Um semestre de volta às aulas em meio à covid-19 – Notícias

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Mesmo em uma escola considerada exemplo na rede pública de São Paulo, com equipe dedicada e protocolos sanitários bem feitos, pouco mais de 10% dos estudantes voltaram ao presencial este semestre. Alguns sumiram. Outros acreditam que o ensino está contemplado ao fazer lições online. Ou se veem sem opção. A reabertura, especialmente no Brasil, é um debate que começou quando se mandaram as primeiras crianças para casa em março de 2020 e ainda não tem data para terminar. Para mostrar desafios, temores e alegrias da tentativa de volta da educação no País, o Estadão acompanhou pelos primeiros seis meses do ano uma escola estadual no extremo leste da capital paulista.


Do diretor que luta de todas as formas para não perder nenhum aluno à estudante que voltou e depois se fechou em casa. A Escola Estadual Eliza Rachel Macedo de Souza, no Lajeado, perto de Guaianases, é uma amostra real da gangorra que se tornou o processo de reabertura. E também das consequências devastadoras que a escola fechada pode trazer na aprendizagem de crianças e adolescentes no País.





No fim do semestre letivo, a equipe do diretor da Eliza Rachel, Aldo Florentino Alves, de 64 anos, se debruçava em listas e arquivos de computador para checar quais alunos estavam entregando as atividades online. Cobrava quem não havia feito nada, avisava os pais, procurava nas redes sociais os sumidos. Aldo se orgulha em dizer que 85% fizeram todas as lições, mas sabe que a porcentagem alta esconde problemas. “Estou muito assustado com a queda que a educação vai ter”, diz. E conta das provas online em que estudantes da escola tiraram nota 2. “Isso não acontecia antes.”


A Eliza Rachel tem 2,5 mil alunos do fundamental 2 (6.º ao 9.º ano), ensino médio, técnico e educação de jovens e adultos. Fincada na comunidade pobre de Vila Chabilândia, tem concorrência por vaga pela fama que alcançou com boas notas. O desempenho dos alunos do ensino médio no último Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, avaliação do Ministério da Educação) foi 5,1, bem maior que a média do Estado. O alagoano Aldo, que vive em São Paulo há quatro décadas, mas mantém o forte sotaque, está no cargo há 17 anos. Pesquisas mostram como uma boa gestão pode fazer a diferença até na aprendizagem das crianças.


Em outubro de 2020, Aldo chegou a ir de porta em porta para avisar as famílias que a escola estava aberta novamente. Falou com os pais, chamou os alunos de volta. Quando o ano letivo retornou presencialmente em 2021, organizou as turmas em grupos menores, escalonados em horários, para que todos pudessem frequentar as aulas mais dias. Reformou o espaço, construiu mais áreas abertas. “Para o aluno da periferia que tem o problema da violência doméstica, das drogas nas esquinas, se a escola não for o espaço de sustentação, onde é orientado por um grupo que tem experiência maior, que conduz para um caminho melhor… daqui a dez anos estaremos vivendo um caos”, acredita. “Sou a favor da escola aberta por causa disso, apesar de todos os medos e riscos que corro também.”


No dia em que a reportagem do Estadão visitou a escola, no fim de maio, ele encontrou pelo Facebook um aluno que não aparecia há tempos nem fazia as atividades online. O diretor conseguiu descobrir que o menino tinha mudado de celular, mas logo já estava com o número novo. “Vem para cá agora”, pediu por mensagem de áudio. João Paulo Nunes da Costa, de 19 anos, apareceu em menos de uma hora. Disse que Aldo era “um pai” para ele, mas que não estava mais conseguindo estudar porque trabalhava o dia todo, como pintor. Com o celular novo, contou, perdeu a senha que usava no Centro de Mídias, a plataforma criada pelo governo estadual para ensino online durante a pandemia. Segundo o Estado, 85% dos alunos se cadastraram na ferramenta, que tem grandes aulas, divididas por disciplinas e séries. Alunos e professores se comunicam por chat. Muitas escolas criaram ao longo da pandemia formas de os estudantes falarem com quem efetivamente dá aulas a eles, como grupos de WhatsApp. Mas aulas online ao vivo com o professor da turma, como é comum nas particulares, são mais raras.





