‘Bipolar’: Segredo do funk nº 1 do Brasil foi unir beat de TikTok e letra da ‘quebrada’ | Música

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A música mais tocada do Brasil por dois meses é um funk de São Paulo feito para parecer música que toca em BH. “Bipolar” nasceu da união improvável de um DJ ex-crente do Espírito Santo e um MC paulistano fã de Racionais, e foi feita em duas horas. Ouça abaixo o podcast G1 Ouviu, com o passo a passo da criação do hit.

O DJ 900 e O MC Davi são praticamente vizinhos, além de parceiros de empresa. Os dois estavam viajando no som do funk de Brasília e Belo Horizonte, que eles “não sabem explicar com palavras”, mas souberam transformar em fenômeno digital:

“Eu falei pro Davi: você já viu aquelas músicas de BH que estão estourando muito? Lá não tinha um artista gigante nacionalmente, e eu pensei: imagina se a gente fizer um no ritmo de lá? Em São Paulo, o ritmo é um 120, 130 mais trabalhado. O funk de BH mistura um monte de beat pra fazer um beat só, fica aquele pontinho na cabeça”, explica 900.

No estúdio do Batidão Stronda, eles tinham ouvido “Vai no chão, doidona”, do brasiliense Vittin PV, e curtiram a música.

Os beats já estavam produzidos e gravados pelo 900 em um estúdio improvisado e apertado na zona norte – o dele está em reforma. Com três garrafas de cachaça na cabeça, ele gravou as bases de guitarra e teclado de “Bipolar”.

“O beat é feito numa guitarra. No início da música, tem tipo um pianinho. De instrumento tem isso e tem um assovio também no meio só. . E as vozes eu vou gravando. A gente faz tudo na hora, pega o microfone, grita pah, grita tum e eu vou tratando até parecer um beat”, explica.

A música feita por 2 virou de 4 por causa do modelo de produção do funk paulistano: os MCs moram perto um do outro e estão sempre na empresa. É fácil dar de cara com a gravação um do outro. Foi assim que Don Juan entrou na parada: “Três dias depois da música pronta, estávamos no estúdio gravando, o Don Juan abriu a porta e falou: ‘eu quero entrar nessa música também'”, conta 900.

MCs Davi, Don Juan e Pedrinho cantam a música ‘Bipolar’ — Foto: Divulgação

Já a entrada de Pedrinho foi um pedido do dono da empresa. “Temos a coletividade de chamar um o outro, porque aqui a gente um dia está ajudando um e no outro a gente pode ser ajudado. O Pedrinho, que tem um nome muito forte, muito bom, a gente queria vê-lo no funk de novo. E como ele estava voltando para a nossa empresa, foi o momento que o Rodrigo falou: pô, tem um música aí? E eu falei da ‘Bipolar'”, conta Davi.

Quem não briga com o mozão?

A letra de Mc Davi é uma mistura de “gratiluz” e “sem tempo, irmão”. No dia que compôs, estava brigado com a esposa. Faz parte do método de criação.

Quando ouviu o beat do 900, abaixou a cabeça e começou a escrever. Levantou com a letra praticamente pronta 20 minutos depois. Juntos, eles trabalharam mais 40 minutos na melodia e gravaram os gritos.

“Eu sou casado, né. E todo casamento tem briga. Então gosto de ir para o estúdio quando estou tretado. O 900 me permitiu acender meu narguilezinho, a gente deixa a luz bem baixa, entra naquele clima, numa situação de tristeza, sofrimento. E aí ficou mais fácil pra fazer a ‘Bipolar'”, conta Davi.

Já o combustível do 900 é o álcool. “Eu estava muito bêbado, bebo muito para fazer música. O Davi estava com o narga dele e eu estava com a minha cachaça, então sai rápido.”

Música de boy e de quebrada

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Para Davi, o segredo de “Bipolar” foi ouvir e entender a quebrada e, ainda assim, ter um beat mais “limpo” para agradar “playboy”.

Assim, beat e letra andaram em caminhos opostos. O 900 compôs a melodia pensando no Tiktok, capaz de transformar lançamento em hit no meio da pandemia.

“Eu já maldei o tiktok desde o início, já tinha falado para o Davi. Se você olhar os vídeos do Davi da época, quando dei o primeiro play na música pronta, eu já estava em pé dançando e fazendo TikTok da música Eu já tinha maldado isso no beat, era só pegar um pontinho, uma guitarrinha fazendo. Aí eu falei, Davi, quando entrar o refrão, canta o baixinho e você oitava a voz, vai dar mais peso na música.”

Já Davi fez a letra pensando na comunidade. Ele diz que os caminhos para vencer por lá são falar de superação, corres do dia a dia e “putaria”. A ostentação ficou para trás porque “ninguém anda de jatinho da quebrada”.

Foi pensando na quebrada que ele enfiou o tênis 12 molas na letra, “muito popular na comunidade” e perfeito para a métrica do refrão. Segundo ele, mirar no público de origem é uma boa estratégia.

“Tem funk que agrada o pessoal que tem dinheiro e tem funk que agrada só a comunidade. O que é mais nítido é você ver funk de comunidade agradando boyzão do que funk de boyzão agradando a comunidade. E a gente sempre vai mirar nosso público da comunidade que foi quem sempre nos recebeu e deu força. E, automaticamente, os boys vão ter que escutar, querendo ou não.”

A letra é chiclete, é sucesso, mas causou polêmica. Nas redes sociais, até hoje tem comentário falando que a letra pode soar ofensiva e machista. Eles não concordam muito com as críticas.

“É a arte. Tem mulher que ainda manda no meu direct ‘essa música é engraçada’, ‘aconteceu comigo e com meu marido’. Manda foto com o marido dando risada [e diz] ‘nossa, a gente briga direto, mas a gente se ama'”, diz Davi.

900 diz que não se trata do transtorno de bipolaridade. “Na música, é um marido falando pra mulher que ela rasga a roupa dele e depois quer beijar, xinga e depois fala que ama. É essa a bipolaridade, não de doença, no caso.”

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Fonte: Pop & Arte