‘Quanto mais querem extirpar Paulo Freire da sociedade, mais inserido ele fica nela’, diz viúva do patrono da educação brasileira | Pernambuco

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É assim que a doutora em educação, viúva do pedagogo pernambucano que é uma referência mundial sobre educação, analisa os ataques de que Paulo Freire tem sido alvo no próprio país onde nasceu e do qual é patrono da educação.

Apesar de Paulo Freire ter esse título desde 2012, uma iniciativa popular que contou com 20 mil assinaturas, em 2017, e um projeto de lei de 2019, de autoria do deputado Carlos Jordy (PSL-RJ), tentaram transferir a condição de patrono da educação brasileira para José de Anchieta, padre jesuíta canonizado pelo papa Francisco em 2014.

“Isso não passaria despercebido do mundo, não passaria. Seria reclamado no mundo todo. Como seria possível tirar o título de patrono de um homem, num país de analfabetos, se a luta dele foi, a vida inteira, contra o analfabetismo, entre outras coisas?”, questionou Nita Freire, lembrando, ainda, que Paulo Freire é o brasileiro com mais títulos de Doutor Honoris Causa no mundo: são 50, ao todo.

Método de Paulo Freire alfabetizou pessoas a partir da conscientização crítica da realidade — Foto: Acervo/TV Globo

Criticada pelo governo Bolsonaro, que atribui a ela o baixo desempenho escolar do Brasil em avaliações da qualidade da educação nacional, a metodologia freireana de alfabetização prioriza as necessidades práticas de cada grupo que participa do aprendizado. É uma teoria pedagógica ligada ao dia a dia das pessoas e que vai além do objetivo de ensinar a ler e escrever, buscando possibilitar uma conscientização crítica dos alunos sobre a realidade e a sociedade.

A primeira turma teve 380 alunos de Angicos, localizada na região central do Rio Grande do Norte, dos quais 300 se formaram. Após ter sido coordenador o Programa Nacional de Alfabetização, no governo de João Goulart, que buscava erradicar do Brasil o analfabetismo através do método freireano, Paulo Freire foi considerado subversivo pela ditadura militar.

Com o golpe de 1964, foi exilado do Brasil, para onde retornou apenas 16 anos depois, período em que morou no Chile, na Bolívia e na Suíça. Desde essa época em que foi obrigado a sair do país, ele passou a ser alvo de uma campanha de desinformação, segundo o historiador Dimas Brasileiro, pesquisador de 38 anos que integra a Cátedra Paulo Freire, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Paulo Freire é patrono da educação brasileira desde 2012 — Foto: Acervo/TV Globo

“Nos anos 60, já começa essa coisa do Paulo Freire subversivo, do Paulo Freire comunista. Quando o prendem, a terminologia muda, e ele passa a ser o prisioneiro, altamente perigoso, o criminoso, que está respondendo a inquéritos policiais, o réu, e isso continuou muito forte até 68, que é quando Paulo Freire vai ganhar um grande prestígio internacional, com a publicação do livro ‘Pedagogia do Oprimido’. O período que vai de 68 a 75 é o de maior censura da ditadura militar aos meios de comunicação no Brasil. Então, o nome de Paulo Freire se torna proibido, ele desaparece dos jornais”, explicou.

No final dos anos 70 e nos anos 80, com a redemocratização, Paulo Freire voltou a ser celebrado dentro de um contexto da reabertura do Brasil, de refundação do sistema educacional brasileiro e do próprio estado democrático brasileiro, da Constituição cidadã, de acordo com Dimas. No entanto, em 2013, isso mudou e Paulo Freire voltou a ser atacado, conforme explicou o especialista.

“De 2013 para cá, a gente vai ter um processo global de recrudescimento de uma direita conservadora, e, dentro desse contexto, surge, pela primeira vez, uma faixa que chocou o mundo, com a frase ‘Chega de doutrinação marxista! Basta de Paulo Freire!’, numa dessas manifestações conservadoras. E começou a circular, não pelos meios de comunicação tradicionais, mas pelas redes sociais, uma nova campanha de desinformação, muito a partir de memes, de notícias falsas, de afirmações absurdas. Essa nova onda vem muito desse anonimato nas redes sociais”, afirmou Dimas.

Faixa em protesto contra a então presidente Dilma Rousseff, em março de 2013, atacava Paulo Freire — Foto: Acervo/G1

Para o professor Moisés Santana, que é pró-reitor de Cultura, Extensão e Cidadania da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e foi aluno de Paulo Freire no doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o problema não é criticar o pensador e a pedagogia freireana, e sim atacar ambos com base em clichês e fake news.