Problemas tecnológicos resolvidos, Aldo pediu que João tentasse voltar ao presencial, quando saísse do trabalho, à noite. “Acho mais fácil fazer o online, posso fazer a qualquer hora, até de madrugada”, diz. Ele conta ainda que nem sempre assiste às aulas do Centro de Mídias e “pesquisa as respostas das lições na internet”.


O vice-diretor da Eliza Rachel, Julio César Rodrigues, também procurava outra aluna sumida no mesmo dia. Ligou, mas os telefones — dela e da mãe — não atenderam. Mandou então uma mensagem de texto, perguntando por que ela não havia feito as atividades online. A menina, de 14 anos, disse que tinha de cuidar da casa e da irmã mais nova. E avisou: “Não vou voltar este ano para a escola”. Ao ser questionada sobre o motivo, afirmou que tinha “medo de ficar sozinha na sala de aula”.


Rodrigues explicou que ninguém fica sozinho nas salas e que, se fosse necessário, juntariam turmas. A menina prometeu voltar em agosto. Mas, de fato, as salas da Eliza Rachel não encheram neste primeiro semestre. Entre três e dez alunos por sala apareciam com frequência, mesmo com toda equipe de professores à disposição no presencial e protocolos bem feitos. “Existem vários estudantes que estão acomodados nesse processo, dizem que está legal. ‘Sigo aqui, faço os meus deveres de casa, concluo esse processo e saio ao final com algum diploma'”, diz o superintendente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques.


Estudos feitos pelo próprio Instituto Unibanco com o Insper já mostraram que, mesmo com ensino online em 2020, os estudantes aprenderam cerca de 25% do esperado. Organizações internacionais falam em “catástrofe geracional”. O Brasil é um dos países que mais tempo ficou com escolas fechadas. Segundo a Unesco, foram 267 dias até a primeira reabertura. “Os bons alunos estão entre o desencanto e o desespero. Eles olham para esse processo e indagam: ‘O que vai acontecer comigo’?”, afirma Henriques.


Bilhetinhos na parede. Acsa Espinassi é uma adolescente de 17 anos que divide a parede do quarto entre um banner comemorativo de seus 15 anos e bilhetinhos para ela mesma sobre o que precisa estudar mais. O nome bíblico precisa ser soletrado com frequência. Adora História, tanto a disciplina quanto a dos romances e suspenses. Mas teve de deixar de emprestar livros na biblioteca pública do bairro. Depois de passar quase um ano em casa, Acsa finalmente resolveu voltar à Eliza Rachel em fevereiro, para o 3.º ano do ensino médio. “Eu achava que 2021 seria um ano muito bom, o ano da vacina, que tudo ia acontecer normalmente, eu ia me preparar para o Enem”, conta. Acsa tinha saudade de poder perguntar uma dúvida diretamente para o professor, das amigas, da escola que a “animava até quando chegava meio triste”.


A esperança de Acsa era compartilhada por muitos. No começo do ano, a rede particular tinha até fila de espera para o presencial. Mas durou pouco mais de um mês. Os reflexos dos encontros de ano-novo e carnaval apareceram. O Estado de São Paulo registrou o maior número de mortes por dia por covid – mais de mil – e as UTIs ficaram com mais de 90% das vagas ocupadas. O governo decretou então uma nova fase, a emergencial, e as escolas foram recomendadas a só abrir para quem precisasse de internet ou de merenda. A rede particular fechou totalmente. A estadual adiantou o recesso de julho. “Agora só volto com meus pais e meus avós vacinados”, diz Acsa.


Quando a menina decidiu isso, São Paulo ainda vacinava pessoas com mais de 60 anos. Os pais de Acsa têm 40 e 37 anos. A boa notícia, no entanto, foi que os professores com mais de 47 anos seriam imunizados em abril. Aldo e os docentes da Eliza Rachel foram vacinados na própria escola.


