De uma pandemia a outra, UFRJ faz 100 anos como uma das principais potências científicas do Brasil | Rio de Janeiro

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A UFRJ nasceu ainda sob o efeito devastador da gripe espanhola, contra a qual somou esforços, e vira centenária na linha de frente de outra pandemia. Agora contra o coronavírus, seus pesquisadores apostam na inovação para estender o tratamento a mais pessoas.

A instituição foi criada pelo presidente Epitácio Pessoa, em um momento em que o país estava próximo do seu primeiro centenário como nação politicamente independente, o que seria comemorado dois anos depois, em 1922.

“Essa história centenária é pouco conhecida da população em geral, da sociedade, do Rio de Janeiro, do Brasil, e ela traz momentos muito importantes, que se conectam diretamente com a história do país”, destacou Tatiana Roque, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

Biblioteca da Escola Politécnica da UFRJ no começo do século XX — Foto: Divulgação/ UFRJ

Com um legado de inovações e participação em grandes obras, além de ex-alunos célebres, a universidade luta contra uma previsão de corte de R$ 71 milhões em suas contas para o ano que vem e para que se torne cada vez mais diversa.

“Estamos sempre atuando na área da saúde, na área tecnológica e na área das ciências humanas e sociais, com programas fundamentais para o avanço da nossa sociedade e para diminuir a desigualdade no nosso país”, afirmou Denise Pires de Carvalho, primeira mulher a ocupar a reitoria da UFRJ.

A educação em tempos de pandemia também conta com um desafio na área do ensino à distancia: cerca de 3,4 mil estudantes receberam R$ 1 mil para comprar um computador e acompanhar as aulas.

Posse de Denise Pires de Carvalho, primeira mulher a ocupar a reitoria da UFRJ — Foto: Reprodução/ TV Globo

Outro desafio enfrentado pela universidade é a reconstrução do Museu Nacional, que pegou fogo em setembro de 2018. As obras devem recomeçar ainda este ano. De acordo com Alexandre Kellner, diretor da instituição, a expectativa é que em 2022 parte do museu seja reaberta.

Imagem aérea de incêndio no Museu Nacional do Rio — Foto: Reprodução/ TV Globo

Faziam parte da instituição que seria conhecida mais tarde como UFRJ, em sua fundação:

  • Escola Politécnica, fundada em 1792 e considerada a sétima escola de Engenharia mais antiga do mundo e a primeira das Américas;
  • Faculdade Nacional de Medicina, criada 1808;
  • Faculdade Nacional de Direito, criada em 1891.

De lá para cá, a instituição se tornou cada vez mais plural. Atualmente, conta com 176 cursos de graduação e 232 cursos de mestrado e doutorado.

O tamanho da UFRJ — Foto: Aparecido Gonçalves/ Infografia G1

São mais de 4 mil docentes, 65 mil estudantes, 3 mil servidores que atuam em hospitais e 5 mil técnicos-administrativos. Possui a estrutura de um município de médio porte.

Sob o comando da UFRJ funcionam 9 hospitais e institutos de atenção à saúde, 13 museus, 1.456 laboratórios, 1.863 projetos de extensão, 14 prédios tombados, 45 bibliotecas e 1 Parque Tecnológico de 350 mil metros quadrados.

“É um modelo completo de universidade, que interage com a sociedade, que forma profissionais altamente qualificados e que gera conhecimento”, afirmou a reitora.

Câmpus da UFRJ no Fundão — Foto: Reprodução/TV Globo

Gripe espanhola e Covid-19

Os anos que antecederam a fundação da universidade foram os da pandemia da gripe espanhola que matou mais de 50 milhões de pessoas no mundo e cerca de 35 mil no Brasil. A Faculdade Nacional de Medicina, que foi atrelada à UFRJ, ajudou a combater a doença.

A gripe espanhola chamou a atenção para a necessidade de criação da universidade, pois era preciso desenvolver pesquisas de maneira mais consistente.

“Era uma situação muito diferente. Hoje a UFRJ é uma universidade consolidada, com curso de medicina consolidado, com hospital universitário, com inúmeras escolas que têm condição de dar suporte de pesquisa para ajudar no enfrentamento da pandemia”, disse a historiadora Marieta Ferreira, professora emérita da UFRJ.

A universidade que ajuda a combater a Covid-19 no Brasil conta com a integração entre as várias áreas do conhecimento para lutar contra a doença.

