Diretor de TV universitária entrega cargo por causa de vídeo sobre isolamento que cita Bolsonaro: ‘ato gravíssimo de censura’, diz | Pernambuco

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A divergência sobre um vídeo que trata de isolamento social na pandemia, com citação ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), provocou a entrega de um cargo de comando na TV da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ex-diretor do Núcleo de TVs e Rádios Universitárias, o professor Marco Mondaini disse ter sido alvo de um “ato gravíssimo de censura” praticado pela instituição.

Docente titular da UFPE desde 2004, Mondaini disse, nesta terça (23) ao G1, que “recebeu um pedido da superintendência de comunicação da reitoria” para retirar a referência ao presidente da campanha institucional.

No vídeo, segundo ele, aparecem imagens de manchetes de jornal e de portais de internet com a seguinte frase: “Bolsonaro diz que lockdown não dá certo e volta a criticar governadores”. A campanha também tem outras citações como “Brasil é epicentro global da tragédia da Covid-19” (veja vídeo abaixo).

Vídeo da TV Univesritária com citação a Bolsonaro provoca pedido de demissão de diretor

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“Não houve nenhum ataque nem adjetivação contra o presidente. Eu enviei o vídeo para o grupo de WhatsApp com pessoal de gestão da universidade, antes de divulgar o vídeo. Não só eu fui censurado, mas todos os jornalistas que produziram o material”, declarou o professor, que atua em graduação e pós-graduação e é especialista em direitos humanos.

Mondaini afirmou que tudo começou depois que solicitou a elaboração do vídeo institucional para abordar as medidas restritivas que a UFPE estava adotando.

“Foi quando governo de Pernambuco anunciou a quarentena e em que a universidade também informou que restringia mais o acesso. A ideia era falar sobre essas medidas em alguns segundos, para divulgar na TV Universitária”, disse.

Ainda de acordo com o professor, na sexta-feira (19), quando o vídeo ficou pronto, o material seguiu para os gestores.

“Uma hora depois, por volta das 17h, me ligaram da Superintendência de Comunicação, informando que o reitor estava pedido para tirar a referência ao presidente. Disse que não aceitava e coloquei o cargo à disposição”, afirmou.

O professor relatou também que, em seguida, recebeu outra ligação e soube que a demissão tinha sido aceita.

“Na segunda (22), me reuni durante três minutos com o reitor e outros gestores e fiquei sabendo que eles estavam agradecendo os meus serviços prestados”, observou.

Marco Mondaini disse, ainda, que ao pedido para “retirada da citação ao presidente” foi tratado pela Superintendência de Comunicação da UFPE com o “oficial”.

“Em nenhum momento foi feito o pedido em tom de conversa. Foi um ato contra a liberdade de expressão e contra a liberdade de cátedra”, declarou.

O professor disse que, agora, voltará a dar aula, já que é servidor concursado da universidade.

Diante do problema, a UFPE emitiu uma nota oficial para tratar da saída do ex-diretor da TVU. No texto, enviado ao G1 nesta terça, a universidade disse não “houve diálogo”.

“Por realizar uma gestão democrática, com capacidade dialógica e construção participativa da universidade pública, inclusiva, plural, diversa e laica, causou estranhamento a posição do ex-diretor do Núcleo de TV e Rádios Universitárias (NTVRU) de colocar o cargo à disposição sem procurar dialogar”.

Ainda segundo a UFPE, a gestão “sempre respeitou e trabalhou para o fortalecimento da autonomia do núcleo, o que é atestado na forma democrática de construção da minuta de seu regimento interno, que será apreciada em breve pelo conselho de administração”.

Na nota, a instituição afirmou que “reafirma o respeito e a proteção à liberdade de cátedra e de imprensa e à pluralidade de ideias, garantias irrenunciáveis do estado de direito”.

Também declarou que “a gestão agradece o trabalho desenvolvido pelo professor Marco Mondaini, reiterando o respeito por todas e todos que fazem o NTVRU”.

No comunicado, a Reitoria da universidade informou que o vídeo institucional faz parte da “campanha mais ampla que UFPE vem promovendo para elevar o compromisso e a conscientização de toda sociedade no enfrentamento da Covid-19”.

A instituição ressaltou que “o objetivo é falar para todas as pessoas, superar a gramática da polarização, visando a sensibilização da sociedade neste momento de tentativa de desqualificação das instituições da República”.

Também no texto, a universidade afirmou que “a comunicação institucional deve refletir o espírito de resistência dialógica e republicana, fundamentada em leitura mais ampla da quadra histórica que estamos vivendo”.

Por fim afirmou que “a UFPE trabalha para fortalecer a comunicação pública e o protagonismo e a representatividade da sociedade civil neste processo”.

Professora da UFRPE foi intimada a depor à PF devido a críticas ao governo de Jair Bolsonaro — Foto: Aduferpe/Divulgação

O caso do ex-direto da TVU é mais um envolvendo professores de instituições federais de ensino de nível superior envolvendo críticas ou citações ao presidente Bolsonaro.

Em 10 de março, uma professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) denunciou que estava sendo alvo de investigação da Polícia Federal (PF) por causa de um outdoor com críticas a Jair Bolsonaro.

Ericka Suruagy informou que prestou depoimento pela internet. Em nota, a instituição se manifestou sobre o caso e disse que censura é “inconstitucional e inadmissível”.

A investigação foi aberta no dia 29 de janeiro deste ano. Segundo o relatório do inquérito policial, o objetivo é apurar crimes contra a honra dispostos no Código Penal, nos artigos 140 e 141.

De acordo com a UFRPE, a docente, que atua no Departamento de Educação, é alvo de um inquérito aberto “a pedido do presidente da República”.

A apuração foi iniciada por causa da colocação, em 2020, de outdoors com os dizeres “o senhor da morte chefiando o país. No Brasil, mais de 120 mil mortes por Covid-19 #ForaBolsonaro”.

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Fonte: Fonte: G1

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