‘Frase de Keith Richards me revelou que sobreviveria’, diz brasileiro sobre atentado que vai a julgamento em Paris | Mundo

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Depois de levar um tiro no pulmão que por muito pouco não o deixou paraplégico e outro na perna que “estraçalhou” a tíbia, no restaurante Le Petit Cambodge, em Paris, um dos alvos da onda de atentados na capital da França em 13 de novembro de 2015, o arquiteto brasileiro Gabriel Sepe Camargo achou que iria morrer.

Deitado no asfalto, ele conta que pensou na avó e na mãe e depois se lembrou de uma frase do livro “Vida”, do guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards, sobre o corpo continuar a funcionar independentemente do que sua mente acha. Ele conta que foi aí que disse a si mesmo que iria sobreviver e se tranquilizou.

Quase seis anos após a tragédia que matou 130 pessoas e deixou centenas de feridos (nos atentados na casa de shows Bataclan, em bares e restaurantes da capital francesa e no Stade France), Sepe é uma das cerca de 1,8 mil partes interessadas (entre vítimas e parentes) no julgamento.

Com 20 acusados pelos ataques, o julgamento que começou nesta quarta-feira (8) é considerado “histórico” na França e deve durar cerca de nove meses (veja no vídeo abaixo).

França reforça segurança para julgamento dos acusados pelos atentados de Paris de 2015

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A inclusão de Sepe no processo foi feita de forma automática por um fundo de assistência às vítimas de atentados terroristas na França.

Na primeira entrevista à imprensa desde os atentados, o arquiteto disse à BBC News Brasil que não espera uma compensação individual nesse julgamento. Ele avalia que o processo judicial é importante para as pessoas que perderam familiares e amigos obterem um encerramento de todo esse período.

Para ele, o que está em jogo no julgamento é o “ato último” que leva uma pessoa envolvida em extremismos na internet a pegar armas e sair atirando. As investigações revelaram que autores dos ataques assistiam regularmente a vídeos do Estado Islâmico e integraram a organização, fazendo inclusive viagens à Síria.

Entre os 20 acusados, há o único sobrevivente dos grupos que atacaram diversos locais em Paris e o Stade de France: o franco-belga Salah Abdeslam, que abandonou seu cinturão de explosivos na periferia da capital e conseguiu fugir para Bruxelas, onde foi detido em 2016 e entregue às autoridades francesas.

Os demais são acusados de cumplicidade. Eles participaram da logística (esconderijos, transporte, armas, fabricação de bombas) ou do financiamento dos ataques. Seis deles serão julgados à revelia, sendo que cinco são tidos como mortos. As penas vão de seis anos de detenção à prisão perpétua, como no caso de Abdeslam e dez outros acusados.

Não há expectativa de que Abdeslam, que completará 32 anos na próxima semana, responda algo durante o julgamento. Nos últimos anos, ele tem se mantido calado sobre sua implicação nos atentados. Detido em 2016, ele é vigiado por câmeras 24 horas por dia para evitar um eventual suicídio.

“Falar seria uma concessão à sociedade que ele quer destruir”, avalia Sepe.

O fato de considerar que foi vítima de uma violência aleatória, em que ele não era um alvo premeditado, garante ao arquiteto paulista de 35 anos mais tranquilidade em relação ao drama.

Na época do atentado, aos 29 anos, ele tinha feito poucas viagens internacionais e estava apenas de passagem por Paris. Seu destino era Valência, na Espanha, onde apresentaria um projeto de arquitetura na Fundação Le Corbusier.

Sepe estava à mesa no Le Petit Cambodge — no 10° distrito de Paris, uma área popular e de imigrantes repleta de bares e restaurantes — com sete outras pessoas (seis brasileiros e um francês).

Ele conta que o que mais o impressionou foi descobrir a dimensão de seus ferimentos após as cirurgias na perna e para a retirada de um dos lóbulos do pulmão direito.

“Foi aí que entendi o que aconteceu e me emocionei. A enfermeira me levantou para cuidar do ferimento nas costas e vi um corte em diagonal sobre a coluna. Foi por pouco que não fiquei paraplégico.”

Flores e notas em frente ao café Carillon, na esquina das ruas Bichat e Alibert, onde pessoas foram mortas durante os ataques terroristas de 2015 em Paris — Foto: Thomas Samson/AFP

O arquiteto avalia que, em meio à tragédia, teve sucessivas “sortes”: o pulmão direito baleado tem três lóbulos, enquanto o esquerdo tem apenas dois, e a bala não pegou a coluna por uma curta distância.

Muito ferido, ele quase foi deixado de lado na triagem feita pelas equipes de socorro no local, que estavam dando prioridade para levar ao hospital as pessoas que tinham mais chances de sobreviver. “Um médico disse que tinham de me levar porque ainda dava [para salvar]”, diz Sepe, se baseando em relatos que ouviu de amigos presentes.

