Professor é finalista de Olimpíada de Matemática após criar versão de famoso jogo de tabuleiro com referências do ES




Thiago Cézar de Pádua Rosa, de Guaçuí, no Sul do Espírito Santo, é um dos 20 finalistas da competição que reúne professores de todo o Brasil. Jogo de tabuleiro com referências capixabas é sucesso em escola de Guaçuí, no Sul do Espírito Santo.
Swyana Freitas
Quando criou um jogo de tabuleiro para os alunos de ensino médio – geração z, acostumados com as interações apenas pelo celular -, o professor Thiago Cézar de Pádua Rosa, de 35 anos, não imaginou que o sucesso seria tão grande.
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Na escola onde dá aulas em Guaçuí, no Sul do Espírito Santo, o projeto interdisciplinar virou unanimidade. Mas também ultrapassou os limites da cidade na Região Sul e colocou Thiago entre os 20 finalistas da Olimpíada Brasileira dos Professores de Matemática (OBPM) em 2024. O resultado final será divulgado no próximo dia 27 e os medalhistas de ouro vão ganhar uma viagem para a China.
A ideia do professor é inspirada em um jogo de tabuleiro famoso no mundo inteiro, que chegou ao Brasil no final da década de 1940 e foi sucesso até o final do século 20. Batizado de “Banco Imobiliário Capixaba”, o jogo escolar foi criado no ano passado, sem fins comerciais, para atender uma disciplina eletiva, que deveria incluir Matemática e Geografia.
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“É uma versão regionalizada. Destacamos os tradicionais pontos turísticos do estado, e fizemos uma relação com a história e a cultura local. As empresas são capixabas e existem referências da escola. A Matemática está presente desde a contagem de dados e probabilidade até as estratégias de negociação na compra e venda de terrenos, imóveis e serviços”, explicou o professor.
Professor é finalista de Olimpíada de Matemática com versão de famoso jogo de tabuleiro
“Inicialmente, pensei em fazer o jogo só com elementos de Guaçuí, com as casas e ruas do município, mas era um universo que os alunos já conheciam. Ampliar para o estado inteiro prendeu mais a atenção deles”, disse.
Como funciona o jogo?
Como no original, no jogo criado na escola os participantes vão avançando com as peças, de acordo com casas e atividades. Podem comprar casas, precisam pagar aluguel aos proprietários, pagar ao banco, entre outros.
Jogo apresenta aos alunos desde pontos turísticos capixabas
Swyana Freitas
No tabuleiro, estão espalhados 30 pontos turísticos capixabas, como o Convento da Penha, em Vila Velha; o Mosteiro Zen Budista, em Ibiraçu; a Cachoeira da Fumaça, em Alegre; e o Pico da Bandeira, em Dores do Rio Preto.
As empresas que aparecem como opção de compra são capixabas, o que ajudou os alunos a aprenderem quais os tipos de negócios são desenvolvidos no estado. As notas de dinheiro têm ilustrações de matemáticos conhecidos, como Pitágoras e Arquimedes.
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As cartas de sorte ou azar também foram personalizadas. O que originalmente seria “Vá para a prisão” virou “Vá para a direção”, inclusive com a caricatura do diretor da escola; e foram inseridas opções como “Seu carro quebrou na Terceira Ponte, pague uma multa” e “Você vai participar do Festival de Alegre, ganhe quatro mil”.
Os alunos são incentivados a tomar decisões estratégicas baseadas em probabilidades ao lançar os dados e calcular os riscos envolvidos em cada movimento do jogo. “A interação social, inerente ao jogo, promove discussões matemáticas e estratégias colaborativas entre os jogadores”, afirmou.
Tabuleiro do jogo capixaba.
Arquivo pessoal
Mesmo com o fim da disciplina eletiva, com os dez tabuleiros impressos, o jogo continuou sendo utilizado por Thiago e outros professores, nos intervalos e tempos livres.
E não parou por aí, o projeto cresceu ao longo do ano, alunos foram divididos em grupos, pesquisaram sobre os pontos turísticos e fizeram uma exposição na escola, culminando com uma viagem para conhecer pessoalmente alguns dos pontos turísticos do estado.
Participação na olimpíada
Com jogo de tabuleiro, professor é finalista de Olimpíada de Matemática.
Swyana Freitas
Entre setembro e dezembro do ano passado, o professor participou das três etapas de avaliação da OBPM, que incluíram prova; apresentação em vídeo ilustrando o trabalho desenvolvido; e entrevista, que teve entre os avaliadores o professor Cristovam Buarque, membro do Conselho Acadêmico da competição.