“Portanto, esta faculdade que, naquela época, enfrentou a pandemia da gripe espanhola, agora consegue ajudar o país na pandemia da Covid-19, mas ainda mais estruturada. Porque nós temos a faculdade de medicina atuando e junto com ela institutos de ciência básica da área da saúde que estão não só promovendo a possibilidade de diagnóstico molecular”, afirmou a reitora da UFRJ.

Inovações contra a Covid

Entre as inovações que foram desenvolvidas no combate à Covid-19 nos laboratórios da universidade está o VexCO, um ventilador pulmonar aprovado nos testes feitos com pacientes internados no Hospital Clementino Fraga Filho. Os ventiladores da UFRJ custam R$ 8,5 mil, enquanto os aparelhos disponíveis no mercado custam cerca de R$ 100 mil.

Outra é o Teste-S UFRJ, um teste sorológico de valor acessível para a detecção de anticorpos para o novo coronavírus e que pode identificá-los com alta sensibilidade. A ideia é que o exame possa ser aplicado em grandes populações, com custo menor do que os testes disponíveis no mercado.

Pesquisadores da instituição também trabalharam na pesquisa que mostrou que cavalos desenvolveram um anticorpo neutralizante 20 a 50 vezes mais potente contra o coronavírus. A descoberta será usada na produção de um tratamento sorológico contra a doença.

A professora Leda Castilho, coordenadora da pesquisa de desenvolvimento de um teste de baixo custo para a detecção do coronavírus — Foto: Divulgação/ Coppe/ UFRJ

Uma consistente parte de nomes que ajudaram a construir o Brasil nos últimos cem anos passou pelos bancos das diversas faculdades e institutos que formam hoje a UFRJ.

A própria reitora da UFRJ destaca que a instituição mudou sua vida. Muito antes de ser a primeira mulher a ocupar o cargo de reitora na história da universidade, ela foi a primeira da família a completar um curso superior.

“Eu sei o poder transformador da educação. Sou um exemplo desse poder transformador. Uma pessoa que vem de uma família da classe trabalhadora, ingressa no ensino superior e que chega à reitoria”, afirmou Denise Pires de Carvalho.

Fátima Bernardes comemora os 100 anos da UFRJ

Fátima Bernardes comemora os 100 anos da UFRJ

Quem também foi a primeira da família a entrar na universidade foi a jornalista e apresentadora Fátima Bernardes. Ela conta que o tempo que passou na Escola de Comunicação da UFRJ mudou a maneira como via o mundo.

“Eu digo que o que mais importante aconteceu para mim, durante os quatro anos que eu passei lá, foi que eu aprendi a pensar. Até então, eu fui aluna do ensino médio durante o período da ditadura. Então, chegar a uma universidade, ter contato com todas aquelas pessoas, todos aqueles mestres, fez com que eu realmente começasse a pensar com a minha cabeça”, destacou Fátima.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, lembra com saudade dos anos em que cursou Direito na instituição.

Segundo ele, o curso foi importante para a construção da formação acadêmica que o levou ao Ministério Público do Trabalho, ao Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro, ao Tribunal Superior do Trabalho e, agora, na instância mais alta do Judiciário brasileiro.

E a história de sucesso do ministro na UFRJ não se restringe aos livros. “Foi na comemoração do vestibular que conheci minha mulher, colega de turma, com quem estou casado, numa vida muito feliz, há 47 anos”, destacou.

O ministro Marco Aurélio Mello durante sessão do Supremo Tribunal Federal — Foto: Rosinei Coutinho/STF

Entre os ex-alunos da UFRJ estão:

  • Sérgio Buarque de Holanda;
  • Vinícius de Moraes;
  • Carlos Chagas Filho;
  • Celso Furtado
  • Oscar Niemeyer
  • Clarice Lispector
  • Jorge Amado
  • Cândido Portinari

Inicialmente, a universidade, com todas as unidades integradas, era algo que só existia no papel, mas não de fato.

Em 1930, foi criado o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, que intensificou os debates sobre educação. Também contribuiu para a composição da UFRJ a criação da Universidade do Distrito Federal em 1935, por Anísio Teixeira. Ela era vinculada à Prefeitura do Rio de Janeiro e tinha foco na formação de professores e no desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao ensino, contando com profissionais de várias áreas do conhecimento.

“A Universidade do Brasil, que antecede a UFRJ, é criada em 1937. Neste momento é um momento em que, de fato, o governo Vargas e Gustavo Capanema fazem um esforço de estruturar uma universidade, agora com uma força maior de aglutinar as faculdades existentes e, de fato, criar um modelo de universidade como um modelo para outras universidades em outros estados”, afirmou Marieta Ferreira.

