‘Benedetta’, com história real de freira, discute poder da fé de forma ousada; g1 já viu | Cinema

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Sexo e violência sempre foram fortes na filmografia de Paul Verhoeven, cineasta que se tornou popular com “RoboCop”, “O Vingador do Futuro”, “Instinto Selvagem” e “Showgirls”.

Em “Benedetta”, o diretor holandês de 83 anos adiciona outro item à sua já explosiva mistura: a religião. O resultado, nos cinemas a partir desta quinta-feira (13), impressiona pelo impacto e pela reflexão sobre os limites da fé.

Ambientada no século 17, a trama mostra a trajetória de Benedetta Carlini, enviada para o Convento de Madre de Deus, em Pescia, na Itália, ainda criança (Elena Plonka), pela família após pagar um dote à Madre Superiora Felicita (Charlotte Rampling, de “Operação Red Sparrow”).

Assista ao trailer do filme "Benedetta"

Assista ao trailer do filme “Benedetta”

Já adulta, Benedetta (Virginie Efira, de “Elle”), passa a ter visões de Jesus a defendendo de ataques de homens que desejam matá-la. Ela acredita que Jesus deseja que a freira se torne a sua esposa.

A situação se torna mais complexa quando conhece a noviça Bartolomea (Daphné Patakia), que se torna sua companheira de quarto, para cuidar dela por causa de surtos que tem por causa de suas visões. Antes relutante, Benedetta acaba se afeiçoando por Bartolomea e as duas passam a viver um romance proibido no convento.

Só que, à medida que se envolve com Bartolomea, Benedetta começa a apresentar marcas no corpo que diz ter sido feitas por Jesus.

Os acontecimentos chegam aos ouvidos do núncio Alfonso Giglioli (Lambert Wilson, de “Matrix Ressurections”). Junto de Felicita, ele quer descobrir se a freira está falando a verdade ou é uma fraude.

Lambert Wilson interpreta o núncio Alfonso Giglioli em “Benedetta” — Foto: Divulgação

O mais curioso em “Benedetta” é saber que sua protagonista existiu. O roteiro, assinado por Verhoeven e David Birke (que também assinou “Elle”, filme anterior do diretor) se baseia no livro “Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy”, da historiadora inglesa Judith C. Brown (lançado no Brasil como “Atos Impuros”).

A obra trata não só das questões envolvendo a trajetória da polêmica freira, mas procura traçar um panorama do período em que ela viveu.

Com “Benedetta”, Verhoeven volta a mostrar um cenário desolador numa Itália pobre e decadente, com seus habitantes sofrendo de pobreza, fome e da peste. De certa forma, havia feito isso em seu filme de 1985, “Conquista Sangrenta”, ambientado no período medieval, não poupando o espectador com cenas graficamente fortes, com sangue e sujeira.

Virginie Efira numa cena de “Benedetta”, de Paul Verhoeven — Foto: Divulgação

Em “Benedetta”, o diretor enfatiza a interferência da religião na vida das pessoas e como religiosos negociavam favores com membros mais afortunados e deixavam de lado os que menos tinham poder aquisitivo. Um exemplo disso é a cena em que a madre superiora negocia o dote para aceitar Benedetta no convento, deixando claro que a vocação religiosa era o menor dos requisitos para o clero.

Assim, diversos atos questionáveis dos personagens são impulsionados por desejos nada católicos, como a ganância, a inveja e a luxúria. Ao mesmo tempo, aqueles que buscavam a verdade acabaram sendo punidos.

Numa das cenas mais impactantes do filme, uma freira é obrigada a se autoflagelar na frente das outras irmãs por questionar algo que poderia não ser um desejo divino. Momentos como esse, por mais chocantes que sejam, mostram que o filme não quer apenas escandalizar. Ele quer levar o público a ponderar sobre o que é permitido em nome da fé e o que não é.

Charlotte Rampling e Virginie Efira numa cena de “Benedetta” — Foto: Divulgação

Além de criticar a hipocrisia dos religiosos do século 15, Verhoeven trabalha a ambiguidade de sua protagonista. Ele mostra que Benedetta, embora devota a Deus, tem uma personalidade contraditória, que vai aflorando à medida que se envolve cada vez mais com Bartolomea.

Ela cria intrigas para derrubar qualquer obstáculo para viver seu romance, mesmo que sejam suas colegas do convento, assim como garantir sua ascensão graças às marcas que diz serem feitas por Jesus.

O diretor conta com uma ótima performance de Virginie Efira, que transmite muito bem a dissimulação da personagem-título. A atriz mostra um bom trabalho corporal para enfatizar tanto os momentos de fraqueza (nos momentos que delira por Jesus) quanto nos de força.

Virginie Efira e Daphné Patakia numa cena de “Benedetta” — Foto: Divulgação

Um bom exemplo disso é quando Benedetta precisa provar que Deus fala por ela e como ela usa isso para se favorecer, seja no convento ou mesmo com a população, que passa a ver como uma santa.

Além de Efira, vale destacar a boa atuação de Charlotte Rampling como a cética madre superiora, que se vê numa situação fora de seu controle e precisa lidar com as consequências dos atos de sua freira sedenta por poder. Daphné Patakia mostra boa química com a protagonista, tanto nas cenas eróticas quanto nas dramáticas.

“Benedetta” pode causar um desconforto para o espectador mais impressionável, principalmente diante de cenas mais fortes, com muito sexo, nudez e tortura, como em outros filmes de Paul Verhoeven.

Quem conseguir ver além disso, estará diante de um filme corajoso, como os outros trabalhos mais marcantes desse diretor que não para de polemizar. E não para de fazer ótimos filmes.

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Fonte: Pop & Arte