‘Baile de favela’ de Rebeca Andrade: coreógrafo diz que escolha do funk é ‘chance de mostrar ao mundo nossa cultura’ | Música

0
43


“Baile de Favela”, de MC João, é um hit de cinco anos atrás, mas voltou a chamar atenção com a apresentação de Rebeca Andrade nas Olimpíadas de Tóquio.

A ginasta de Guarulhos conquistou prata na quinta (29) no individual geral, e ouro neste domingo (1º) no salto. Foi a primeira medalha do time feminino em Jogos Olímpicos.

Quem colocou o funk na apresentação de Rebeca foi o coreógrafo da seleção brasileira, Rhony Ferreira, após ouvir a música no intervalo das Olimpíadas da Rio 2016.

O especialista em solo e trave está na seleção brasileira desde os anos 2000, sendo responsável por coreografias marcantes, como o “Brasileirinho”, de Daiane dos Santos.

“Quando faço coreografias para Olimpíadas e Pan-americanos, penso que ali é a grande chance que a gente tem de mostrar para o mundo inteiro a nossa cultura, porque todos os olhos estarão voltados para nós”.

“Esse funk retrata uma realidade brasileira porque, às vezes, o baile na favela é o refúgio ou o cantinho que o brasileiro tem para se divertir, para sorrir, pra esquecer as mágoas, os problemas, é uma festa”, explica Ferreira.

Foi justamente com a ideia de fazer um retrato do funk que MC João escreveu a música em 2015. Em entrevista à GloboNews, o cantor disse “fez sua parte”, mas que a atleta eternizou sua criação. Assista:

"Eu fiz minha parte no funk, mas ela me eternizou", diz MC João sobre Rebeca e o Baile de Favela

“Eu fiz minha parte no funk, mas ela me eternizou”, diz MC João sobre Rebeca e o Baile de Favela

  • A faixa exalta os principais bailes de rua da periferia de São Paulo na época: Helipa, Marconi, Eliza Maria, Rua Sete e São Rafael são todos nomes de fluxos de “quebrada” famosos.
  • Ela foi o grande hit do réveillon no Brasil de 2015 para 2016. Era uma época em que o funk se expandia e ganhava cada vez mais público.
  • O sucesso mudou a vida de MC João. Ele cresceu na periferia da Zona Norte de SP, na Jova Rural, comunidade próxima à de Rebeca Andrade, Vila Fátima, em Guarulhos. João perdeu o pai e sustentava a família desde os 17 anos.
  • O clipe, gravado em um baile na Rua Sete, na porta da casa onde ele cresceu, foi um marco no estilo. ‘Na época a gente pensava: será que alguma música algum dia vai superar “Baile de Favela”? Tinha sido a primeira a dar 100 milhões de views’, contou o diretor Kondzilla ao G1. Hoje ela tem mais de 230 milhões de views.
  • Por outro lado, muita gente ouviu na letra um incentivo à violência contra a mulher, no verso “vai voltar com a x… ardendo”. O MC negava com veemência. “No funk digo que ‘ela veio quente’. A gente está no clima, ela quer”, disse, defendendo o consentimento da personagem da letra.
  • No começo de 2021, MC João abriu seu próprio escritório de funk. Ele diz que não ganhou nada pelo clipe, mas não ‘esbanjou’ o que conseguiu na carreira. Agora, vira seu próprio empresário e incentiva MCs a se valorizarem. Conheça história da música aqui.

Rebeca Andrade conquista inédita prata na ginástica artística — Foto: Dylan Martinez/Reuters

No caso de Rebeca, a letra foi suprimida e só aparece a melodia do meio para o final, o suficiente para animar as poucas pessoas que assistem à competição presencialmente no Japão.

A abertura imponente é feita com “Tocata e Fuga”, do alemão Johann Sebastian Bach. A mistura do clássico com contemporâneo foi outra escolha de Ferreira, que precisava criar momentos diferentes na coreografia de um minuto e meio.

“Teria que ser uma coisa mais sóbria para que desse a virada e se transformasse na festa que é o ‘Baile de Favela’. Então o começo é bem sério, clássico”.