A Universidade do Distrito Federal foi extinta em 1939, tendo boa parte de seu contingente absorvida pela recém-criada Universidade do Brasil, com a criação da Faculdade Nacional de Filosofia, em 1939.

Getúlio Vargas em visita à Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, em 1944 — Foto: Divulgação/ UFRJ

A UFRJ seguiu nas discussões sobre educação e pesquisa. Ao longo dos anos 50, o Brasil se modifica muito, com a industrialização e urbanização e a própria instituição discute mudanças e diretrizes para uma possível reforma.

Estas discussões foram interrompidas com o golpe militar. A reforma que viria a seguir seria feita de acordo com o modelo imposto pelo novo regime. Professores e alunos chegaram a ser cassados.

Um dos símbolos da luta contra a repressão foi a invasão do prédio da Faculdade de Medicina, que funcionava na Praia Vermelha, por forças policiais no dia 22 de setembro de 1966. Seiscentos estudantes foram agredidos.

“Isso teve consequências bastante importantes porque freou o debate que vinha acontecendo anteriormente, além de promover uma forte repressão em várias unidades, especialmente na área da Faculdade Nacional de Filosofia, que reunia muitas destas figuras envolvidas nestes debates”, afirmou Marieta Ferreira.

A nova reforma contaria com o fim das cátedras, criação de departamento e o regime de créditos. Na década de 60, a instituição ganhou o nome que possui hoje: Universidade Federal do Rio de Janeiro, ou simplesmente UFRJ.

Imagem áerea da construção do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na Ilha do Fundão — Foto: Divulgação/ UFRJ

A Faculdade Nacional de Filosofia é extinta e suas escolas foram transformadas em institutos.

As áreas relacionadas às Ciências Humanas acabaram por ser as mais penalizadas ao longo da ditadura. Porém, com a redemocratização, alguns professores retornam e as disciplinas se renovaram e cresceram com novas pesquisas e com a formação de novos professores e realização de concursos públicos.

A historiadora Maria Paula Araújo começou a lecionar na instituição nesta época, em 1984. Ano passado, ela trabalhou em um circuito pela democracia promovido pela universidade, com discussões sobre o período da ditadura. O evento foi finalizado com uma homenagem aos professores perseguidos.

“A produção intelectual precisa de um espaço de liberdade, de um espaço democrático para acontecer”, destacou Maria Paula.

Corredor da UFRJ no Câmpus da Praia Vermelha — Foto: Reprodução/TV Globo

Ela considera fundamental para a pesquisa acadêmica que os cientistas tenham liberdade, transparência, para que os dados das pesquisas possam circular entre os pares, e ética.

Na busca para que outros alunos também sejam os primeiros de suas famílias a entrar na UFRJ e que a instituição se torne cada vez mais plural, nos últimos anos a UFRJ ampliou vagas por meio do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) e da adoção de cotas.

“Hoje o perfil dos nossos estudantes é completamente diferente do que era antes. Eu entrei na universidade em 95 e eu vi essa transformação. A universidade era muito elitista, muito branca. E o perfil dos nossos estudantes mudou completamente”, afirmou Tatiana Roque.

Atualmente, 30% dos estudantes têm renda familiar igual ou inferior a 1,5 salário mínimo, aproximadamente. Para a reitora, ainda é pouco. Mesmo com o risco de sofrer um grave corte nas contas do próximo ano, que pode chegar a paralisar algumas pesquisas, para ela o caminho passa pela democratização do ensino superior.

“Um país que não gera conhecimento não se desenvolve sob o ponto de vista de nação soberana. A população fica refém de importações e inclusive serviços, não só de produtos. E isso é péssimo para toda a sociedade. Então, nós temos que ampliar o número de vagas no sistema público porque é um sistema de qualidade. E o financiamento tem que ser público porque é uma questão de Estado. A sociedade tem que valorizar porque ela depende destas instituições de qualidade para o futuro do país, se queremos ter um país mais moderno, à frente do seu tempo, com menos desigualdade, com mais riquezas, com mais emprego”, finalizou Denise.

Palácio Universitário, no Câmpus da Praia Vermelha da UFRJ — Foto: Reprodução/TV Globo

Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Câmpus do Fundão da UFRJ — Foto: Reprodução/TV Globo


Fonte: Fonte: G1

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