Nossa biblioteca cabe no bolso

Fundada no século III a.C., a Biblioteca de Alexandria foi o maior símbolo de conhecimento do mundo pré-moderno. A perda do seu acervo não foi apenas física, pois apagou registros e histórias que poderiam ter dado um rumo completamente diferente à nossa civilização.
Nossa biblioteca cabe no bolso
(Imagem: Reprodução | Getty Images)
Hoje, a nossa biblioteca é digital e descentralizada. Está nas redes sociais, nos servidores de busca, nos arquivos online e na AI, ao alcance de qualquer smartphone.
  • Mas ter um acesso tão acelerado ao conhecimento humano não significa que temos a capacidade de compreendê-lo.
Um artigo publicado recentemente na revista The Atlantic analisa essa problemática. Ele aponta que o avanço da tecnologia está nos levando para uma era ‘’pós-alfabetizada’’. Nessa fase, a capacidade de ler e compreender textos longos está se tornando uma habilidade em extinção.
Por que ler um livro ficou tão difícil?
De lá para cá, a transição da leitura tradicional para o consumo de feeds digitais alterou a física do nosso cérebro. A neurociência cognitiva afirma que o cérebro humano domina aquilo que põe em prática. Hoje, nosso comportamento repetitivo é a interrupção constante.
(Imagem: Reprodução | Strand Magazine)
Pesquisas mostram a velocidade com que nossa capacidade de foco em telas foi reduzida nos últimos 20 anos:
Em 2004, o tempo médio de atenção antes de uma distração era de 2,5 minutos. Em 2012, esse número caiu para 75 segundos, e hoje, a média está em 47 segundos.
Esse hábito de pular de um estímulo a outro tornou a leitura de textos longos um esforço exaustivo para a maioria das pessoas. Os novos comportamentos mostram isso:
  • A proporção de adultos que leem por prazer despencou de 28%, também em 2004, para 16% em 2023.
  • Por outro lado, as apostas online tornaram-se uma atividade mais comum do que a leitura. No último ano, 57% dos americanos fizeram alguma aposta, enquanto menos da metade leu ao menos um livro sequer.
Isso também aparece na busca pela informação
Na década de 70, cerca de metade dos jovens na faixa dos 20 anos lia jornais diariamente. Hoje, menos de 10% mantêm esse hábito, preferindo consumir notícias por meio de vídeos rápidos ou áudios.
Para conter a falta de foco dos estudantes, as escolas e os currículos pedagógicos se adaptaram à nova realidade, substituindo a leitura de livros clássicos por trechos ou resumos.
Esse formato de simplificar as coisas já é mensurável: Em testes feitos nos EUA, apenas 35% dos alunos do último ano do ensino médio demonstraram capacidade de analisar temas ficcionais complexos ou avaliar a eficácia dos argumentos de um autor.
Há mais um fator que influencia: a AI
A chegada da inteligência artificial acelerou esse processo, apresentando um risco que fere não só a leitura, mas também a escrita. Inclusive, contamos como metade dos textos na internet hoje são feitos por AI, nesta edição aqui.
(Imagem: Philip Dulian | DPA)
Escrever é um processo cognitivo difícil porque é o mecanismo pelo qual estruturamos o pensamento lógico. É o esforço de conectar palavras que nos obriga a organizar ideias, encontrar falhas em nossos argumentos e sintetizar conceitos.
Ao delegar a redação de e-mails, relatórios e textos para ferramentas de AI, estamos terceirizando o próprio ato de pensar.
Os primeiros estudos científicos sobre o tema mostram as consequências dessa facilidade:
  • Aqui no Brasil, universitários que usaram AI para estudar tiveram um desempenho significativamente inferior em testes surpresa do que aqueles que leram e estudaram de forma tradicional.
  • No Reino Unido, o uso sistemático de AI para tarefas cognitivas apresentou uma associação direta com o declínio na capacidade de pensamento crítico dos participantes.
Então, estamos diante de um novo analfabetismo funcional?
O que o artigo descreve não é o analfabetismo tradicional, as pessoas ainda decodificam palavras nas telas, mas sim a perda da capacidade de pensar criticamente sobre o que está escrito. Estamos nos tornando “pós-alfabetizados”.
Como aponta o filósofo Kwame Anthony Appiah, se abrirmos mão do esforço analítico da leitura e da escrita, tornaremos-nos seres humanos cognitivamente diferentes.
A leitura profunda deixou de ser um hábito comum para se tornar um superpoder de nicho. Conseguir focar, analisar e tirar as próprias conclusões de um texto original, sem a mediação de resumos ou algoritmos de AI, é o verdadeiro diferencial intelectual da nossa época.