O arquiteto conta que entendeu imediatamente que se tratava de um atentado terrorista e não de um ato de violência urbana, como um assalto. “O grau de violência, o som das metralhadoras, não era algo normal”, afirma.

Ele ouviu os tiros, saiu correndo e caiu baleado, consciente. Ele teve a impressão de ficar ali 15 minutos, mas segundo pessoas presentes foram mais de 40. Ele se lembra de sua chegada ao hospital e até dos azulejos nas paredes.

O bar A la Bonne Biere, um dos alvos dos ataques terroristas de 2015 em Paris, durante sua reinauguração após 1 mês — Foto: Kenzo Tribouillard/AFP

Processo de recuperação

Sepe ficou 40 dias hospitalizado na França, sendo cerca de duas semanas em um serviço de pneumologia. Depois foi transferido para um asilo de idosos. “Foi uma experiência curiosa. Eu me senti como no filme Um Estranho no Ninho.”

Seu progressivo processo de recuperação levou um ano, o que acabou provocando uma interrupção temporária de suas atividades profissionais e acadêmicas. Na época, ele havia acabado de abrir seu próprio escritório de arquitetura e diz que fez questão de continuar morando sozinho, sendo monitorado pela família. “Estava independente e de repente regredi.”

Sepe afirma que não tem sequelas e que leva uma vida normal. Ele diz que não tem dificuldades para caminhar nem respirar, mas ressalta que às vezes sente cansaço.

O arquiteto diz ainda não ter visto a dimensão da violência do ataque que matou 12 pessoas no restaurante asiático, situado na área do Canal Saint-Martin, a poucos metros de um hospital. Apesar de saber que tinha sido baleado e estar consciente, sua percepção, atenuada com o passar do tempo, estava concentrada nele mesmo e não no que ocorria ao seu redor. “Não vi o que aconteceu depois dos tiros. Quem não ficou ferido viu cenas piores, pessoas sangrando, casais mortos”, afirma.

É o caso da brasileira Amanda Antunes, que também estava no Le Petit Cambodge – a única do grupo que reside em Paris. Na época recém-chegada à capital francesa, ela conta que durante um tempo viveu com medo de descobrir as coisas na cidade. Ela também afirma ter tido pesadelos durante meses.

“Parecia que eu estava em um filme de ficção. Nada fazia sentido. Não podia ser real. São cenas que nunca imaginamos”, conta, acrescentando que depois as situações de medo foram passando, apesar de alguns sobressaltos quando ouvia barulhos diferentes.

Amanda, que realiza cenografias de exposições, também é uma das partes interessadas no julgamento dos atentados que começa nesta quarta. Segundo ela, essa participação faz sentido por conta da dimensão coletiva do processo. “Nada consegue substituir o fato de ter vivido isso. Mas é uma maneira de dar voz às vítimas, de permitir que elas sejam ouvidas”.

Ela diz estar vivendo o início do julgamento de maneira distante. Mas como mora na França, ouve diariamente notícias a respeito, o que traz de volta algumas cenas e provoca emoções, que ela diz conseguir “filtrar”.

Diferentemente de Sepe, Amanda afirma não ter entendido na hora que se tratava de um ataque terrorista. “Achei que era um acerto de contas entre criminosos”, diz ela.

Isso não a impediu de reagir rapidamente aos disparos. “Derrubei a mesa, me joguei no chão e me arrastei para dentro do restaurante. Protegi minha cabeça com as mãos logo que começaram os disparos. Eu ouvia pessoas se perguntando o que estava acontecendo, mas eu já estava deitada”, relembra. Seu grande temor no momento era que os três atiradores entrassem no restaurante, o que não ocorreu.

Vários números tornam esse julgamento um dos maiores já realizados na França. Além das 1,8 mil partes interessadas (vítimas ou parentes de pessoas mortas) e seus mais de 300 advogados – cujos honorários são pagos pelo Estado francês em casos de terrorismo -, o dossiê com relatórios de investigações, testemunhos e perícias possui 542 volumes, totalizando cerca de 1 milhão de páginas.

O julgamento é considerado “histórico” também em razão da organização das audiências. Uma sala dentro do Tribunal de Justiça foi construída especialmente para a ocasião, com capacidade para 550 lugares. Ela custou 8 milhões de euros.

Um canal de radio pela internet, com sistema de segurança, foi criado para permitir às vítimas que não podem comparecer assistir aos debates à distância. A medida custou 250 mil euros.

A duração de nove meses do julgamento, que será integralmente filmado, também é considerada excepcional.

Ele ocorrerá sob forte esquema de segurança. Os acusados serão escoltados em furgões blindados com o apoio de um helicóptero. Eles não serão julgados por um júri popular, e sim por juízes.



Fonte: Pop & Arte