MC João, autor de ‘Baile de Favela’, comemorou a prata de Rebeca Andrade nas Olimpíadas de Tóquio — Foto: Dylan Martinez/Reuters; Reprodução/Instagram/MCJoão

Meta é conquistar os árbitros

A coreografia da Rio 2016 de Rebeca era um remix de “Single Ladies”, da Beyoncé, e levantou o público da arena.

Mas, a principal meta do coreógrafo, claro, é conquistar quem avalia apresentação e usar grandes sucessos é um trunfo que funciona na modalidade.

Rebeca Andrade durante etapa classificatória no solo nas Olimpíadas de Tóquio — Foto: REUTERS/Lindsey Wasson

“Criar empatia com os árbitros é muito importante, porque eles também são seres humanos e são de diferentes nações”.

Ele se gaba que ao misturar o funk com a música clássica consegue criar identificação tanto com os mais novos, quanto com os mais experientes na avaliação.

E também destaca que a interpretação de Rebeca é fundamental para o bom desempenho.

“O conjunto da obra que fica interessante: respeitar as regras e exigências, fazer a galera subir de emoção, fazendo a parte acrobática e sair com a cara blasé, como se não tivesse feito nada”.

Para chegar na versão final foram três meses de ajustes da faixa produzida pelo maestro Misa Junior e a produtora Angela Molteni, antigos parceiros nas trilhas da seleção.

Como um solo de ginástica é montado?

Rhony Ferreira e Rebeca Andrade nos treinos antes das Olimpíadas de Tóquio — Foto: Reprodução/Instagram/RhonyFerreira

Ferreira faz todos os solos da ginástica brasileira e acompanha de perto a evolução das atletas. Ele enumerou o processo para criar uma coreografia:

1) Acompanhamento do estilo e personalidade de cada ginasta

“Escolho a música de acordo com a personalidade e a idade da menina. Uma música muito adulta para uma menina do infantil ou juvenil não fica bacana. Venho acompanhando e sinto no dia a dia como é a personalidade delas, se é tímida, extrovertida, se ela é rápida, se ela é lenta. Tudo isso tem que ser levado em consideração”.

2) Ritmo tem que ser factível para atleta

“Não adianta eu escolher uma música super legal, um chorinho por exemplo, mas ele é muito rápido. A música é linda, mas pode não funcionar para uma ginástica que tem uma reação lenta, não é tão rápida. Você tem que adaptar tudo isso ao corpo da menina”.

3) Música tem que favorecer coreografia

“Tenho que fazer um arranjo facilite a vida da ginasta. A música precisa de momentos rápidos, mas depois lentos para que ela recupere. Se ela dança muito rápido, se faz uma dança muito difícil, quando for fazer o duplo mortal, já está cansada e não consegue”.

4) Ajustes são feitos depois dos treinos

Por conta da pandemia, boa parte da preparação foi feita via Zoom, com os treinadores de cada clube das atletas mandando vídeos para o coreógrafo.

“Eles me falam em que momento é preciso mais tempo para respirar ou quando a menina está chegando antes. A partir disso, vou ajustando com os arranjos”.

As trocas com os treinadores da seleção Francisco Porath e Iryna Ilyashenko também são constantes.

Os treinadores Iryna Ilyashenko,, Rhony Ferreira e Francisco Porath com a seleção brasileira de ginástica no Pan-Americano do Rio neste ano — Foto: Reprodução/Instagram/Rhony Ferreira

“A vantagem de trabalhar com o Misa e a Angela [produtores da trilha] é falar exatamente o que preciso em determinado momento. Vou cantando e o maestro cria o som, alguma coisa para encaixar na coreografia.

“Ao contrário do que se pensa, faço a música para vestir os movimentos. Normalmente o coreógrafo pega uma música e adapta, mas aqui não, a música que foi adaptada”.

Rebeca Andrade mostra medalha de prata em Tóquio, em 29 de julho de 2021 — Foto: Martin Bureau / AFP

Depois das duas medalhas inéditas, a expectativa para o desempenho de Rebeca Andrade no solo fica ainda maior.

O coreógrafo diz, empolgado, que fez até promessa por conta das Olimpíadas e que as chances são reais.

“Ela tem que estar com a cabeça no lugar, tem que curtir um pouquinho, mas voltar com o pézinho no chão. A gente só ganha se acertar tudo, se cravar“, finaliza Ferreira.



Fonte: Pop & Arte