Famílias tentam manter esforços extras pela educação dos filhos em meio ao aperto nas contas da pandemia | Educação

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A cabeleireira Jacqueline Rodrigues, moradora de Paraisópolis (Zona Sul de São Paulo), conseguiu que a filha Jhullia, de 5 anos, estudasse em um projeto educacional que atende os moradores da comunidade. A vaga é uma chance de preparação melhor para uma etapa posterior: tentar bolsas em escolas particulares. Mas a pandemia e o fechamento das escolas colocou os sonhos em suspenso. A luta por uma boa alfabetização esbarrou nas aulas remotas, e o contato com os colégios que oferecem bolsas para o ano que vem está mais difícil.

A história da família Rodrigues não é isolada. O G1 conversou com esta e outras três famílias que se esforçam por uma educação melhor para os filhos e, em meio à pandemia, precisam fazer as contas para manter oportunidades que conseguiram.

“Tem escolas públicas boas, mas não em Paraisópolis. Tem no Itaim, em Moema, no Brooklin [bairros de SP], mas aí eu teria que pagar transporte, van escolar, ou eu mesma pegar ônibus e levar”, diz a cabeleireira.

As aulas de Jhullia, na associação Crescer Sempre, estão ocorrendo de forma remota desde março. Jacqueline afirma que tenta ajudar a filha nessa fase de alfabetização com lições, histórias e vídeos.

Jhullia, de 5 anos, está se alfabetizando durante as aulas remotas na pandemia. — Foto: Arquivo Pessoal

“Se a criança cresce em uma escola que se preocupa com ela, futuramente será um espelho diferente, a criança pode se interessar por outros caminhos. Essa é a nossa maior preocupação: a influência do mundo ou de amigos que não se preocupam em estudar”, afirma a mãe.

Lauryn, de 10 anos, em evento do clube de leitura que ocorria até o ano passado na escola pública em que estuda, em São Paulo. — Foto: Arquivo Pessoal

Para Kaley Michelle, a preocupação é manter o estímulo à aprendizagem da filha Lauryn, de 10 anos, que teve um diagnóstico de altas habilidades aos 3 anos.

Na escola pública em que estuda, Lauryn tinha aulas de aprimoramento até o ano passado. Autônoma e sem recursos fixos, Kaley Michelle foi atrás de atividades para a filha como clubes de leitura, teatro e até uma oficina de jornalismo chamada de “imprensa jovem”.

Neste ano os cursos não abriram. Com a pandemia, o material impresso demorou dois meses para chegar. O que manteve a rotina de Lauryn foram as aulas de computação (possíveis por uma bolsa), e aulas onlines gratuitas em plataformas de ensino.

“Acredito que a educação pode mudar o futuro da minha filha”, afirma ela. “Mas não só minha filha. A educação é essencial para todo ser humano. É o que forma nossa consciência, forma o cidadão”, afirma.

Dinheiro curto e mudança de escola

Pablo Souza e a filha Sofia, de 7 anos: desemprego levou à transferência de escola — Foto: Arquivo Pessoal

Pablo Souza, pai de Sofia, de 7 anos, perdeu o emprego de gerente comercial em São Paulo antes da pandemia. Com o aperto da situação financeira, teve de buscar uma escola de mensalidade menor. “Eu quero dar a ela oportunidades um pouco melhores do que tive”, afirma. ”

As despesas com educação correspondem, em média, a 4,7% do orçamento familiar, de acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), divulgada no ano passado pelo IBGE.

Naquela época, o brasileiro gastava, em média, 36,6% do seu orçamento com habitação, 17,5% com alimentação, 18,1% com transporte. As finanças domésticas tendem a ter um aperto com os possíveis reflexos do tombo recorde de 9,7% do PIB, o que levou o Brasil a entrar de novo em recessão.

“Estou desesperado para arrumar emprego logo, para que meu dinheiro dure este mês, para que Sofia vá para a escola [presencial] logo para aprender melhor. E, ao mesmo tempo, se a escola abrisse hoje, eu não mandaria”, afirma.

Para incrementar o inglês da filha, Pablo baixou um aplicativo com jogos, escritas e áudios do idioma. Além disso, combinou com Sofia um sistema de “créditos” para usar videogame: cada minuto de tela deve ser revertido por um minuto de leitura. “Foi uma forma que encontramos de estimular a leitura.”

Valdinei Santos disse que a família tem limitações de gastos em nome da educação da filha. “A gente não viaja, não janta fora”, afirma. O plano é manter Pietra, de 11 anos, matriculada em uma escola particular no ensino fundamental, até que ela possa disputar uma vaga em um colégio público técnico no ensino médio.

Pietra, de 11 anos, estuda sobre escrivaninha que ela mesma comprou com as economias feitas em 2019. — Foto: Arquivo Pessoal

Ele conta que seus pais, um sapateiro e uma dona de casa, conseguiram manter todos os quatro filhos em escola particular até o fim do ensino fundamental.

“O cobertor é curto. São coisas que a gente vai abrindo mão. A escola não deu desconto durante a pandemia, mas é a parte que nos cabe pelas nossas convicções. É aquilo que a gente tem que cumprir para que o plano seja mantido”, afirma.

Valdinei, auxiliar técnico em uma escola do ensino fundamental em São Paulo, reconhece que há boas escolas públicas, mas acredita que a grande quantidade de alunos em cada sala interfere na aprendizagem.

“Abrimos mão de tudo para garantir a educação. O foco é ela se formar bem, se Deus quiser. Dentro do que temos nos dedicado, vemos que é um projeto possível de ser realizado”, afirma.

Playlist: Volta às aulas


Fonte: Fonte: G1

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