‘Get Back’: guia ajuda a entender momentos e curiosidades do documentário dos Beatles | Música

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Por isso, o g1 faz uma lista de momentos e curiosidades sobre a produção. Nem todos os fatos abaixo podem ser vistos na tela, mas alguns ajudam a entender o contexto do que aconteceu com a banda naquele janeiro de 1969.

São os Beatles. São os clássicos que todo mundo conhece e adora. Mas “Get back” não é propriamente uma série fácil. Apesar de só três episódios, a duração de cada um tem, em média, duas horas e meia. Há muitas sequências contemplativas que podem não fazer sentido para os mais impacientes.

Porém, tudo é parte da experiência de imersão proposta por Peter Jackson, que coloca o espectador em companhia de alguns dos músicos mais importantes do século 20. Mais do que um documentário musical, “Get back” precisa ser visto como uma produção sobre pessoas e a relação entre elas, com toda a complexidade e as contradições que isso possa sugerir. Como o próprio Peter Jackson definiu:

“Não há vilões. Não há heróis. É só uma história humana.”

ENTREVISTA: Peter Jackson fala sobre desvendar segredos dos Beatles em ‘Get Back’

O prazo era apertado. A animosidade entre John, Paul, George e Ringo só crescia. E um monte de perguntas sem respostas assombrava todos os envolvidos no projeto. Só que boa parte desse clima também foi provocado por Michael Lindsay-Hogg, o diretor contratado para a empreitada. Hogg é invasivo, palpiteiro e fala demais.

Em um de seus vários monólogos, ele tenta convencer os Beatles a fazer o show final em um anfiteatro na cidade de Trípoli, na Líbia. “Teremos tochas acesas iluminando o palco”, repete ele muitas vezes. Ringo é o mais resistente. Não quer sair da Inglaterra. Até que George acaba de vez com as esperanças do diretor: “Só quero terminar o show e poder ir para casa.”

Em meados de 1968, John Lennon se tornou frequente usuário da droga. Mas o vício chegou a um patamar mais crítico no ano seguinte, exatamente no período retratado em “Get back”. Na série, é possível perceber alguns dos efeitos dessa dependência, principalmente nas sequências filmadas nos estúdios Twickenham: um Lennon letárgico, distraído e desinteressado.

Um dos momentos mais constrangedores de “Get back” é a aparição surpresa do ator Peter Sellers nos estúdios em Twickenham. Em 1969, Sellers já era um ator famoso — havia estrelado “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick (1964), e as comédias “Um tiro no escuro” (1964) e “Um convidado bem trapalhão” (1968), ambas de Blake Edwards. E estava escalado para o filme “Um beatle no Paraíso”, ao lado de Ringo Starr.

As filmagens começariam tão logo o projeto dos Beatles estivesse encerrado. Sellers, então, decide visitar os estúdios e dar um “alô” à banda. Mas deu azar. George havia abandonado os colegas e o projeto, e o clima estava péssimo. Sellers acabou recebido com frieza, ouviu meia dúzia de piadas grosseiras de John Lennon e deixou o estúdio bem rapidinho.

‘The Beatles: Get Back’: veja o trailer

Num dos trechos mais dramáticos de “Get back”, Paul e Ringo aguardam a chegada de John Lennon para começar os trabalhos de mais um dia. George havia abandonado o barco. E o longo atraso sugeria que Lennon fosse seguir pelo mesmo caminho. Num misto de desespero e tristeza, Paul murmura: “E, então, restaram dois.” Um longo take enche a tela com um close de Paul, que se esforça para evitar as lágrimas.

Essa é para aficionados por instrumentos musicais. A guitarra Gibson Les Paul vermelha, que George Harrison toca em vários trechos do documentário, foi um presente de Eric Clapton. Foi com ela que Clapton gravou o célebre solo de “While my guitar gently weeps”, uma das canções mais lembradas de Harrison nos Beatles. George apelidou o instrumento de “Lucy” por causa da atriz e comediante Lucille Ball, que tingia o cabelo de ruivo.

Em pelo menos duas ocasiões, John e George aproveitam a ausência de Paul para dividir ideias, sinal mais do que evidente de que as coisas estavam realmente caminhando para o fim. Numa delas, George revela que tem muito material acumulado, e que pensa em lançar um álbum solo.

