Brown durante gravação do álbum “Portas” no estúdio Nas Nuvens — Foto: Victoria Oliveira/Divulgação

G1 – Como nasceu essa parceria com Chico Brown [filho de Carlinhos Brown]. Surgiu a partir da parceria com Carlinhos? Como foi essa conexão?
Marisa Monte –
Bom, eu sou parceira do Carlinhos desde 1992. Lá se vão quase 30 anos. O Chiquinho é filho de Carlinhos e Helena [Buarque]. Então vi o Chiquinho nascer, vi bebê, 1 ano, 2 anos, 8 anos. Toda vez que eu ia a Bahia, ele estava um pouco maior e com um instrumento diferente. E nosso processo de criação, composição, é muito em casa. Então Chiquinho sempre viu como é nossa forma de compor, nossa troca, é uma coisa que é familiar para ele.

E Chiquinho, multi-instrumentista, ouvido absoluto, formado em produção musical, é um talento nato, muito bem lapidado, porque as referências dele são incríveis. Ele gosta muito de música, ouve todo tipo de música.

Depois passei por uma fase de encontrar o Chiquinho no Rio independente de Carlinhos, na casa de amigos, a gente ia visitar alguém e estava lá tocando junto. E comecei a ver que ele tinha muitas músicas dele, inéditas. Conheci toda a obra dele, as coisas que ele tinha. A partir disso, comecei a mostrar coisas pra ele e a gente começou a compor junto.

Então pra mim, é lindo, porque é uma pessoa que eu vi nascer e que estou viva para ver ele se tornar meu parceiro. É tão bonito essa coisa atemporal, essa sensação de: ‘caramba, olha a construção, olha o que a vida tem pra me oferecer, a essa altura’.

G1 – Aproveitando essa coisa geracional que você falou, quero saber o que você está ouvindo de novo, de artistas novos, de ritmos novos. O que você está trazendo aí pra sua bagagem?
Marisa Monte –
Eu tenho escutado bastante alguns artistas jovens que eu gosto, mais alternativos e que, inclusive foi onde eu ouvi um dos arranjadores que eu convidei pra gravar comigo, o Antonio Neves. Foi no disco da Ana Frango Elétrico, que é uma artista bem alternativa, compositora aqui do Rio.

Gosto também da Ava Rocha, acho que faz um trabalho interessante, ouvi bastante o disco dela. Gosto de Letrux, Baiana System… O disco da Malu Magalhães também está lindo.

Mas eu escuto também muito músicas de outras gerações. E tenho escutado muita música iraquiana, iraniana, umas cantoras bem diferentes que eu não entendo nem uma palavra, mas que eu adoro as melodias, os caminhos melódicos. As escalas são diferentes, então é uma coisa que me intriga.

Ouço também muita música clássica, muito Satie, Debussy, Chopin, os pianos… e os clássicos de sempre, sei lá, Moraes Moreira, Ângela Ro Ro… H.E.R. é uma cantora jovem que eu gosto internacional, americana, escuto coisas também. Não sei, fico pesquisando por aí e escutando as coisas que vão chegando a mim, outras eu procuro.

Marisa Monte canta versão exclusiva de

Marisa Monte canta versão exclusiva de ‘Calma’, de seu novo álbum



Fonte: Pop & Arte