O resultado da olimpíada será divulgado no próximo dia 27, às 18h, em cerimônia on-line que vai reunir os 20 finalistas do Brasil.
“Meu objetivo é derrubar o tabu de que a Matemática é uma disciplina difícil. Não é. Aprender é divertido e pode se tornar cada vez mais fácil à medida que nós, professores, transformamos a forma de apresentar os conteúdos”, contou Thiago, que coleciona boas experiências lecionando para alunos dos ensinos fundamental e médio, mas também para alunos do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e universitários da Universidade Federal Fluminense (UFF).
A pedagoga da escola, Magda Vieira de Faria Azevedo, foi quem recebeu a informação sobre a olimpíada e repassou para o Thiago. “Ele é muito interativo, gosta de participar, está sempre inventando uma coisa nova para juntar os meninos. Esse projeto da eletiva deu super certo, se destacou muito, então logo pensei que ele pudesse se inscrever”, falou.
Professor Thiago com o jogo capixaba. Espírito Santo
Arquivo pessoal
Para a pedagoga é muito importante contar com um professor motivado em criar novos projetos. “A escola precisa desse tipo de profissional, os alunos precisam, ele é sim um destaque. Agora está todo mundo na torcida”, celebrou a colega.
A Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Antônio Carneiro Ribeiro é a única pública de ensino médio em Guaçuí, e tem cerca de 640 alunos. Praticamente todos já jogaram o jogo capixaba.
“Eu não imaginei que o jogo fosse fazer tanto sucesso! Quando lancei a ideia, muitos alunos nem conheciam a referência original do jogo, porque eles não mexem com nada de tabuleiro, e logo se interessaram! […] A mesma coisa com a olimpíada, eu não esperava chegar tão longe, me inscrevi sem muita expectativa, sabia que seria o Brasil inteiro concorrendo. Já estou muito feliz com o resultado”, disse animado o finalista.
Desempenho ruim em Matemática motivou a criação da olimpíada
Brasil ocupa hoje a 65ª posição no ranking de 81 países que participaram do último PISA.
Getty Images
A baixa classificação do Brasil no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que avalia o ensino nas áreas de Matemática, Ciências e Leitura, foi o que motivou a criação da Olimpíada.
“O Brasil ocupa hoje a 65ª posição no ranking de 81 países que participaram do último Pisa, divulgado no final do ano passado, levando em conta os resultados da área de Matemática. Por outro lado, faz parte da elite da matemática mundial com pesquisadores e professores reconhecidos mundialmente”, pontuou Adauto Caldara, membro do Conselho Executivo da OBPM.
Esse desencontro de realidades mobilizou um grupo de engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) na criação da olimpíada, que está em sua primeira edição.
“O objetivo é reconhecer e valorizar iniciativas bem-sucedidas no ensino da Matemática em todo o país, de forma a disseminá-las, trabalhando para melhorar a qualidade do ensino da disciplina e, assim, contribuindo para alavancar a posição do Brasil no ranking mundial, a médio e longo prazo”, explicou Adauto.
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O representante da OBPM contou que, além de Thiago, entre os finalistas estão representantes de Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. Ao todo, foram 600 inscritos.
Os dez primeiros colocados participarão de um intercâmbio técnico e cultural de 15 dias, em Xangai, para conhecer o Centro de Educação para Professores da Unesco (TEC Unesco) na Universidade Normal da China. A viagem será em outubro.
O país foi escolhido porque figura sempre entre os melhores desempenhos no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).
Preparando medalhistas
Professor Thuago incentiva os alunos a participarem de Olimpíadas de Matemática em Guaçuí. Espírito Santo.
Swyana Freitas
Além dos jogos em sala de aula, Thiago é coordenador do Programa de Iniciação Científica (PIC) da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), e se empenha em preparar os alunos para participar da maior competição de matemática do país.
Segundo ele, os resultados obtidos têm sido gratificantes, e desde 2018 a escola do Sul do estado tem alcançado medalhas de ouro na competição.
“Há cinco anos, temos conseguido medalhas na olimpíada para os alunos. Em 2022 e 2023, as duas medalhas de ouro conquistadas nos colocou como os únicos representantes de uma Escola Estadual de Ensino Médio do Espírito Santo a conquistar a premiação máxima na competição”, falou.
Thiago lembrou que, quando estava no ensino médio, participou de uma olimpíada de Matemática, mas não teve a oportunidade de ir até o fim do processo. “Então, eu sempre incentivo os alunos a participarem de olimpíadas, já realizei meu sonho de ganhar medalhas através deles”, contou com orgulho.
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