Em outro momento, John se mostra encantado por Alan Klein, candidato a futuro empresário da banda. Paul era contra. Preferia Lee Eastman, nada menos do que o pai de Linda, sua namorada. Essa discordância acabaria sendo um dos motivos principais para o fim dos Beatles. E Klein, a fonte de inspiração para Paul McCartney compor “You never give me your money”, que faria parte do repertório de “Abbey Road”.

Os Beatles gravam em imagem de ‘Get Back’ — Foto: Divulgação

Muito se diz sobre a crise criativa que os Beatles atravessavam naquele período. Analisando mais de perto, o que se percebe é o contrário.

Em menos de um mês, compuseram simplesmente todas as músicas do álbum “Let it be” e metade do que seria o último disco da banda, “Abbey Road”.

Ainda se deram ao luxo de descartar outro tanto de canções que acabariam gravadas em seus primeiros trabalhos solo, como “All things must pass” (George); “Jealous guy” e “Gimme some truth” (John); e “Teddy boy” e “Another day” (Paul).

“Volte para o lugar de onde veio…”

Em 1968, o ex-ministro da Saúde Enoch Powell, do Partido Conservador no parlamento britânico, passou a promover o racismo e a xenofobia depois de uma série de discursos contra a onda de imigração que, segundo ele, ameaçava a Grã-Bretanha. A lábia do político conservador era tão boa que muita gente aderiu às ideias criminosas de Powell. Houve até quem fizesse campanha para que ele se tornasse primeiro-ministro.

A política imigratória britânica, então, passaria a ocupar o noticiário e a motivar manifestações populares de ambos os lados. “Get back” nasceu como uma canção de protesto contra os discursos de Powell. Mas Paul acabou deixando o impulso político de lado (o ativismo era mais a cara de Lennon, como ficaria provado nos anos seguintes).

Só o refrão irônico foi mantido: “Get back to where you once belonged…” (“Volte para o lugar de onde veio…”). Nota de pesar: nos anos 1970, David Bowie, Eric Clapton e Rod Stewart lamentavelmente se revelariam simpáticos aos discursos de Powell. Tal absurdo motivaria a criação do movimento Rock Against Racism.

‘Get Back’ — Foto: Disney+

A chegada de Billy Preston

A mudança de Twickenham para os estúdios da Apple foi fundamental para tornar o clima mais light entre os Beatles. A chegada do pianista Billy Preston também ajudou. E muito. Preston apareceu a convite de George Harrison e acabou se transformando no quinto beatle durante aquele período.

Diante do novo integrante, a banda passou a se comportar de uma maneira mais cordial, bem-humorada e colaborativa. John e Paul, principalmente, voltaram a se concentrar nas músicas e nos arranjos, que ganharam a valiosa colaboração dos teclados de Preston. “Get back” e “Don’t let me down”, só para citar dois exemplos, não seriam as mesmas sem o talento do músico americano.

Em determinado momento, já nos estúdios da Apple, Michael Lindsay-Hogg avisa a John Lennon que é preciso gravar uma introdução para a apresentação dos Rolling Stones em um especial de TV filmado no mês anterior. Trata-se do lendário “Rock and Roll Circus”, um programa que reuniu, além dos Stones, The Who, Jethro Tull e Taj Mahal, entre outros. Lennon canta e toca com Eric Clapton (guitarra), Keith Richards (baixo) e Mitch Mitchell (baterista de Jimi Hendrix). O grupo foi batizado de The Dirty Mac e durou apenas o tempo necessário para o registro das câmeras. Para muitos, a maior (e mais breve) banda de rock de todos os tempos.

A ‘inspiração’ do telhado

Letras, harmonias, melodias, truques em estúdio, capas de disco, clipes. Não se discute que os Beatles tiveram algumas das ideias mais inventivas da história da música pop. Mas fazer um show no topo de um edifício não está entre elas.

Isso porque, em novembro de 1968, o cineasta Jean-Luc Godard — um dos pioneiros da Nouvelle Vague (ou Nova Onda) francesa — já havia filmado a banda californiana Jefferson Airplane tocando sobre o telhado do Hotel Schuyler, em Nova York. A apresentação durou apenas sete minutos. Eles só conseguiram tocar uma música (“The house at Pooneil corners”) antes que a polícia chegasse e acabasse com a festa. Assim como aconteceu em Londres, ninguém foi preso.



Fonte: Pop & Arte