Professores com deficiência: inclusão ainda é tabu nas escolas – Notícias

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Talita Nabas, 36 anos, mora na capital paulista, é professora e possui deficiência auditiva bilateral (disfunção auditiva que ocorre em ambos os ouvidos). Atuante na rede pública de ensino do estado de São Paulo desde 2014, ela conta ao R7 sobre os desafios da inclusão de professores com deficiência nas escolas.


“Não são todos os profissionais que conhecem as necessidades de uma pessoa com deficiência, prova disso que tive muita dificuldade de dizer às pessoas que sou surda”, diz. “Mesmo depois de tantos anos na escola, ainda percebo a indiferença e o distanciamento que isso causa.”


Talita, como demais professores da rede, foi aprovada via concurso público. “No momento da contração, além de passar pela prova, tive de comprovar minha deficiência auditiva com laudos médicos e exames, passei por perícia e junta médica que avaliaram se eu tinha condições de exercer o cargo. Muitos surdos não são aprovados nessa perícia devido a dificuldade de fala ou na dicção.”


A professora conta que já vivenciou situações de preconceito na comunidade escolar e acredita que muitas pessoas ainda não estão prontas para conviver com a diversidade.





“Hoje temos um trabalho na rede pública de ensino que me dá esperanças. No topo da estrutura educacional a inclusão é uma preocupação, mas falta essa realidade acontecer no chão da escola”, diz.


Para ela, o ideal seria a escola ter ao menos um intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), disponível para conversar com alunos e professores com surdez. “No meu caso, por exemplo,  a gestão escolar (diretores, coordenadores) e a maioria dos outros profissionais não dominam Libras, em reuniões de formação ou com os pais, muitas vezes tenho dificuldade de entender o que é falado.”


A pandemia trouxe mais uma dificuldade para a professora. “Agora todos estão com os lábios cobertos com o uso da máscara, o que dificulta muito meu entendimento, não consigo fazer a leitura labial”, diz.


Na visão de Talita, para um inclusão real seria importante o ensino da Libras como disciplina. “Hoje com a Lei da Inclusão conseguimos escolher uma profissão e nos formar, agora precisamos de espaço nas escolas para poder efetivamente mostrar para a sociedade nosso jeito surdo de ensinar”, conclui.





Como ela, outros 6.711 professores do ensino básico e 1.731 professores do ensino superior têm algum tipo de deficiência no país, informa o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). É o caso de Lara Souto, hoje com 36 anos, e cega. Sua deficiência foi provocada pela interrupção da gestação antes da 36ª semana. A jovem é professora de inglês em uma rede pública de ensino e dá aulas para alunos do ensino fundamental 2 (6º ao 9º ano).


“Eu sei que as oportunidades não são iguais, mas eu também sei que a educação transforma vidas, como fez comigo.”


Lara concluiu o mestrado do curso de letras pela USP (Universidade de São Paulo). “Eu nunca quis ser professora, mas eu sempre gostei de estudar e aprender e ensinar são duas coisas que caminham juntas”, conta.


Embora considere que a educação inclusiva avançou, avalia que desafios ainda precisem ser vencidos. “Na educação básica, por exemplo, são poucos os profissionais com deficiência que atuam em salas de aula regulares”, diz. De acordo com o último levantamento realizado pela SME (Secretaria Municipal de Educação) neste mês de maio, na cidade de São Paulo, o número de educadores atuantes que possuem algum tipo de deficiênciana na rede é de 86 professores.


Um estudo apresentado pelo Instituto Rodrigo Mendes na última terça-feira (17) realizado pelo Datafolha a pedido da Fundação Lemann, com 967 professoras e professores de todas as regiões do país, mostrou que metade dos docentes entrevistados (40%) disseram nunca ter feito um curso de formação sobre inclusão. A pesquisa foi realizada por telefone, com professores que lecionam para o ensino fundamental 1 e 2 e ensino médio de redes públicas, entre os dias 9 de novembro e 1º de dezembro de 2021.


Inclusão na Prática


Mariana Rosa é educadora e referência quando o assunto é inclusão e entende que o cenário atual se mostra resistente quanto a contratações de professores com deficiência. “As pessoas ainda não estão acostumadas a verem pessoas com deficiência em lugares de decisão, nos locais que exercem o protagonismo ou que possam de alguma forma ensinar uma outra pessoa”, diz.


Nem mesmo as escolas não estão preparadas para receber estes profissionais. “O mundo não está preparado para incluir nenhum grupo de pessoas minorizadas, convivemos em um lugar de exclusão e a cultura capacitista permanece impregnada pelo entendimento da deficiência como incapacidade”, relata.


No entanto, na opinião de Mariana, a luta pelos direitos deve continuar. “Quanto mais a gente conviver sem a discriminação, mais natural é a forma de levar a vida em sociedade, mas para que essa convivência ocorra é preciso de políticas públicas que permitam que as pessoas com deficiência ocupem e permaneçam nos lugares que são de direito delas”, finaliza.



Lei de cotas



A Lei de Cotas para Pessoas com Deficiência foi criada para assegurar a inclusão no mercado de trabalho. O direito está previsto no artigo 93 da Lei 8.213/91, que definiu os benefícios da Previdência Social.


De acordo com o documento, as empresas com mais de 100 empregados devem destinar vagas para beneficiários reabilitados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e pessoas com deficiência. A reserva legal para firmas com até 200 empregados é de 2%; de 201 a 500 (3%); 501 a 1.000 (4%); mais de 1.001 (5%). A multa para o descumprimento pode chegar a mais de R$ 200 mil.


*Estagiário do R7 sob supervisão de Karla Dunder




Fonte: Fonte: R7