Mesmo assim, Aldo passou a se sentir inseguro. Com a escola fechada, oito professores se contaminaram, e um foi internado. “Não estou a favor da volta da escola, estou assustado.” Morador também da zona leste, região com alta concentração de casos de covid, o diretor viu muita gente doente. “Eu estou com muito medo de que a gente, mesmo com todos os protocolos de segurança, possa novamente abrir a escola e possamos estar todos em segurança”, disse à época.


Mas na semana seguinte, considerando o decreto que diz que a educação em São Paulo é essencial e poderia abrir em qualquer fase da pandemia, se autorizou a volta. Aldo e outros diretores, de escolas públicas e particulares, foram pegos de surpresa. Mas voltaram. Os alunos, não. “No primeiro grupo da manhã entraram 12 alunos. No segundo, 8; no período da tarde, 19”, contabilizou Aldo. Um mês depois, os números aumentaram um pouco, mas não chegaram aos 35% de ocupação permitidos pelo governo. Em todo o semestre, Aldo diz que cerca de 300 dos 2,5 mil alunos (12%) apareceram presencialmente. No Estado, segundo números oficiais, 1,8 milhão dos 3,4 milhões de alunos da rede retornaram.



Dramas de uma geração



“Eu pergunto por que se desmotivaram e não estão frequentando as aulas no presencial. A maioria sempre me responde que, se tem a opção de fazer remotamente, prefere”, conta o professor Andersson dos Santos Bispo, de 34 anos.


Com a pandemia, ele teve de recriar em versão online suas aulas de Educação Física e de Projeto de Vida, disciplina nova do currículo, que ajuda a planejar o futuro do estudante. Bispo dá opções para os jovens estudarem como ser, por exemplo, “um craque do amanhã”. A Eliza Rachel é conhecida também pelo grande incentivo aos esportes. A sala do diretor é forrada de troféus. Mas a quadra está vazia, esperando uma reforma e os alunos voltarem.


Acsa queria ter se inscrito no campeonato de pingue pongue no ano passado. Além de perder o esporte, ela estima aprender no máximo 45% do que deveria no ensino online. Agora, não tem mais esperanças também de tirar uma boa nota no Enem e de conseguir uma vaga no curso de Direito. O chip de celular para que a menina não precise pagar por dados para estudar pela internet foi dado pelo governo apenas este ano.


Educadores agora tentam achar soluções para a geração covid, crianças e jovens de 4 a 17 anos que perderam, até agora, um ano e meio de escola. “É uma situação de muita perversão, porque nós já tínhamos desafios históricos gigantescos de qualidade de educação”, diz Ricardo Henriques. Avaliações feitas pelo próprio Estado em 2021 já mostram que os alunos do 5.º ano regrediram praticamente ao que sabiam no 3.º ano do fundamental.


Daniel de Bonis, da Fundação Lemann, diz que só se saberá o verdadeiro impacto na aprendizagem das crianças quando elas voltarem em massa ao presencial. Ele e Henriques consideram o segundo semestre de 2021 crucial para isso. “Não há razão para não se ter criado as condições para isso, para que a gente já tenha as escolas em condição de funcionar presencialmente”, diz. Para o diretor da Lemann, é “cruel e injusto” carimbar os alunos que estão na escola hoje de geração perdida. “A gente tem de cuidar, apostar e investir. Mas vai ser um processo, sim, de reconstrução, que vai depender de um esforço grande da sociedade, para controlar a pandemia, recuperar a aprendizagem, o crescimento econômico e o emprego para que as famílias tenham condição de se sustentar.”


“A crise é tamanha, os alicerces estão tão abalados que a gente tem uma oportunidade de revisar os valores sobre educação”, diz Henriques. Ele lembra que as famílias perceberam o quanto é difícil educar uma criança. Mas é preciso fazer muitas mudanças: de conectividade, de formação de professores, da forma de ensinar – e ainda olhar para a desigualdade. “A ausência do Ministério da Educação (no debate e nas ações) aumentou o custo dessas perdas. Mas se não fizermos nada, vamos voltar lá para trás”, completa. O ministério não se pronunciou.






Fonte: Fonte: R7