“Demonizar Paulo Freire é uma coisa tão absurda que não dá nem para conceber por que demonizar uma obra tão aberta, tão rica, tão reconhecida e tão importante no campo do pensamento pedagógico. Ele é considerado um dos grandes pensadores do século 20 da educação. Não existe dizer que o pensamento de Paulo Freire é uma doutrinação marxista porque ele era antidogmático, antidoutrinação. Ao criar clichês e frases de efeito, você manipula e distorce muita coisa”, disse Moisés.

Muitos dos ataques a Paulo Freire estão inseridos no contexto da Escola sem Partido, projeto com o objetivo de proibir professores de manifestarem posicionamento político, ideológico e de gênero em sala de aula, informou o pró-reitor.

“A escola tem uma dimensão política, ela não é neutra. Paulo Freire dizia isso e talvez isso incomode alguns. A pedagogia dele busca compreender os processos criticamente, e isso incomoda determinados setores. Pensar com autonomia incomoda: às vezes, na família, quando o filho começa a se posicionar de forma crítica sobre alguma orientação do pai ou da mãe; em algumas instituições religiosas, quando você tem autonomia e problematiza alguma coisa; e numa sociedade mais fechada, num viés mais autoritário de pensar a sociedade, o elemento da crítica incomoda, mas deve fazer parte da experimentação formativa do sujeito”, declarou Moisés.

Para o francês Oussama Naouar, que vive no Brasil desde 2010 e é pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o que mais incomoda nos ataques e nas desinformações sobre Paulo Freire é que eles vêm de pessoas que não leram nenhuma obra do pernambucano.

“Muitas pessoas que criticam Paulo Freire nunca o leram e isso que é incrível, não tomaram tempo de sentar e ler uma obra dele. Essa diabolização em torno da figura de Paulo Freire é um grande equívoco. Na história das ideias pedagógicas, ele representa a figura hoje mais importante, a mais central, e também em termos de valores, a mais necessária durante a configuração da realidade brasileira. Não se educa na neutralidade. E é muito ingênuo pensar que a escola brasileira é fundamentada pela pedagogia de Paulo Freire. Mal entrou no sistema público o pensamento freireano”, declarou Oussama.

Centenário de Paulo Freire: especialistas falam sobre principais legados do pernambucano

Centenário de Paulo Freire: especialistas falam sobre principais legados do pernambucano

São inúmeros os legados que Paulo Freire e sua pedagogia inovadora deixaram para a educação brasileira e mundial. Os especialistas ouvidos pelo G1 citaram aqueles que consideram como principais (veja vídeo acima).

Para Oussama, as problemáticas colocadas por Paulo Freire nunca foram superadas. “Em termos de pedagogia democrática, pedagogia dialógica, educação cidadã e educação comunitária, ele é uma figura incomparável. Em termos de todos os esquemas de educação que funcionam em torno do empoderamento dos grupos, das comunidades que vêm sendo oprimidas, de fato, ele é uma figura central. Ele não é celebrado no mundo à toa. É porque seu pensamento traz conceitos, respostas e problemáticas muito pertinentes e relevantes para com a realidade do nosso mundo”, afirmou.

Faixa homenageia Paulo Freire durante evento no Teatro Guararapes, em Olinda — Foto: Acervo/TV Globo

Segundo Dimas, a pedagogia freireana entende a educação como uma ferramenta de transformação das pessoas que as torne sujeitas da sua própria história e na luta dos seus sonhos. E uma prova da importância de Paulo Freire é a presença do nome do pernambucano em diversos espaços no Brasil e no mundo, apontou o pesquisador.

“Paulo Freire aparece em nomes de escolas, faculdades, universidades, teatros, centros culturais, diretórios estudantis, grêmios, sindicatos, associações, emissoras de rádio e TV, revistas, jornais, praças, ruas, avenidas, bancos comunitários populares, bibliotecas, cátedras universitárias, centros populares educacionais universitários, programas de financiamento científico de formação, monumentos, obras de arte, prêmios. Ele está presente não só enquanto uma concepção de uma educação dialógica, crítica, humanizadora, não apenas através da sua obra, que ele nos lega, mas se faz presente nessas entidades que tomam o seu nome e, ao fazer isso, abraçam a sua luta”, disse.

De acordo com Moisés, o legado que Paulo Freire deixou é a manutenção da esperança. “Ele criou um verbo com a ideia da esperança, que é o ‘esperançar’, que não é você ficar sentado esperando que aconteça, mas é um ‘esperançar’ que vem a partir do agir. A importância da comemoração do legado, do centenário de Paulo Freire é tornar vivo o ‘esperançar’, no sentido de construir novos mundos tão possíveis, com autonomia, criticidade e amorosidade”, contou.

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Fonte: Fonte: G1